31/12/2025

...run to the hills

 



Portugal em 2025 foi, como sempre, um país à procura de governo e de sentido de orientação. Alias, o discurso de Natal no nosso Primeiro de Tudo confirma a paródia que é viver num país rendido a assuntos pungentes e irremediavelmente risíveis: todos temos que ter uma mentalidade de Cristiano Ronaldo: fazer publicidade a uma ditadura islâmica sanguinária onde a religião determina tudo, adquirir um loft no skyscraper da cidade de Lisboa e folheá-lo com alumínio e vidro de museu, ou talvez adquirir um janto novo para suportar as longas filas do IC19. 

O nosso Governo começou o ano a fingir que governava. Não governava, claro. Governava uma ilusão, sustentada por discursos sobre “iniciativa” e “responsabilidade”, enquanto a realidade se resumiu durante meses, a páginas de jornal e folhetins diários de comentadores desportivos a discutir o sexo dos anjos e uma empresa que facilitava negócios com nome kitsch - Spinumviva. A poucos dias do término do ano ficamos a saber que a averiguação preventiva (continua ausente do Código do Processo Penal, mas dá muito jeito sobretudo em momentos chave do enredo desta telenovela diária em que participamos.

Mas voltando atrás na fita do tempo, temos de dar hosanas pelo facto de as eleições em maio nos terem ofertado os ingredientes habituais para um bom cozido à portuguesa: um parlamento dividido, sem maioria, sem rumo, onde se grita muito, finge mais ainda e alguns grunhos vociferam estupidez e burrice sem fim. A AD ganhou, não ganhando, o PS perdeu, mas não tanto como merecia, dada a iniquidade e falta de visão do líder até então (alguém sabe em que sótão do Parlamento se esconde?). A esquerda essa, passou a ombrear com o bafio, e os cotões que se acumulam nos Passos Perdidos. 

Depois há um conjunto de seres (não é possível classificar como gente), que ombreia com os vendedores de atoalhados das feiras ou as peixeiras da lota de Matosinhos, e que apesar de se autointitularem gente de bem, albergam uma minoria (as tais que devem respeitar a lei) de indigentes, alguns deles com parafilias e desvios de comportamento só comparáveis a bullys. Infelizmente, o nosso Parlamento, outrora a casa-mãe da política portuguesa que viu discursar gente insigne, está transformado num circo de rua e muitos (cada vez mais), do lado de fora aplaudem entusiasticamente o descalabro de um sonho que começou em Abril.   

Portugal em 2025 não mudou. Nunca muda. É um país que vive de ilusões, governado por gente que finge governar, observado por cidadãos que fingem acreditar. Uma tragicomédia sem fim, com actores medíocres e um público resignado. Interpreto este fracasso colectivo como uma total e absoluta falta de carácter da sociedade. Talvez uma chaise-longue em veludo carmim para cada português fosse a melhor medida a implementar a partir de 1 de Janeiro. Sim porque num País com 11 candidatos numa primeira volta de uma eleição presidencial, onde os boletins de voto terão 14 nomes, e que numa segunda volta, devido a burrocracias e contingências várias Estado, não há tempo para imprimar apenas os boletins com os dois candidatos mais votados, é caso para dizer que já só falta a política ser exercida como um livro de auto-ajuda, num país em que os casos clínicos bem podem esperar 19 horas no hospital Amadora-Sintra.

Depois não é de admirar que haja um candidato presidencial aceite no Tribunal Constitucional, prometendo vinho tinto nas torneiras e uma prostituta em cada casa portuguesa. A tal cereja no topo do bolo.

Sobre aquilo que é necessário para tornar Portugal um pais menos cinzento e tristemente iludido pela turba de inúteis que proliferam como cogumelos, alguém desligue a luz antes de sair, já que para entrar são necessárias 3 horas no controlo de fronteiras do antigo aeroporto de Lisboa.  

Assim, suspiro ofegante pelo Novo Ano 2026, e desejo que se mantenham nos eixos de uma bitola ibérica, rumo a esse túnel escuro chamado de incerteza.

Volto já

…paz selvagem



 «Não a paz de um cessar-fogo,

nem a visão do lobo e do cordeiro,

mas antes

como quando no coração a excitação termina

e apenas se pode falar de um grande cansaço.

[...]

Venha de repente,

como as flores selvagens,

porque o campo

precisa dela: paz selvagem».


Yehuda Amichai

21/12/2025

...Lucas 10 (capítulo final )

 O texto seguinte não é aconselhado a Pessoas de Bem ou gente que por influência ou efeito de manada, preferiram silenciar as convicções políticas até aqui defendias e resolveram sair do armário da vergonha onde nunca se sentiram confortáveis.

É um ponto assente que as atitudes face à imigração podem influenciar políticas concretas e que a ausência de dados mais finos  limita sobremaneira, a capacidade de desenhar políticas equilibradas. É unânime que existem fragilidades que vêm à tona, logo de seguida: mecanismos explicativos pouco claros; a distância entre preferências dos eleitores e as posições dos decisores políticos, e a necessidade de investigar melhor como as atitudes e os anseios se traduzem em legislação e reformas (?) políticas. A bibliografia mais recente sobre a temática dos tais fluxos (invasão) migraratórios diz-nos que:

  • As mulheres, em média, veem imigrantes de fora da UE de forma mais humanitária e associada a valores de solidariedade e direitos humanos, enquanto tendem a encarar imigrantes da EU, sobretudo como concorrência económica, o que as torna mais negativas em relação à livre circulação interna (i.e., Espaço Schengen).
  • As atitudes face à imigração não são neutras: podem influenciar a forma como a UE regula o asilo, a mobilidade laboral e o próprio processo de alargamento, sobretudo aos países mais a leste.
  • A limitações de dados (falta de informação sobre motivos da migração ou país de origem) devia ser complementada com uma investigação mais apurada e melhores mecanismos de controlo, dada uma aparente disrupção que cresce existe entre percepção da opinião pública face à avalanche de informação/desinformação e as políticas adoptadas.

As correntes de esquerda na Europa, com um forte pendor humanista,  têm defendido a solidariedade internacional, a proteção de refugiados, os direitos laborais dos migrantes e a visão da imigração como parte da luta por direitos sociais universais. Quando, tal como sucede em Portugal,  quando a esquerda cede ao enquadramento da extrema‑direita e a normalização imposta por alguns partidos liberais de centro-direita, e que desavergonhadamente,   aceitam a imigração como um “problema” (“ameaça” seria uma afronta à própria matriz fundadora) antes de mais económico e cultural, a racionalidade  abdica do seu próprio terreno ideológico: o da igualdade, da liberdade de circulação e da cidadania social inclusiva.



Este desvio tem dois efeitos perigosos, que já ocorreram ao longo do séc. XX e que conduziram a dois conflitos mundiais (prova provada que a água por vezes passa mais do que uma vez!):

  • Normaliza as categorias e os fantasmas  da extrema‑direita, tornando aceitável falar de “invasão”, “ameaça à identidade” ou “imigrantes bons vs maus”, o que desumaniza pessoas e legitima políticas mais duras.
  • Enfraquece e em última análise, auto-destrói a capacidade dos partidos liberais se diferenciarem das teses ignóbeis da extrema-direita: se o eleitorado vê pouco contraste entre o discurso humanista e supostamente cristão da direita radical, tende a optar pelo “original” (extrema‑direita) e não pela “cópia”.

Isto não é uma hipótese académica nem um teorema, é uma constatação e sucedeu, com a ascensão da ideologia fascista na europa no decurso do séc. XX. O que assistimos actualmente, é tão somente o renascer desse monstro, mas agora numa versão mais fofa e modernizada. Amén à realidade alternativa e à pós-verdade.

Não vou elencar os benefícios da emigração (a História de Portugal é um corolário de migração) no contexto sócio -económico actual mas vu só referir en passant três situações que ilustram de forma clarividente os falsos benefícios dessa nova moda trendy que a extrema-direita conseguiu inocular na sociedade ocidental: alguém me explique os benefícios do Brexit,  da dureza retórica dos governos de direita em Itália. A Hungria ainda é uma democracia ?

Provavelmente a culpa é deles: os emigrantes.

Lucas 10

 

A Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10), apresenta um Samaritano - para quem faltou à catequese, era uma nação  desprezados étnica e religiosamente, aliás eram considerados pelos restantes povos judaicos como impuros – como aquele que interrompe o seu caminho, se aproxima da vítima, trata as feridas, paga a estalagem e assume custos futuros, enquanto as ditas  “Pessoas de Bem” [utilizando um tema em voga por alguns energúmenos]  passavam ao lado, sem se preocupar. Penso que todos aqueles que, tal como eu atingiram os mínimos olímpicos da catequese (doutrina, lá para as altas montanhas do Norte), o ensinamento central que se retira desta Parábola é que o próximo não é apenas o membro do próprio grupo, mas qualquer pessoa em necessidade, incluindo o estranhos ou estrangeiros [vamos alterar o nome e chamar-lhes agora “emigrantes”; do outro lado do Atlântico são aliens, dai que suponho serem algo como seres esverdeados, luminosos e bastante perigosos, acabados de sair de uma nave ou teletransportados de outra galáxia mesmo aqui ao lado?].

Fazendo a ponte com a parábola, a pergunta que se impõe é “quem é o meu próximo?”, no entanto Jesus Cristo amplia o debate referindo que o importante não seria limitar quem conta como próximo, mas tornar‑se próximo de quem sofre, independentemente da origem. Por esta altura já muitas almas sedentas de um bom progrom ou duma épica kristallnacht contra os infiéis deve estar a revirar os olhos e tentar um argumentário para descalcificar a minha dedução lógica. Efectivamente o discurso anti‑imigração dominante na direita europeia faz precisamente o inverso: redefine o estrangeiro como ameaça, concorrente ou “invasor” [daí talvez o alien?], e legitima virar a cara ao sofrimento de refugiados e migrantes, venham, eles de que parte for, mas com mais fervor nacionalista se forem não europeus.

O Samaritano ultrapassa as fronteiras étnicas, religiosas e políticas para agir com misericórdia, palavra que  a cultura de cancelamento ultraconservadora evaporou do dicionário político. Digo isto da mesma forma que critico duramente grande parte da surreal cultura woke de esquerda que infectou a sociedade europeia! Continuando o raciocínio, muitas propostas política de encerramento das fronteiras, criminalização de pedidos de asilo, externalização de controlos e recusa de desembarque de pessoas resgatadas, p.ex., no Mediterrâneo,  institucionalizam o contrário: distanciamento, seletividade e indiferença perante a vulnerabilidade. Ainda relativamente à políticas migratórias, tenho que efectuar desde já uma manifestação de interesse: sou absolutamente a favor de um controlo rigoroso sobre quem entra e quem sai. Sou ainda a favor da expulsão de quem se encontra ilegal, excepto em situações em que decorram processo de legalização. Sou ainda a favor do reagrupamento familiar. Nada disto colide com a lógica cristã, e por favor não me venham pedir satisfações teologicas sobre a Fuga para o Egipto (Mateus 2), pois não há registo que tenham sido expulsos pelos serviços de fronteira do praefectus Aegypti Gaius Turranius.

Em suma, a parábola em causa direcciona-nos  para uma ética da responsabilidade concreta – ver, compadecer, cuidar, etc. – em oposição, boa parte do discurso anti‑imigração procura despersonalizar, ostracizar, desumanizar.

Para os incautos e alguns ditos doutores da razão e moral cristão, por favor, leia bem “O Catecismo da Igreja Católica”. Assim muito rapidamente, a doutrina social articula dois princípios: o direito de as pessoas procurarem condições de vida dignas, incluindo migrar e o direito e dever dos Estados regularem os fluxos em vista do bem comum, sem negar a dignidade e os direitos fundamentais do migrante.

Não se trata apenas de filantropia, mas de um dever moral muito bem enraizado nos Evangelhos.

Mais, a doutrina cristã também reconhece que os Estados podem estabelecer limites prudenciais, mas rejeita políticas que desumanizam, exploram ou deixam sós quem foge da guerra, das perseguições ou da miséria extrema. Eu diria que à luz destes ensinamentos, qualquer discurso que apresenta migrantes como ameaça, legitima a sua rejeição sistemática , mas sobretudo  normaliza a indiferença diante do seu sofrimento. É preciso invocar que não colhe qualquer  acolhimento coerente na ética cristã? Lá está, o problema, ou melhor a solução  é que o buraco da agulha, não pode ser uma avenida ao estilo da arquitetura soviética (extensa e brutalmente larga), mas apenas uma porta que recebe e acolhe quem chega, de forma digna e justa. Caos contrário, serão 70x7 aqueles que gritam hossanas pela desordem e a insegurança.

Para aqueles que temem a islamização do nosso País europa, um recado: caros cruzados,  não temam. A ética islâmica sublinha que,  dar refúgio a quem foge de perseguição ou injustiça é um dever da comunidade muçulmana; a proteção deve ser concedida mesmo a não crentes, sem discriminação de religião, etnia ou nacionalidade. Aliás, o Alcorão louva os habitantes de Medina por amarem “aqueles que emigraram para junto deles”, preferindo os refugiados a si próprios mesmo estando em pobreza, e apresenta a fraternidade, a compaixão e a hospitalidade como exigências éticas para com o estrangeiro. Em parte, são doutrinas com uma visão paralela, ou quase, ainda que em patamares distintos.

O estrangeiro não pode ser uma ameaça abstrata, não devíamos generalizar a suspeita, com toda honestidade teológica pois esses nunca foram fundadores da Europa. Outrora, fomos e ainda somos estrangeiros noutras geografias.