18/02/2018

..estrada para Damasco



..não há nada mais complicado do que tentar encontrar um taxista no aeroporto de Ankara que entenda minimamente inglês e que esteja disposto a seguir viagem para Damasco. Não é que a estrada não esteja exemplarmente asfaltada ou que portageiros zelosos a averiguar a se a altura do táxi no eixo da frente é superior a 1,10 para impor uma classe 2 ao meu motorista (obrigado PSA pela clarividência!), mas porque é pouco seguro circular em pleno séc. XXI na estrada para Damasco. Diria mais traiçoeiro.

 
(foto: Michael Perlov)


O que diria jovem Salo de Tarso, se nos dias de hoje tentasse perseguir cristãos e homens santos nessa estrada. Provavelmente optaria por um lugar mais confortável e igualmente sanguinário, como colunista de um pasquim jornalístico ou presença assídua em prime-time depois do noticiário como comentador de factos consumados? De facto, tal como o nosso caro D. Manuel refere na edição desta semana do Expresso, a Igreja nos dias de hoje não tem boa imprensa. Eu diria que são Salos em excesso. Também é certo que a Igreja também se coloca a jeito.


A força telúrica que lhe iluminou a proposta para os recasados através da Nota Apostólica, a fé amassada na revolta de inúmeras organizações religiosas contra esta abertura patrocinada pelo Pontifex Maximus Francisco, incito-o a mover montanhas, e debitar um “resumo” de um lirismo onírico onde os casados amam e discutem apenas como irmãos. A sagrada aliança matrimonial transformada numa relação asséptica, entregue à serenidade do amor tântrico. É claro que a leitura da nota, foi desmesuradamente e propositadamente deturpada para criar alguma cidez no discurso e na opinião pública, mas isso é um facto que a Igreja ainda não sabe como lidar. Aliás a igreja tem uma noção de tempo que relamente ocupa ainda demasiado espaço.

Ainda assim, e tendo presente a leitura atenta da entrevista do D. Manuel  (aliás os meus parabéns ao repórter fotográfico pelo enquadramento humilde mas digno de tão alto dignitário), reforça tudo aquilo que senti quando li o tal “resumo”. Não obstante a defesa do José Manuel Fernandes no Observador, o próprio D. Manuel admite que talvez uma nova redacção da nota, com outros contributos (olhe por exemplo veja o trabalho que a Arquidiocese de Braga está a fazer nesse âmbito) possa aclarar melhor a vereda por onde se entrincheirou. Não será necessário um Ananias para fazer alguma luz no esclarecimento, mas...


A estrada para Damasco, tal como no princípio da nossa era, esconde muitos check points devidamente barricados à liberdade de expressão e pensamento; todo o clamor que saia da concepção de um certo grupo, vulgo do politicamente correcto ou teologicamente discernido passa a ser abertamente discutido e hostilizado. Há sempre duas soluções: a fogueira ou a aceitação. No caso da Igreja, a fogueira tem sido o joker mais habitual no que respeita a opinião pública.


Se bem me recorde, no Novo Testamento, a mensagem estava quase sempre direccionada contra os mais fracos, os desprotegidos, os pecadores e impuros,não de uma forma aviltante ou repressiva mas sempre com uma manifestação de aproximação, de aceitação. Pelo contrário, os hipócritas e todos aqueles que ostentavam uma fachada de grande religiosidade eram normalmente desmascarados. 

"(...) Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa."

Mateus 6

A leitura que sempre fiz sobre a religião, desde que me sentei numa sala com outros pequenos como eu, foi sempre uma mensagem de amor, afecto e amizade. A Igreja não deve impor, deve propor. Claro que essa lógica nem sempre foi seguida à letra ao longo dos séculos, mas isso são apontamentos que devemos interpretar e analisar do ponto de vista da história e dos contextos de cada sociedade.

Espanta-me que em pleno séc. XXI este tipo de assuntos atinja a máxima polarização e animosidade nas redes sociais, dentro e fora da Igreja, tratando-se de um tema off-topic por natureza. Em boa verdade, os nossos princípios constitucionais não estão fundamentados na lei constitucional do tempo da monarquia liberal. Se a memória não me falha, a separação entre o Estado e a Igreja foi decretada já na Constituição de 1911, daí que polémicas sobre orientações desta ou aquela igreja, confissão religiosa, desde que não interfiram com o domínio do “que é de César”, ´só devem ser discutidas pelos órgãos próprios. Já o mesmo não se aplica futuramente com uma questão maior como a despenalização da morte medicamente assistida (tópico num futuro próximo). O casamento religioso é um assunto que "não é de César".

O jovem Saulo fazia furor ao chacinar cristãos inocentes, quebrou quase todos os sacramentos, mas foi a caminho de Damasco que teve a visão que tudo alterou. A estrada para Damasco é uma vereda por onde cegos, caminhamos rumo a algo que desconhecemos certos do destino que ansiamos. A verdadeira estrada de Damasco é antes, um caminho interior que só à luz do discernimento e do pensamento seremos capazes de percorrer sem hesitações. A verdadeira estrada para Damasco é uma estrada de humildade em que cada um ouve e entende as dúvidas do próximo, e adquire para si as fraquezas dos outros.É uma estrada de comunhão e compaixão.

Lograda a viagem para Damasco, sigo de táxi para Jerusalém. Espero não encontrar grandes adversidades nesta próxima etapa, nem apupos como a Eliana Fraga . Aqui fica a dica sobre a próxima prelecção:


«Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem corroem e onde ladrões não minam nem roubam: Para onde está o teu tesouro, aí estará o seu coração também.»

                                                                                                                 Mateus 6

13/02/2018

...o taxista de Kabul



Aviso à navegação: esta conversa teve lugar enquanto circulava de táxi entre a rua Sulh e a Avenida Great Massoud em direcção ao Aeroporto de Kabul. Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade. 

O Sr. Maalouf é o taxista de serviço. Nascido e criado na etnia usbeque, confessou-me mais tarde detractor do actual diktat em funções no "governo-fantoche afegão". Durante o percurso (estive hospedado no sofrível hotel Ariana), falamos um pouco de tudo, depois de quebrado o gelo inicial. Bastou referir que era português e, graças ao Ronaldo, vislumbrei o primeiro sorriso amarelecido pelo tom opióide da dentição do meu taxista.


O Sr. Maalouf é assumidamente de esquerda. Ficou curioso com a actual composição política portuguesa (tinha que o testar!), sobretudo ao misturar um partido de génese socialista com partidos de suposta “extrema-esquerda”. Expliquei-lhe que não é bem assim, e que tinha sido carinhosamente baptizado de “gerigonça”.

"O PCP vai para o Governo quando o povo português o entender. Naturalmente, esta nova solução política encontrada foi conjuntural e que dificilmente se repetirá"

Jerónimo Sousa, Setembro 2017, acção de campanha eleitoral

“[Um bloco central] não seria saudável para a democracia.”

Manuel Alegre, Janeiro 2018

Uma habilidade linguística que provavelmente quem a proferiu nunca imaginou ter criado um verdadeiro jargão político com uma boa aceitação nos parceiros europeus (até já colocamos um Centeno "Ronaldo" como Presidente do Eurogrupo). Explicar o conceito "geringonça" ao Sr. Maalouf foi relativamente fácil; basta circular em Kabul para vermos algo semelhante na azáfama do dia-a-dia. Geringonças e soluções criativas é coisa que abunda por estas bandas. Uma questão de sobrevivência diria mesmo, tal como sucede em terras lusas.

Para evitar a continuação dos anos da troika, engolem-se uns sapos, iludem-se as massas e no final vivem em saudável comunhão como irmãos num “estado de graça”, ainda que tenha perdido metade da  piada. Expliquei-lhe em tom irónico que apesar do partido mais votado ter sido o social-democrata, manter a mesma solução até ai, era como sentar um cardeal a ver as 50 Sombras de Grey. A situação não iria evoluir. Não lhe falei que temos um Presidente da República com paixão por selfies e capacidade omnipresente de estar em vários lugares ao mesmo tempo, Seria uma tarefa teologicamente difícil e um exercício entediante para o Sr. Maalouf.


“Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o diabo"

Pedro Passos Coelho, Julho 2016”,  reunião da bancada parlamentar do PSD

“Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objectivo de pôr a direita na rua, eu acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”

Manuela Ferreira Leite, Janeiro 2018, entrevista à TSF

O Sr. Maalouf é um bom ouvinte, das poucas palavras que sabe em inglês, há duas que atravessam o Atlãntico e por lá permanecem: “ok” e “mee too”. Um aparte: não deixa de ser curioso que por terras do sr.
Harvey Weinstein, a principal promotora do movimento #meetoo esteja ser investigada por assédio sexual. Deixo toda e qualquer consideração sobre assédio para mais tarde, pois tirando o caso do nosso caro Lobo Antunes, e a fadista do José Cid, não há relatos particularmente estimulantes para figurar para lá da capa de uma revista cor-de-rosa.

 

Entretanto, tivemos que fazer um pequeno desvio de rota, parece que há uma manifestação de estudantes em frente à universidade de Cabul, mais meia hora de viagem. Com alguma sorte avião da Turkish que me vai levar a Ankara, talvez esteja a fazer donuts no espaço aéreo e esteja atrasado. Nesta terra tudo se atrasa, não tanto como os elementos do Ministério Público quando chegam a casa do juiz Rangel, depois dos jornalistas da CMTV, mas quase.

O Sr. Maalouf ficou desempregado, a pequena tabacaria onde trabalhava estava no local errado, exactamente onde um terrorista decidiu exprimir a sua liberdade político-religiosa. Em Kabul, todos os postos de trabalho são, por natureza geográfica, precários.

Não há Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa que valha aos pobres assalariados desta cidade mártir. Aquela máxima social-democrata da satisfação das necessidades individuais e colectivas, da justa distribuição do rendimento ou a realização pessoal são um paradigma que simplesmente não existe por estas bandas. Aqui impera um modelo liberal que seria a Némesis de alguns palhaços alegres com ideias assustadoras sobre mercado laboral.

Finalmente chegamos ao aeroporto. Obviamente o voo está atrasado. O sr. Maalouf simpaticamente ajudou-me a transportar as malas para o check-in. Um dos guardas do aeroporto é primo e a troco de  5 euros, o táxi ficou em segunda fila. Por cá não há nenhum sucedâneo da EMEL, só terroristas e carros -bomba. Convenhamos, sempre fui mais generoso do que a Esperaza da Isabel dos Santos para com a Sonangol!



Sugestão de leitura: para aqueles que quiserem aprofundar os conhecimentos teológicos, Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris Laetitia, para os restantes a bula de um conhecido medicamento para a doença de refluxo gastro-esofágico


Próximo destino:… estrada para Damasco.


27/01/2018

....ab initio


O que dói não é
O que há no coração.
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como, se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa.

13/12/2017

...o resto são palavras

Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.



Miguel Torga

10/12/2017

...cal

...quando a vida passa por longos e silenciosos períodos de metamorfose, resta esperar que o silêncio se eleve até que um infinito manto de palavras e desça do Céu. Não serão anjos nem querubins que do alto soarão as trombetas a anunciar os povos da Terra, mas será um rasto de estrelas que o céu desenhará na anunciada alvorada.
 
Motivos não têm faltado para deixar escrito tudo o que poderia ser dito, mas nada como o frio imaculado de uma parede de cal. Apenas uma breve brisa.
 
Um ano passou e tudo permaneceu exactamente no mesmo tempo.Como se o silêncio fosse uma pausa quase ridiculamente infinita.
 
 



08/11/2017

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

Ondjaki

17/06/2017

...praia fora

..cai a noite,
é no escuro que vemos melhor.
sonhos.
um dia gostava de ouvir o som dos seus sonhos.
o som do vento que se mistura  com cabelos que ondula  pela praia,
as as palavras que o olhar esconde por detrás daqueles olhos amendoados.
sentir a areia que pisa,
o ar que respira quando a maresia toca a doce pele morena,
caminha só praia fora.
cada pegada é um pensamento,
a cada pensamento um vazio que descreve,
nasce o sol, abro os olhos
e tudo desvanece,
dela nada,
apenas apenas espuma do mar,
e o som do vento.


26/02/2017

...um mundo aparte



O mundo de Athos era um vazio de luz. O mundo de Isa era dominado por um tonalidade áurea onde não havia lugar a sombras nem penumbras.

O sonho de Athos era sentir o calor das cores, e o perfume da luz. Athos não compreendia a razão pode detrás das palavras.O sonho de Isa era sentir a paixão da noite e melancolia do silêncio. 

Athos  sentia a dimensão da penumbra e sabia distinguir o vulto das sombras, como se fossem o prenúncio do dia e da noite. Isa era cega mas lia nas palavras o mundo de luz que a rodeava.

Viviam em mundos separados, mas havia alturas em que ambos quase se tocavam: de manhã e ao anoitecer.
Foi assim que se conheceram, e por isso se afastaram.



Na luz que Isa transportava no seu sorriso, faltava a penumbra que guiava Athos. À melancolia que Isa sonhava, respondia Athos com gestos que Isa não compreendia.Nunca se tocaram, nunca se viram, apenas gestos, palavras e mais tarde um silêncio que se perpetua.

Ele ficou cego pois guiou-se pela ilusão de compreender as cores, sem as sentir sem as tocar; ela abriu os olhos e teve a percepção que o significado das palavras não eram suficientes para compreender o que o seu olhar não captava. Viu o dia e perdeu a noite. Ele via luz, mas afundou-se na penumbra.

Talvez a história tivesse outro destino, senão existisse apenas aquela manhã ou o anoitecer. Um dia provavelmente haverá algo que falhou: tempo.

...discurso passivo

....se o poeta é um pastor de fingimentos, o escritor um contabilista de palavras, eu serei apenas um guardador de silêncios.

Os meus silêncios não serão freses, e os meus pensamentos não serão poesia. Rodam por aqui, e surgem quando tomam o forma de tinta invisível


06/11/2016

...CGD

Eça de Queiroz escreveu um dia que os políticos e as fraldas deviam ser trocados de tempos a tempos pelo mesmo motivo. Eu acrescentaria que alguns deputados da nossa Assembleia também deveriam ser sujeitos a um processo de esterilização bocal, dada a alarvidade de algumas declarações nesta semana de discussão do OE2017.
Vem isto a propósito da degradação que se vem observando, quer pelas notícias de falsas licenciaturas, quer pela lavagem de roupa suja que alguns ex-governantes se dão ao trabalho de branquear ao sol. Já nem vou entrar nos meandros da birra dos administradores da CGD que pasme-se, julgam-se damas cuja virtude e castidade não pode de forma alguma ser colocada em causa.

Os recentes relatos de pseudo canudos são o espelho da descaracterização da função pública. A gestão da "coisa do povo", essa a que nos habituamos a chamar república transfigurada em jogo de cabra cega, em que as lideranças partidárias e as ignóbeis jotas se divertem numa dança de cadeiras. Talvez isto explique como de facto tudo o que é público, seja hoje sinónimo de descrédito e desrespeito; a começar nos gabinetes ministeriais, continuando a propagação do vírus pelos gabinetes das autarquias e acabando nos lugares de administração das empresas ditas públicas. Vícios privados, públicas virtudes.

Por simpatia, gostava de imaginar que a escolha dos lugares nos cargos de maior responsabilidade política devia obedecer a critérios tão estanques como a competência e a seriedade. Obviamente andamos todos iludidos, pois outros valores se sobrepõem, a começar pela cor partidária e ou mais importante do que isso a prepotência e o favorecimento (a famosa “cunha”). Aos visados por este parágrafo, aconselho vivamente o mesmo remédio que sugeri ao sr. Relvas.


No caso da CGD, gostava que alguém tivesse a humanidade de colocar estes senhores que algum idiota (este sim caro deputado João Almeida) decidiu nomear, no devido lugar. Até podem ser os melhores gestores bancários; uma lufada de ar fresco depois de anos de governamentalização da administração da CGD, mas isso não lhe augura o direito de se sobreporem à lei. É tão simples! uma folha A4, caneta BIC, saliva e um selo dos CTT. O Tribunal Constitucional ainda tem uma daquelas caixas vermelhas do correio postal e dizem por aí que ainda é um daqueles órgãos que conserva algum respeito pela tal “causa pública”. Que o diga o ainda deputado Passo Coelho. Admirador confesso da Constituição da República.

Por falar em TC, aqui fica o estímulo para os senhores juízes. Talvez assim acordem do marasmo em que se encontram.Saudades dos ataques constitucionais do anterior Governo!?



Web Summit. Espero que o facto de termos roubado este evento aos nossos amigos celtas de Dublin tenha um impacto superior aos 200 M€ euros em entradas, gorjetas e receitas de UBER. O objectivo é alavancar as nossas tecnológicas e diminuir o gap tecnológico e investimento nas novas tecnologias. Talvez muita gente não saiba, mas só podemos agradecer ao anterior governo esta iniciativa!
E para terminar um pensamento sobre a actualidade internacional


Entre a mulher do Trump e a mulher de César, escolho o pacto secreto do sr. Hollande. Acho que para quem anda atento ao que se passa nesta Europa, já basta a merda que o Eça de Queiroz queria dizer.

25/09/2016

...portuguese sardines


“Total fertility rates (TFR) have increased since 2000 on average in the EU as a whole, although
this trend increase has reversed into a decline since 2010 (…)…By contrast, fertility rates
have decreased in Cyprus, Luxembourg, Malta Poland and Portugal.”

The 2015 Ageing Report. Underlying Assumptions and Projection Methodologies, UE

..em resultado disso, é normal que haja menos crianças matriculadas nas escolas! O próprio relatório aponta para um decréscimo da população escolar em Portugal até 2060. A consequência disso serão cada vez menos escolas e menos professores!?

Talvez sim. A manter-se esta prática absurda de encaixotar alunos até que o oxigénio dentro da sala de aula se converta em vapor de água e dióxido de carbono por um mecanismo biológico conhecido; nessas salas espectaculares com quadros interactivos que mal são utilizados e com ar condicionado desligado por falta de verbas. Nessas escolas que foram uma “festa” e que se transformaram numa pesada herança, em nítido contraste com outras [muitas mais!] que nunca foram objecto de qualquer beneficiação e que sobrevivem entre pingos que caiem do tecto, o calor que sopra depois o frio que pela janela entra.

Seria interessante, começar a olhar para os relatórios não numa abordagem “malthusiana” da solução [mais simplista e com resultados orçamentais imediatos], mas vendo aqui uma oportunidade de voltar a pensar na educação, não na sua perspectiva aristotélica na globalidade, mas como uma via para recuperar e cimentar as capacidades cognitivas e das aptidões específicas dos alunos. Isso só se consegue efectivamente com comunicação, expressão de afectos, aquela coisa estranha chamada socialização, o mútuo respeito. Gostava que a métrica estúpida dos metros de quadrados por aluno, ou a análise irracional do custo por aluno fosse substituída pelos resultados que conseguem alcançar em termos de reforço da auto-estima e a autoconfiança; que a sala de aula voltasse a ser um espaço de reflexão metódica e pensamento dinâmico. Não uma lata de sardinhas [metáfora muito usual!].

Apesar das mudanças na orientação política elenco do MEC [se é que isso influi na capacidade de mudança no mi(ni)stério!?]…a velha praxis mantém-se! Para prejuízo dos alunos e do nosso futuro. No FIM, culpe-se os professores!...

09/08/2016

...passos

meus passos nesta rua
ressoam
     noutra rua
onde
     ouço meus passos
passarem nesta rua
onde
só a névoa é real.

Octávio Paz

07/08/2016

...o vissio da b'leza

…nada é mais subliminar que a beleza. Exprime-se por um som, uma recordação, uma imagem que fica a pairar, um poema de ideias, um breve olhar, ou mesmo uma troca de palavras. Talvez seja esta a teorização do belo platónico, essa masmorra que nos comprime de forma insuportável e ao mesmo tempo apaixonante. É sobre esta masmorra que paira o meu quotidiano pensar. Não é um pensamento vago, uma ideia metafísica; é bem real, corpóreo, tem um rosto.

Como uma matriz de números, encerra uma equação de variáveis intrincadas que nem o tempo parece capaz de resolver. Sempre tive uma má relação com os números. As letras são infinitamente moldáveis e encerram uma melodia que ultrapassa a rigidez da álgebra.

A beleza é boémia, embriaga, não vive de acordo com normas ou a cadência repetitiva de uma série, ou uma equação linear. A beleza é um vissio; algures entre a superstição e a crença,- ora adoramos quebrados aos seus pés, ora somos fustigados com a sua raiva contida e levados ao mais profundo dos infernos, inebriados pelo perfume a sua fúria.


Perante a beleza, somos fracos, apenas um número no canto de uma página, ou na lombada de um livro esquecido numa prateleira. Vazios como uma pauta sem melodia, que nos inunda o silêncio do pensamento.

 

04/08/2016

...óleo



..obviamente que se demita! penso que é a saida mais honrosa que lhe assiste. Já agora gostaria de saber qual foi a justificação que apresentou ao responsável hierárquico! Indisposição momentãnea? assistência à família? representação institucional? trabalho politico...ou lobbying?

...uma excelente caso para promover uma ligeira alteração à redação da lei! mesmo aceitando o "presente" em caso de devolução, não se passou nada! Surreal, mas aparentemente (a julgar pelo bruá!) natural, aos olhos da maioria silenciosa!

...ética a quanto obrigas!


06/07/2016

...luz

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando? 
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Fernando Pessoa


01/07/2016

...algures na baia do Espirito Santo


Próximo destino


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16/04/2016

.. a menina que não falava




Parabéns D

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, os seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmissível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam a percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava numa língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entoação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
O seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite apertou-lhe as mãos e implorou, certo que falava sozinho:
— “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostos  daquela água salgada e disse:
— “Mar”…
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elaborou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azul e o seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E as lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando a pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
— “Vem, filha!”



Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
— “Vamos filha! senão as ondas vão-nos engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Tamanho peso tão jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Cansado, sentou-se ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas já pareciam enrolar o peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: a sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua estilhaçou-se em mil estrelinhas. O mar encrespou-se, o barco afundou, engolido num abismo. A praia cobriu-se de prata, flocos de luar cobriam o areal. A menina pôs-se a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— “Pai!”
Então, abriu-se uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz derramava-se sangue. A água sangrava? O sangue aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e calou-se. A história tinha perdido o fio e a meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os seus pés, e as pernas da sua filha? E ele, em desespero:
— “Agora, é que nunca”.


A menina, nesse instante, ergueu-se e avançou ondas dentro. O pai seguiu-a, temeroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai espantou-se com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos escoariam?
— “Filha, vem para trás. Filha, por favor”…
Ao invés de recuar a menina entrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida fechou-se, instantânea. E o mar refez-se. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e conduziu-o de volta a casa. No cimo, a lua recompunha-se.
— “Viste, pai? Eu acabei a tua história!”
E os dois, iluminados, extinguiram-se no quarto, de onde nunca haviam saído.


adaptado de um conto de Mia Couto

...sempre distante, longe





A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?


Pedro Tamen

(photo by: Paulo Medeiros