17/10/2015

…a distância à paralaxe


 …não há nada mais vago que do algo que é assintomático. A ausência de sensação ou estímulo é um conceito demasiado vácuo para imaginar o que quer que seja, ainda que na sua proporção física, seja perfeitamente visível, se descoberto. Um pouco como aquele conceito metafísico do “fogo que arde sem se ver”, ou a “ferida que dói mas não se sente”. Quando o desconhecido deixa de ser palpável na sua dimensão sensorial ficamos reféns da incerteza e de uma ansiedade que se transfigura em receio e insegurança. O medo apodera-se, e a dúvida sobrepõe-se à verdade.

Mas afinal “O que é a verdade?” Esta é a famosa pergunta feita por Pilatos a Jesus (João, 18, 38). Kant diria que a descoberta da verdade exigiria algo experimental. Mas como descobrir o que é a verdade quando não existe certeza, um ponto de vista, apenas o vazio gerado pela incerteza torna-se uma tarefa algo impossível. A não ser que, tal como Einstein postulou, apenas provando o seu contrário.

É nestas alturas, quem que nos vemos à distância da paralaxe, entre o que é verdade ou o que é apenas a dúvida, que descobrimos o quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade, é a nossa capacidade de criar cenários e estados de alma imaginários.


Sempre em busca de uma verdade na dúvida que não existe.  

04/10/2015

..reflexo condicionado



O dia começou outonal, cinzento e ventoso, mas o anoitecer vai ser em tons quentes de terra.

…de entre as conquistas da madrugada do primeiro dia do resto das nossas vidas, a urna e a cruz na folha de papel reciclado surgem como os símbolos mais religiosos o actual regime jacobino podia ter preservado. Os crucifixos nas escolas foram os primeiros a obliterar. Não obstante asprojecções, confesso o meu pessimismo sobre o resultado de hoje.Daqui a uns meses vamos voltar a sentir o silencioso grito de mudança, e provavelmente uns meses depois, nova consulta para rectificar o voto tempestivo deste dia de Outono.

Vinte e quatro horas de reflexão, é tempo demais, uma maçadora aula de yoga, Por mim, tinha sido já ontem, no início do verão, ou no bar da praia por entre um café e o pregão do homem das bolas de Berlim. Mas não foi. Culpem o futebol, culpem o tempo, quem quiserem, mas não são eles que decidem. Sou eu.

Dei-me ao trabalho de ler ambos manifestos eleitorais, o resto é pura utopia Obviamente não me revejo no modelo liberal que ambos defendem, de forma mais ou menos encapotada no PS, deliberada no PàF [a sigla mais idiota criada nos últimos anos, mas um resultado absolutamente brilhante!].

Ponderados os prós & contras, não há dúvidas que seria demasiado arriscado apostar no pensamento económico do Centeno, já para não falar da desilusão sentida mal se começou a aprofundar aquilo que parecia ser um programa com pés e cabeça [o Triunfo dos Porcos trunfo que acabou por uma versão atabalhoada do 1984 com telhados de vidro].

Apesar de ser a única proposta  com um cenário macroeconómico minimamente detalhado, e não um conjunto de boas intenções e de frases politicamente polidas. Ficou aquém das expectativas. Já para não falar no simples facto de não ter sido lida por quem de direito, de forma aprofundada. Como tudo na vida, nem tudo o que luz é ouro. No caso concreto enferma de alguns buracos negros, e zonas cinzentas que ainda hoje carecem de explicação. Um pouco à semelhança daquele primeiro cartaz que incendiou definitivamente o início da desastrosa campanha rosa.

A “Agenda para a década” enferma de alguns males pré-anunciados e expectáveis:

- Política centrada no “consumo interno” em vez de orientada para a poupança das famílias [muito útil para os nosso congéneres europeus, sobretudo para os fabricantes de gadgets electrónicos e automóveis; veja o boom verificado no mercado automóvel no primeiro semestre!];
 -Não adiante muito sobre a competitividade das empresas nacionais, sobretudo a sua internacionalização [veja-se a descida da TSU e o que isso implica];
 - Mantém a mesma filosofia que nos conduziu ao desastre do “compre agora e pague depois”;
 - Cria instabilidade ao nível da fiscalidade ou anunciar medidas temporais, receita que tem sido explorada até à exaustão pelo actual Governo e que foi um dos principais motivos pela erosão provocada nos eleitores que agora lhe retiram a maioria absoluta;
 - Apresenta uma inusitada diminuição das receitas da SS [à semelhança do programa do PàF] mas a uma escala ainda mais impressionante;
 - Não apresenta uma mais-valia relativamente a sectores tão importantes como agricultura, pesca, indústria;
- Está demasiado colada á lógica que nos conduziu ao desastre de 2011 [nome mais cândido que encontrei para definir bancarrota!].



A "Agenda para a década" até pode ser um documento bem estruturado, mas falta-lhe aquele lúmen de esperança, e isso nunca foi suficientemente explanado em duas semanas. Antes pelo contrário. Passamos o tempo a discutir fait-divers, notícias de jornais, "não histórias", "não assuntos". A riqueza do debate esfumou-se numa mão cheia de nada, de punho erguido.

Assim é difícil passar qual tipo de mensagem. A lógica afunila num discurso afónico. Sem estilo.

Do outro lado, temos um Governo que seguiu aquela lógica maquiavélica, dos fins justificam os meios. Guardou fechada a sete chaves a social-democracia e embicou na lógica liberal da TROIKA, num esforço que deu bons frutos em algumas matérias, mas que deixou um rasto de destruição na sociedade portuguesa. Não vale a pena enumerar.

Mas conseguiu reerguer o desaurido orgulho nacional. Isso conta. A ditadura das finanças ainda não terminou. Apenas continua de forma mais serena, mais estendida no tempo. É um sussurro, ontem era um grito constante em letras garrafais.

Amanhã a vida continua, na Lapa e no Rato. Nos outros locais, logo se vê, dependendo do reflexo do dia de hoje.

To do our country loss; and if to live,
The fewer men, the greater share of honour.


Henry V, Act 4 Scene 3

30/08/2015

...o homem do balão

…verão rima com silly season, dizem! Não sei, mas num país em que antes mesmo do início da época futebolística e da Festa do Pontal há a época dos fogos, tudo se permite e tudo é imaginável. Aliás, há uma forma bélica de retratar essa temporada – fase Bravo. Bravo, bravíssimo, por cá aplaude-se a morte do verde belo. Isto a propósito de um pedaço de terreno com meia dúzia de eucaliptos com porte bulímico, que resiste a arder há já vários dias aqui ao lado e que já motivou a intervenção de um helicóptero, uma carrinha envelhecida dos bombeiros e o esforço de guerra do pessoal da junta de freguesia. Não houve feridos nem danos de maior, apenas uma velhota de bengala que vinha com andar sofrido da benda, no momento decisivo em que do céu caiu uma queda de água.
Esta semana houve festa, foguetório música e animação. Na sexta-feira o artista da terra não granjeou críticas muito entusiasmantes, a avaliar pelos artigos de opinião ao balcão enquanto saboreava um café na dita benda. No sábado o elenco esteve bem melhor, ritmo festa de aldeia, duas bailarinas voluptuosas a hipnotizar os pais de família mais austeros, e as letras brejeiras em contraste com a santidade do evento. Café do clube de futebol da terra, cheio de garrafas vazias e no balcão, alternavam pires de amendoim com histórias da Chuissa e da Françia com o sotaque da terra.
Domingo, a mercearia nesse dia estava vazia, por norma a manhã é devotada às cerimónias religiosas, a tarde ao paganismo, mas antes a procissão e sermão comme d’habitude. Enquanto saboreava um dominicano fumo, e lia Bolaño, ainda consegui espreitar um pouco do sermão: temas pungentes- o pecado, o inferno & as tentações. No final, a procissão em que metade dos devotos desfila por convicção e outra por obrigação.
Há um costume que me fascina e só encontro por estas bandas, por entre um mar de flores, Nossa Senhora segue o passo cadenciado da fanfarra, segurando um belo rosário carregando notas de euro. Podiam ser títulos de dívida pública ou coco bonds, mas não deixa de ser subliminar esta devoção ao capital financeiro.
As festas de aldeia são das coisas mais fascinantes que existem: metade encosta-se nos cantos do adro, de braços cruzados como que se refugiando num olhar contemplativo, e outra metade observa as moças que dançam no palco e os pares de mulheres casadas e raparigas solteiras que desesperam pela falta de um pé de dança masculino. Os homens por sua vez, bebem uma cerveja no bar do clube, entre remoques sobre a última contratação do Benfica ou a discutir as estórias do ano que passou. O ano tem duas metades, antes da festa de depois da festa. No meio fica o olhar vazio do homem que vende balões. No ar respira-se um aroma doce a pipocas.
Finda a festa, a aldeia volta aos seu ritmo frenético, o amanhecer com a luta desenfreada dos galos, o sino a cantar a marcha do tempo, o melro a acabar com o resto da fruta que ainda resiste aqui no pomar e o gato da vizinha à espera que lhe traga um resto de qualquer coisa do jantar de ontem. Na mercearia, a velha está sentada e vai ditando a ladainha do costume, três trigos, um manteiga, um pacote de arroz e um pouco de queijo fatiado.

Aqui ao lado, o resto da caruma ainda fumega. Mesmo assim o casal de corvos ainda por cá pernoitou. Devem estar de partida, pois o barulho dos tractores já se faz ouvir com alguma intensidade e o homem do peixe já passou com a buzina encravada. O sino acabou de tocar, ai vão eles…os corvos. O verão acabou…nos próximos dias vai chover, e nos restantes também. O verão acaba quando entramos de férias. Começa quando acordamos na azáfama do primeiro dia de trabalho.

24/03/2015

...para Herberto Helder, poeta maior


As vacas dormem, as estrelas são truculentas,
a inteligência é cruel.
Eu abro para o lado dos campos.
Vejo como estou minado por esse
puro movimento de inteligência. Porque olho,
rodo nos gonzos como para a felicidade.
Mais levantadas são as arbitrárias ervas
do que as estrelas.
Tudo dorme nas vacas.
Oh violenta inteligência onde as coisas
levitam preciosamente.
O campo bate contra mim, no ar onde elas
dormem -
vacas truculentas, estrelas - e a inteligência, afinal
selvajaria celeste sobre a minha respiração.

Eu penso mudar estes campos deitados, criar
um nome para as coisas.
Onde era estábulo, na doce morfologia,
fazer
com que as estrelas mugissem e as poeiras
ressuscitassem.
Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
que minha inteligência se torne terrífica.
Unir a ferocidade da noite ao inebriado
movimento da terra.
Posso mudar a arquitetura de uma palavra.
Fazer explodir o descido coração das coisas.
Posso meter um nome na intimidade de uma coisa
e recomeçar o talento de existir.
Meto na palavra o coração carregado de uma coisa.
Eu posso modificar-me.
Ser mais alto que a corrupção.

Campos abanados pelo silêncio. Alguém como eu
mergulhando no que é o obscuro
das vacas dormindo.
Estrelas giradas, de repente mortas
sobre mim. Penso alterar tudo,
recuperar agora as colinas do mundo.
Falando de amor, eu falo
de génio destruidor. Falo que é preciso
criar a velocidade das coisas.
Que é preciso caçar flores, golpear estrelas,
meter o sono nas vacas, desentranhar-lhes
o sono,
dar o sono às estrelas.
Enlouquecer.

Que é preciso recriar o criar, meu Deus, ser truculento.
Ser simples e não o ser.
Abandonar os campos, rodopiar
a inteligência, a crueldade.
Abro a porta para não esquecer esta
absurda tarefa.
Esta tão particular necessidade.
Porque agora deixei totalmente de ser puro.
Levanto-me para dar de comer quentes
estrelas às vacas.
Sou tão puro, meu Deus, tão truculento.
É preciso principiar.

Digo baixo o nome. Corto os pés das estrelas.
Deixá-las na sua seiva estremecente.
Digo baixo que é talento envenená-las.
Minha alegria furibunda é a pureza do mundo.
E é tão belo agarrar com os ossos
que há dentro das mãos
na ponta de um nome, e desdobrá-lo.
Arrancar essa alma apertada.
Porque eu sei o estilo de uma alma
precisamente original.
Corto as estrelas das vacas.
Trago candeias para os campos extraordinários.

Porque eu bato na porta com meu júbilo furioso.
O amor acumula-se.
É para dar o ardor em doce dissipação.
Deus não sabe e sorri, esmigalhado
contra o muro humano.
Respiro, respiro. As coisas respiram.
Esta oferta masculina vocifera na treva.
Criar é delicado.
Criar é uma grande brutalidade.
Porque eu sou feliz. Durmo
na obra.
Só eu sei que a loucura minou este ser
inexplicável
que me estende nas coisas.
A loucura entrou em cada osso,
e os campos são o meu espelho.
Esta imagem perfeita arromba os espelhos.
Os nomes são loucos,
são verdadeiros.

Herberto Helder

22/02/2015

…the libert(y)ine

edição ne varietur

…confesso o meu desmesurado regozijo pelo facto das salas de cinema estarem pejadas de donas de casa desesperadas por romance e homens em busca do santo graal da virilidade…”dar-lhes e elas gostarem”. O Marquês de Sado decerto remove-se nas amarras do inferno dantesco onde repousa rodeado de virgens impuras, perante tamanho frenesim de armário. Outra conclusão justa que devemos retirar é que, os portugueses estão bastante mais interessados em couro e salas de tortura, do que dos “monólogos da vagina”destas novas correntes filosóficas de esquerda: Bloco, Livre, "Tempo de Avançar"…corrijam-me se cometi algum erro temporal ou se me esqueci de incluir algum.
 Parem as rotativas!
Tenho uma declaração importante:
[alguém diga ao Sr. da primeira fila para comer bolo rei de boca fechada que já ninguém suporta ouvi-lo!]
- Eu (ainda) não sou candidato presidencial…apesar de sentir um vaga-lume, uma força intersticial que me demove a não apresentar já aquilo que me vai na alma. Antes, sinto uma apreensão, pelo facto de todos os comentadores políticos, faltar ainda a trupe do trio de ataque , a Teresa Guilherme e o pessoal que apresenta os programas de entretenimento familiar ao domingo! Ah…falta também a malta do Eixo do Mal!

1984…esqueçam esse delírio do Orwell, a data correcta devia ter sido 2015. Afinal the Big Brother somos nós, que o diga o Schäuble. Eu sempre disse [se não o escrevi por estas bandas as minhas desculpas] que o FMI, o BC..perdão Bundesbank e a Comissão Europeia sofriam de delirium tremens e de um bipolarismo crónico. Se a memória não me atraiçoa, no primeiro relatório após o fim do programa vinha preto no branco que o ímpeto reformista do Governo português tinha esmorecido. Facto que é absolutamente normal, dada a proximidade das eleições [“que se lixem as eleições”, Passos Coelho cit.], pois a causa laranja sabe perfeitamente que, apesar da sede masoquista das mesmas donas de casa desesperadas e de alguns desencalhados, o garrote da austerocracia não podia estar eternamente apertado, sob pena de ficarmos de a menina da loja de ferragens, e todos sabemos quão casto e ternurento é o seu olhar. Ou era isso, ou a sangria descambava num conto de vampiros, ou numa triologia com elfos e anões, mas parece-me isso já foi chão que deu uvas.
Em vez disso, convoque-se uma conferência de imprensa e apresente-se a menina em todo o seu esplendor. Um modelo de virtudes, não no jeito do Sr. Grey [perdoem-me as libidinosas de romance de cordeal] de chicote e couro, mas numa redoma de esplendor e sucesso.



Depois, estenda-se sobre a toalha debruada de poemas florais, aponte-se com a vara e elenque-se, uma a uma, a cornucópia de números:
perda acumulada do PIB de 17,6% entre 2008 e 2013 [período preso 44 – rapaz de Massamá]
…meio milhão de desempregados
"(…) estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo"
Passo Coelho cit.
…centenas de milhares de novos emigrantes
"Quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspectiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo"
…um senhor que tirou um curso (?) e que foi membro deste Governo
…um país mais pobre, 1% da população bastante mais rica [excluindo algumas famílias de banqueiros impolutos]
…uma dívida pública quase 130% do PIB [já descontando o pagamento antecipado ao FMI]
…uma classe média quase destruída,
…um Estado sem as gorduras, apenas osso , algumas camas vagas e uns médicos tarefeiros subcontratados a preço de empregada de caixa do Continente no serviço de urgência
… as famosas reformas estruturais consolidadas, as mesmas que vimos ouvindo deste os tempos do Passeio dos Alegres do Júlio Isidro;
Melhor? Só mesmo as 10 pragas que nos fala o Livro do Êxodo
Mas então qual será a métrica do sucesso? O número de exemplares do último livro do António Lobo Antunes que foram vendidos na FNAC? O número de turistas que entram nos aeroportos? O teor das frases de êxtase nacionalista bairrista do Portas enquanto degusta uma chouriça? Ou a contabilização dos disparates que o Alberto consegue dizer numa frase só?

O sucesso do programa, que provoca todo este orgasmo mediático em redor do olhar esfíngico da rapariga da loja de ferragens são notas soltas de excel, polvilhadas com algumas nuances sibilinas de dor e prazer para economista ler:

Vamos por partes em 2014, o Estado [eu, o senhor da primeira fila que continua a comer bolo-rei e o sr. Castella, mil perdões, apresento-vos! é o senhor que está a gravar esta conversa!] pagou 7 098,4 M€ em juros, e recebeu das aplicações 126,0M€.

Ou seja pagamos de juros líquidos qualquer coisa como: 6 972, M€
É só fazer as contas…
Já em 2013, o saldo terá ficado por 6 841,6 M€, ou seja num ano conseguimos pagara apenas mais 1,9% de juros, mais coisa menos coisa 4 a 4,5% do nosso PIB. É só fazer as contas…

Por outras palavras, quando a Cristas, o Portas e o senhor que falta sistematicamente às reuniões do Conselho de Ministros [e como tal, não segue a o diktats da retórica oficial da Lapa] andam a fazer milhas na TAP, basicamente andam à procura de 2% de crescimento da Economia que possibilitam respirar um pouco enquanto o Sr. Grey nos sodomiza com essa coisa obscena do mercado e dos ratings.

O sucesso também pode ser dirimido olhando para os números da perspectiva dos olhos vendados e na posição de quatro:

O Estado, que agora descobriu que a pílula e a contracepção são inimigo juramentado da economia [segue-se a revisão da lei da interrupção voluntária da gravidez? Ou ainda vamos andar entretidos com a temáticas da causa homossexual?] tem um grave problema, que aliás foi detectado nas análises estatísticas da fecundida do período 1960-1980 mas que foi continuamente ignorado por sucessivos governos de esquerda e direita:


Estamos cada vez mais velhos como o Velho do Restelo, e afinal o problema não estava na exibição do Império dos Sentidos.

Como se não bastasse a taxa de fecundidade ser residual, milhares de jovens são confrontados actualmente com a necessidade de sair rapidamente do país. Isto apesar do Pedro jurar a pés juntos que nunca ninguém disse para saírem…

Olhemos para a folha de excel, mas sem a venda nos olhos:
Dados relativos ao período 2008-2014
2008
2014
Variação anual
Contribuições Seg. Social
13 082 M€
13 658 M€
+0.7%
Pensões pagas Seg. Social
12 818 M€
15 457 M€
+3.2%
Contribuições Cx. Geral Apos.
2 298 M€
5 018 M€
+13.9%
Pensões pagas Cx. Geral Apos.
6 079 M€
8 503 M€
+4.0%
Contribuições SS+CGA
15 380 M€
18 676 M€
+3.3%
Pensões pagas SS+CGA
19 528 M€
23 959 M€
+3.5%
É só fazer as contas…
O saldo tem aumentado nos últimos anos em cada ano, e nem todas as milhas no cartão Vitória serão suficientes para ultrapassar a força dos números.
Solução: Simples!
Aumento do IRS condimentado com umas notas de poeira para ludibriar os contribuintes com benesses fiscais e carros de alta cilindrada. Uma máquina fiscal persecutória e com laivos de laxismo nalgumas elites económicas. Despedimentos encapotados de requalificação e outras manobras de semântica abrasiva et voilá!
Aumento da receita, desde 2009, a uma taxa anualizada de 3.9%:
 - IVA cresceu à taxa de 3.9%
 - IRS cresceu à taxa de 7.5%,
 - IRC decresceu à taxa de 0.1%

De facto o país está bem melhor, que o diga a rapariga da loja de ferragens. Só não sabe quem não experimenta pelo menos uma vez! Pagou com o corpo, mas sentiu o prazer na dor. Moral da história, o Dominique Strauss Kahn tinha razão: elas desconheciam que eram pagas para fazer aquilo.

O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada.

Marquês de Sade

30/12/2014

…et pour cause

…há algo que ainda hoje me desnorteia e que tem haver com a inexistência de imagens ou fotografias relacionadas com a saída limpa dos Srs. Subir Lall, John Berrigan e da Sra. Isabel Vansteenkiste algures em Maio deste ano. Numa época em que sabemos qual teor da ementa do almoço do fulano de Évora, ou as desavenças de uma família de primos desavindos, estranho se abandonaram o país com um largo sorriso ou uma dúvida inquietante!?



É certo que não lhes guardo qualquer tipo de rancor, pois não tiveram culpa formada no estado deplorável desta bodega. Espero sinceramente que tenham feito uma boa viagem e que nas próximas décadas, escolham outro destino paradisíaco para ensombrar a vida de outrem.
Decidi escalar esta montanha russa que foi o ano e por entre entradas e saídas das grades pouco sobra para classificar este ano miserável. De Janeiro a Dezembro é-me difícil não encontrar um screenplay mais adequado para um episódio da série “Prison Break”, se bem que no cômputo de entradas e saídas apenas se note uma evidente ausência de alguém ligado ao caso dos submarinos. Aparentemente [até a deputada Ana Gomes descobrir a rolha do casco!] o caso submergiu a esse subterfúgio habitual da nossa justiça- prescreveu.

[até nisso somos notáveis!]


Assim, depois de folhear o jornal diário, alguns factos que atestam a singularidade deste rectângulo isósceles [não tão complexo como a quadratura do círculo!]: um ex-primeiro ministro preso quando tentava entrar no país com direito a acompanhamento jornalístico exclusivo quase em directo; uma ex-ministra da educação condenada com pena suspensa por prevaricação de titular de cargo político depois de uma grande festa chamada Parque Escolar; um ex-deputado [hábil organista e com tendência para arranjar problemas com herdeiras de fortunas] condenado a pena de prisão efectiva por por burla qualificada num banco [nova moda em Portugal?] e branqueamento de capitais; um ex-ministro condenado a prisão efectiva depois de umas trocas de “robalos” com um vendedor de sucata; um ex-autarca que sai em liberdade condicional depois de uma cuidada dieta prisional; alguns altos quadros do Estado detidos num caso relacionado com vistos dourados em que empresários orientais e outros que tais compram casa preço de ouro [apesar de enganados!]; um crash no sistema informático judicial [muito útil nos dias que discorrem nos jornais] e cujas consequências ainda hoje permanecem no baú dos mistérios insondáveis; um erro matemático primário na colocação dos professores, num ano curricular que começou sem problemas; pedidos de desculpa de ministros que se demitem e são repescados porque já não há bons rapazes na lista dos requalificados nesta altura da legislatura... et cetera.



Voltando aos três fantásticos senhores que saíram em Maio, gostaria de lhes perguntar se o objectivo de redução da despesa e da reforma do Estado foi efectivamente cumprida? Tenho a leve sensação que a caldeirada de medidas que foram sendo tomadas ao longo da sua aprazível estadia neste hostel de terceira categoria se saldou num rotundo fracasso. O primeiro relatório após a saída kleenex deixou-me absorto em dúvidas…

E assim fui acrescentando o ano que agora finda, tirando as reduções nos serviços prestados pelo SNS que são tema de capa de jornais de inquestionável reputação [como o CM], abstraindo os cortes verificados na assistência a alunos com necessidades especiais, descontando os cortes nos medicamentos inovadores, deduzindo os cortes na investigação científica e nas bolsas de estudo, abstraindo os cortes na educação e na saúde [entretanto fiquei sem gaze e o tintura de iodo]. 

Penso que no Estado Social [que o rapaz de Massamá tão habilmente defende?!] a única coisa que ainda não sofreu nenhum golpe deverão ser os esquecidos quadros do Juan Miró que provavelmente jazem na garagem do “pseudo” Secretário de Estado da Cultura.

Muito se cortou pouco ou nada se criou ou construiu ao longo destes 364 dias.



Entretanto areia do tempo foge-me, e a esta hora já devia estar a bradar aos sete sóis Bom Ano Novo, num clamor orgiástico de alegria, mas tenho muita pena. Daqui a umas horas é apenas uma quinta-feira em que estranhamente ainda é feriado. Religiosamente vou ouvir com toda a atenção a mensagem de Sua Santidade o Papa, deliciar-me com o Concerto de Ano Novo, dar um beijo enorme aos meus queridos, e vou encarar este novo ano como um dos mais desafiantes e difíceis da minha curta estadia neste abraço de mar.

Ainda assim trago aqui um post-it mental com algumas recomendações que tenciona adicionar à short-list de desejos que acompanham a ingestão tradicional das passas de uva branca [as únicas que ainda tolero ingerir com agrado:

 - Que a miséria social que entristece o silêncio da noite deixe de ser uma triste realidade;
--Que haja um brilho de esperança em cada rosto de desalento que diariamente se extingue;
- Um novo Governo menos arrogante que não nos tome por idiotas e que tenha a hombridade e a dignidade de nos considerar como pessoas;
 - Justiça para quem pede e autoridade para quem exerce;
 - Crianças com professores, essa espécie humilhada e perseguida, que possam desempenhar a sua nobre profissão: ensinar.

 - ..et cetera

A lista é infindável, mas fico-me pelo pensamento contemplativo de todas as desgraças, histórias, casos que fui absorvendo ao longo destes últimos anos. Não são estas palavras vão mudar tudo neste breve segundo de  tempo. Mas dentro de alguns meses serão estas mesmas palavras que me vão orientar os meus votos.


Bom Ano & até já!

28/09/2014

...a república dos anjinhos

…esta semana tenho andado muito ocupado para me debruçar sobre as repetidas intervenções do Pedro, mas pelo que tenho lido confesso a alguma perplexidade sobre as temáticas que têm originado uma constante presença da sua personagem nos tablóides.

No início da semana ainda compreendi a alusão à “salsicha educativa”, como forma insidiosa de desculpabilizar o pedido de desculpas apresentado pelo seu lugar-tenente da educação. Não vou formular aqui nenhuma opinião acerca das suas qualidades como político, pois ele sabe que não o é, mas antes expressar o meu regozijo pela sua capacidade de raciocínio matemático. A dedução matemática da fórmula reinventada pelo ministério que tutela deverá ser um excelente desafio para mestrados e pós-graduações no futuro.

Depois da rábula de charcutaria, seguiu-se a comédia a la carte dos almoços na ONG CPC. De facto o Pedro falou a mais pura verdade no Parlamento. Não recebeu, enquanto deputado, qualquer retribuição da empresa onde trabalhou. Também não deixa de ser verdade que enquanto deputado, desempenhou com inteira exclusividade (1995 e 1999) enquanto se encontrava intramuros no antigo convento de São Bento.

"Optei por fazer o curso de Economia enquanto trabalhava na Tecnoforma"
Pedro Passos Coelho (2010)
Pedro Passos Coelho (2010)
“Finalmente temos um candidato a primeiro-ministro sem casos passados”
Miguel Relvas (2010)
"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos."
Platão (séc. IV a.C)

Se rabiscava uns artigos de opinião nos passos perdidos enquanto se deliciava com um café e uma roçadela na barba, como forma de inspiração  lírica, isso são assuntos da esfera privada que não interessa aqui ressuscitar. Igual raciocínio se aplica aos almoços e constantes deslocações que fazia para Almada [sede da ONG que fundou; ainda em exclusividade, note-se!].

Convenhamos, sair do meio de Lisboa, em hora de ponta, e tentar chegar à outra margem de borla, jamais!

Pior,  conseguir conciliar a exclusividade com a quantidade abismal de representações e chás de final de tarde com os deveres de deputado [em exclusividade], não é tarefa para qualquer um.Requer asas!

Nem mesmo o António conseguiu andar em campanha eleitoral para as primárias e estar ao mesmo tempo a desentupir as sarjetas enquanto o temporal afundava a capital, para desespero do vereador queixoso.

Se recebeu e não declarou, não interessa agora. Parte desse problema já prescreveu numa madrugada qualquer de 2007. Aliás, as madrugadas e os fins de semana neste país, são o “sétimo céu” para o exoterismo. Assunto arrumado, aliás…quantos como ele não o fizeram, sem ser necessário qualquer número digno de uma boîte do Cais do Sodré?

O fulcral é que, apenas agiu como qualquer um de nós. Tentou desenrascar-se e não se armou em anjinho. Tout court !

Donc, se o Pedro não se lembra, e o Passos não sabe quanto, porque é que o advogado da antiga empresa há-de saber mais?

"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."Platão (séc. IV a.C)
Preocupa-me muito mais os deputados (e alguns anteriores) que exercem actividade profissional, ainda que encapotada por mero aconselhamento ou consultoria, em empresas ou escritórios de advocacia, em claro conflito com o interesse público [a esse respeito aqui fica uma clarabóia para quem ainda tenha um par de asas sobresselente no armário].

Muito se fala promiscuidade entre a política e os negócios [o António bem apontou ao António esta semana no último debate]. Pode continuar repetir esta frase nos próximos anos, pois não vai cansar-se de a ouvir. Faz parte da retórica de qualquer parlamentar digno de tal.

Mas nem tudo foram más notícias para o Governo [exceptuando o caos no Citius, os problemas no arranque do (a)normal ano escolar ou os problemas técnicos na TAP]. De facto a iniciativa da fiscalidade verde, antes mesmo de ver a luz do dia já apresenta efeitos sensíveis ao nível da saúde do Planeta. A camada do ozono tem estado a recuperar, apesar do degelo nos pólos, da desertificação, das alterações climáticas e das frases apocalípticas do Dr. Soares. É sempre bom saber que os velhos ainda mexem. 

"Pedro Passos Coelho fez comigo o que todos os partidos fazem com os mais velhos: afastou-me"Ângelo Correia
Acho que ainda vou a tempo de deixar uma pequena nota  para o Sr. Albino, o secretário-geral AR:
"É perigoso querer corrigir seja quem for"Oscar Wilde


Para terminar, já que o domingo vai longo e tenho o chá a arrefecer, uma palavra de conforto para o António que vai hoje para os anjinhos...

12/08/2014

...o tempo na estrada da Atafona

 
Estes dias de inverno fazem-me lembrar a Lei Seca, por mais que o calendário indique que é Agosto e por conseguinte, Verão, calor e todas aquelas experiências comuns que nos deliciam nesta altura, nunca tanta água se viu fluir nas goelas do nosso descontentamento. Do meu, e daquela senhora que, debaixo do toldo dos gelados Olá, vendia mel e chá de hipericão na vila do Gerês, enquanto fintava o tédio contando os pingos de chuva que caim no passeio deserto.

Sentado na esplanada, enquanto espero no estranho divagar de desconversas em francês e algo semelhante a português, tento folhear o meu arquivo biográfico, um querido mês de agosto tão profundamente encharcado, e reparo que, algures no já no falecido século senti experiência similar, ainda que esse tempo tenha permanecido no sótão dos momentos originais sem qualquer tipo de saudade.

O tempo aqui não passa, é apenas um fio condutor, numa ponta o nascer do sol, noutra o ocaso das horas. Num dia como este, em que o sol se esconde no silêncio do nevoeiro, nem mesmo o tempo tem a capacidade de nos iludir as horas que o sino da torre da igreja nos confia. Ainda pensei deixar este texto para daqui a uns dias, talvez como contra-capa de um sol maior, ou como contra-texto de um esplendoroso dia em que qualquer coisa se passasse nesta estrada, onde ninguém passa, nem mesmo o tempo.

Falando de rotinas, coisa estranha para quem está de férias, hoje de manhã, peguei na objectiva e fui ao café. Encontrei o lugar ideal,  desolado e magnificamente hermético aos caprichos do tempo. Apenas o som do grão a ser moído, aqueles dois idosos a folhear um jornal velho, e ao fundo algo inalcançável de um pouco de nada. O palco ideal para adivinhar estórias e imaginar contos de fadas. Tal como o Buñuel, numa folha já gasta de um jornal de notícias desvendadas, descobri a coreografia para imaginar este texto.

Estou um pouco saturado de toda este vaga-lume em redor do "banco bom e do banco mau", ontem em Braga na Brasileira, apenas e discutia as frivolidades em redor das supostas desventuras deste Távora da etérea finança. Como o próprio um dia disse, a finança é amoral. Fim de citação. Disse tudo de uma vez, só.

Outro facto que tem suscitado alguma raiva pessoal incontida é a falta de rede de telemóvel. Sem rede não há milagres, nem mesmo o mais intrépido evangelista seria capaz de ultrapassar esta sensação de estar algures entre o período da pedra lascada e o início da revolução industrial. Em contraciclo, abundam por aqui painéis solares que dão um retoque poluente á paisagem bucólica desgastada pelo tempo.

Penso que por agora fico-me por aqui, saiu antes que o sino dobre a meia hora, mas deixo na maçaneta o «do not disturb», na esperança que alguém passe e repare, que sai antes do tempo.

20/07/2014

..venenos de inspiração divina

…nos dias em que o espírito santo caiu em desgraça. Mas antes uma passagem prévia pela 27 obras de caridade rumo ao baby-boom nacional. Se não me falha a memória, algures nos meus escritos referi a questão da demográfica como uma ferida indolor que minava o futuro do país, mas isso foi no tempo em que os holofotes estavam virados para outras temáticas menos aborrecidas, e provavelmente para assuntos fracturantes da sociedade, moda com diversos adeptos em Portugal, ainda que cada vez menos.

Desde tempos imemoriais, quando não se pretende resolver assunto neste quadrado cria-se um comissão ou um sucedâneo com efeitos colaterais similares. À primeira vista, a agora extinta Comissão para uma Política da Natalidade em Portugal (segue-se provavelmente outra comissão para apreciar os efeitos em termos orçamentais das medidas!?) seria uma iniciativa pública com importantes contributos da sociedade civil, tratando-se de uma questão de elevado relevo nacional. Mas não. Curiosamente, ou não, tratou-se antes de uma iniciativa partidária do PSD, sem o bene placito do compagnon de route que já veio a terreiro com um sorriso pungente de ironia, reafirmar que a bandeira da procriação descontrolada era do CDS, não fosse ele um partido de inspiração cristã [abaixo a pílula, fora o preservativo].

A ideia até era interessante, e o conjunto de medidas indispensáveis. O problema é que o mentor da ideia, o próprio PPC na qualidade de presidente do grémio laranja foi abruptamente desautorizado uma horas depois pelo PM – o próprio! Mais, a própria ministra das finanças e o líder parlamentar da mesma corte partidária apresentaram desde logo uma bateria de condicionantes e premissas que tornam algumas [ou a quase totalidade das medidas] mais emblemáticas, senão difíceis de executar, quase improváveis de sair da mesma gaveta onde foram produzidas.

Felizmente para os futuros papás e mamãs, uma outra comissão [Comissão da Reforma da Fiscalidade Verde] com igual incumbência de resolver os males que afectam a sobrevivência da portugalidade, retirou os sacos de plástico da cartola e descobriu que o segredo para o sucesso da fecundação, não está no plástico mas sim na velha saca de pano bordado. Eu não discuto o mérito das medidas eco sustentáveis apresentadas, mas duvido que alguma vez os ca. de 180 M€ milhões de euros das medidas que visam a protecção ambiental à custa de um aumento encapotado de impostos sirva de leitmotiv para compensar os ca. de 300 M€ aumento da natalidade. Talvez fosse preferível substituir o látex por um paninho e poupavam-se uns trocos à custa de uns sustos no final do 9º mês!

E por favor, não façam das pessoas que lêem notícias meras indigentes! Aumentar a incidência fiscal sobre o carbono não pode ser considerada uma medida neutra em termos fiscais, e a probabilidade de interferência da designada eco inovação e a eficiência na utilização de recursos, ou mais espantosamente, «fomentar o empreendedorismo e a criação de emprego», só constituir um exercício infeliz de wishful thinking de algum assessor depois de uma noite mal dormida a pensar nas obrigações da Rio Forte!

Nota da administração antes de passar à gross matter, acho deliciosa a troca de galhardetes entre o ex-bloquista Daniel e o novel comentador Louça. É espantosa a diversidade de sensibilidades [ou falta dela] que grassava na sede do Bloco. Mais ainda, é a arrogância que a actual intelligentsia bicéfala Bloco revela, quando os seus principais quadros se desvinculam de um partido que se afunda num conceito inexplicável de querer apenas e somente influenciar e não tomar parte de uma solução efectiva de governo. Acresce, as propostas bizarras que o economista Loução e um conjunto de notáveis apresentaram para a reestruturação da dívida. Um trabalho académico, notável de todos os pontos de vista, menos o da clarividência.

E por falar em Rio Forte. Há uma ribeira em Aljustrel que dá pelo nome de ribeira da Água Forte que por sinal a única coisa forte que transporta no seu caudal, são as escorrências tóxicas das minas de Aljustrel. Também temos a água forte (HNO3), que era um produto com o qual sempre tive alguns cuidados no seu manuseamento nas minhas aulas de quimicotécnia [disciplina desaparecida da oferta educativa do do actual secundário], dado que queimava de forma ostensivamente lancinante. Finalmente, segue-se o Rio Forte, a ESI, a ESFG, o GES e todos aqueles que durante as últimas décadas moldaram esta nossa peculiar portugalidade das formas mais retorcidas e insuspeitas.

Não vou abordar os efeitos de largo espectro do DDT, pois na minha cadeira de biologia do 12º já na longínqua década de 80, a sua utilização era proibida em Portugal. Apenas como curiosidade científica, os efeitos do DDT na cadeia trófica prolongam-se por aproximadamente três décadas. Daí que, gostaria de expressar desde já o meu aplauso à equipa de voluntários que vai tentar desintoxicar o ambiente. Esta sim, a verdade reforma verde, com efeitos imediatos e persistentes na natalidade.


Por favor salvem o porquinho mealheiro BES da Agatha Ruiz de la Prada!

04/05/2014

...nas asas de um anjo


Não gostava de ser mosca para estar dentro do conselho de ministros. O assunto que hoje é ardiloso mas tem um renovado interesse, ou quase nenhum. Mais uma mentira em formato pdf com o rótulo de confidencial, que vai dar origem a uma a duas folhas A4, condimentadas com a ignorância de quem as vai ouvir e o desprezo de quem as vai ler, com as prerrogativas da conquista da autonomia, da liberdade, blá, blá, blá!  O DEO, qual anjo caído em desgraça [por aqueles que ainda ousam pensar um pouco neste país] foi o mote para o destino imaculado que nos está a ser apresentado neste momento em directo do Palácio de São Bento. 

"No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise."
 Dante Alighieri

Longe de ser um lanche dos conjurados [a léguas do jantar de 1640] apraz-me sentir algum alívio por estar a terminar este passo, da nossa árdua caminhada até finalmente algures no séc. XXI quando pagarmos uma parte substancial da nossa dívida e nessa altura [finalmente], os representantes do triunvirato abandonarem definitivamente o nosso país. Nessa altura provavelmente o relógio do Paulo, deverá ser uma peça esquecida numa manta na Feira da Ladra. Da multidão gritam, reestruture-se a dívida[vide manifesto dos 70+4]. Céus! que drama se abateu por todos aqueles que ousaram apresentar uma via alternativa!Excomungados. A Alemanha também teve um perdão de dívida,  e não foi esse factor que a depreciou como país; sobre a Islândia prefiro nem abordar o tema, pois o bacalhau é de excelente qualidade; a Grécia já teve vários perdões, alterações da taxa de juro, reestruturação das maturidades da dívida, e não é por isso que Santorini vai volta a entrar em erupção, isto partindo do princípio que ainda não foi vendido!? A Finlândia em tempos também viu parte da sua fome amenizada com o contributo português, e não é pelo simples facto de agora estarem do outro lado da barricada que vamos deixar de olhar com desconfiança para eles [o mesmo não sucede com os telemóveis da Nokia!]. Os nossos grandes amigos holandeses. Uns verdadeiros gentlemen. Só nos podem agradecer o facto de os termos expulso os judeus de Portugal [infelizmente não preservamos a herança de D. Afonso V e só tivemos a clarividência de extinguir o Tribunal do Santo Ofício, em 1821!]. Assentaram  arraiais na Flandres e floresceram à custa da nossa falta de visão no comércio mundial da época em que jorrava ouro no cais da Praça do Comércio, onde agora sobram lamentos e manifestações.

Somos um povo que deu "novos mundos ao mundo", saga cantada em verso por um grande fidalgo expatriado conhecido pela sua fama de mulherengo e exímio devedor; um bando de homens lutadores de bom coração que se orgulham do seu legado humanista. Gostei de saber que o Paulo entregou a versão inglesa dos Lusíadas aos senhor Subir Lall e aos seus pares. Também gostaria de oferecer ao Portas o Envageli Gaudium em latim, para que de uma vez por todas abandonasse aquela veia de provincialismo bacoco com que nos brinda com as suas analogias deprimentes sobre os valores cristãos que tanto apregoa. Como sugestão, talvez para a próxima reunião de "vigilância reforçada" com os senhores da Troika, "A Queda de um Anjo" do Camilo Castelo Branco.  Indubitavelmente a  obra que encaixa melhor com o moralismo intrínseco à matriz sociopata do Palácio de São Bento.
Para leitura de cabeceira, deixo aqui este quadro com os meus agradecimentos ao Banco de Portugal. Penso que é um bom resumo para três anos em que mais do que reestruturar, refiundar o Estado e mudar o rumo do país, apenas se destruiu a esperança de milhões e iludiu outros tantos com um chorrilho de mentiras e declarações indigentes:



A realidade dos números supera grandemente a ardilosa vontade de enganar os ignorantes e os pobres de espírito [Boletim de Estatísticas do Banco de Portugal]. Mas quem sou eu para afirmar que o país está definitivamente pior?

“Deixem entrar a luz!” 
Goethe

Mas olhemos para o futuro com ânimo. O testamento de um Governo, que a alguns iludiu [mea culpa], é um farol que nos permite seguir rumo ao canto da sereia com alguma segurança. Ainda num contexto de um "colossal aumento de impostos", fomos presenteados à coisa de alguns dias com uns ligeiros retoques na taxa de IVA e na TSU, prometidos com ansiedade para o amanhecer de 2015. Não. Não se trata de aumento de impostos. Longe disso [esta parte do texto deve ser lida com o mesmo entusiasmo do discurso Crispin Crispian da peça shakespeariana Henrique V].

Mas há mais. Apesar da previsão do aumento das receitas fiscais em termos percentagem do PIB para este ano e para 2015, anda a pairar no ar a ameaça de suavização do IRS para as famílias [por norma a descida de impostos é oferecida com um tom mais sauve e floreado do discurso; vide última conferência de apresentação do DEO e para a água de rosas que emana da boca da nossa ministra da fazenda pública!]. Isto depois de um aumento do horário do trabalho, do congelamento das carreiras, da redução de trabalhadores, do aumento dos descontos para a ADSE, da alteração da tabela remuneratória, da redução dos suplementos, e ainda falta descortinar a famosa tabela salarial única. A reposição de 20% com promessa de novo aumento daquilo que foi tirado  [dixit], indexado à evolução da economia e a redução do número de funcionários públicos e massa salarial, é algo similar a uma fatia de de queijo de Azeitão condimentado com raticida. Só come quem está cego de fome.



Perguntam-me se o governo fosse de outra cor partidária, o panorama seria idêntico. Respondo com a mesma ironia utilizada pelo senhor Obama, a rosa seria o novo negro. Talvez de forma mais fofinha, com aquele aroma de humanismo social que caracteriza o socialismo europeu. Talvez o problema não esteja na cor partidária, mas antes na filosofia e na praxis que corrompeu e destrói o sonho e a caminhada europeia idealizada no Tratado de Roma, antagonizada no Tratado de Maastricht e desfeito no Tratado de Lisboa. Hoje somos uma Europa de estados devedores e estados credores, em que os primeiros determinam o destino dos segundos a seu belo prazer. Talvez o problema não seja nosso, talvez o problema não seja do Camões, talvez mesmo, o anjo nunca tenha tido asas para voar?

“Onde, estridentes gritos escutando,
Verás almas antigas em tortura
Segunda morte a brados suplicando.

“Outros ledos verás, que, em prova dura
Das chamas, inda esperam ter o gozo
De Deus no prémio da imortal ventura.

“Se lá subir quiseres, um ditoso
Espírito, melhor te será guia,
Quando eu deixar-te, ao reino glorioso."

Dante Alighieri