25/04/2026

..e venham mais 25

Há um certo tipo de nostalgia em Portugal que não se explica com história, mas com amnésia seletiva. É aquele suspiro profundo, meio dramático, acompanhado daquele clichet “ no tempo do Estado Novo é que era…” — frase que costuma vir com a mesma convicção com que se defende que “a comida da vizinha era melhor”, ignorando pequenos detalhes como a falta de eletricidade, de liberdade e, por vezes, de comida propriamente dita.


Os saudosos do Estado Novo são, curiosamente, grandes fãs de ordem — desde que essa ordem não inclua fila para o pão, censura ao que dizem nas redes sociais ou um vizinho demasiado atento às suas conversas. Gostam da ideia de disciplina, mas apenas na versão decorativa, como quem aprecia um uniforme bem engomado sem querer marchar dentro dele.

Não havia crime, não havia contestação, não havia desorganização… basicamente, não havia visibilidade de nada que pudesse perturbar a narrativa. É fácil ter uma casa impecável quando se varre o lixo para debaixo do tapete — e se proíbe alguém de levantar o tapete.


Há também um certo romantismo pastoral nesta nostalgia. Fala-se de um país “puro”, “seguro” e “respeitador”, como se a realidade fosse uma espécie de postal antigo, com cores desbotadas e sem cheiro a pobreza. Esquecem-se, ou escolhem esquecer, que esse “respeito” vinha muitas vezes embrulhado em medo, e que o silêncio não era sinal de paz, mas de prudência.

E depois há o argumento clássico: “as coisas funcionavam melhor”. Sim, funcionavam — desde que não fizesses perguntas. Funcionavam tão bem que havia todo um sistema dedicado a garantir que ninguém se lembrava de questionar porquê. Uma eficiência notável, sem dúvida: menos problemas porque menos gente podia falar sobre eles.

O mais fascinante é ver esta saudade ser expressa com toda a liberdade que esse tempo não permitiria. É um fenómeno quase poético: criticar a democracia… usando a democracia. É como elogiar a dieta enquanto se come uma bola de Berlim — com entusiasmo e sem qualquer intenção de parar.

No fundo, o saudosismo do Estado Novo não é tanto sobre o passado, mas sobre uma versão simplificada do mundo: menos complexidade, menos conflito, menos responsabilidade. Uma espécie de fantasia onde tudo estava no seu lugar — sobretudo as pessoas, bem quietinhas e caladinhas.

Se há algo que se pode admirar nestes nostálgicos é a capacidade de transformar um período historicamente difícil numa memória confortável. É um talento raro: fazer do silêncio uma sinfonia e da ausência de liberdade uma espécie de paz interior.

Talvez, no fim, o que lhes faça falta não seja o Estado Novo, mas um filtro histórico melhor — daqueles que não apagam inconvenientementes partes inteiras da realidade.

Se o passado fosse realmente aquilo que descrevem, não precisava de tanta edição para parecer aceitável.



Há também um lado quase estético neste saudosismo: o fascínio por fotografias a preto e branco, ruas calmas, pessoas “no seu lugar”. Uma espécie de museu mental onde a realidade é cuidadosamente polida até parecer tranquila. Só que, fora do enquadramento, estavam o medo, a vigilância e a impossibilidade de dizer “isto não está bem” sem consequências.

O mais delicioso — e aqui a ironia atinge níveis gourmet — é ver esta saudade ser proclamada nas redes sociais, em debates públicos, em plena liberdade de expressão. É uma nostalgia que depende exatamente daquilo que rejeita. Sem democracia, não havia sequer espaço para a expressar.

Bom dia em Liberdade. Não aquela que fantasiam, mas aquela que renasce em cada dia. 


ps: se a flor vos incomoda é simples: silenciam-a, façam um risco com o lápis mágico azul que tanto admiram.

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