Os EUA enfrentam aquilo que se pode designar por um golpe
fascista habilmente mascarado. Esta vaga de fundo com reminiscências no Tea Party
e do sector católico iliberal , cujas tradições ideológicas e intelectuais
estão mais próximas à direita europeia do que à anglo-saxónica assentam no
primado do anti-individualismo liberal, reforço do poder executivo e defesa
acérrima do proteccionismo económico.
A ascensão da actual presidência americana, na pessoa de
Donald Trump e do seu vice J.D. Vance é alimentada por um medo profundo do
futuro: o receio de que cristãos brancos estejam na via do declínio
irreversível e, a desconfiança em relação a outras culturas. Ao reeleger Trump, os americanos sufragaram um
"culto de violência redentora".
O estado actual da sociedade americana resume-se assim, a
uma reacção em cadeia e uma desintegração política e de valores éticos e
morais, onde o cinismo e o ódio dominam
as relações sociais. A manipulação da verdade - o pós-verdade. Através da tentativa de
controlo dos media, através da propaganda massiva, seguem a práxis dos regimes
fascistas todo o séc. XX na Europa.
Robert Paxton define o fascismo como uma obsessão pela
decadência comunitária e pela busca de um salvador. Tanto na Europa como nos
EUA, muitos sentem-se vítimas da globalização, levando a um ressentimento
crescente. As observações de Renaud Camus e Michel Houellebecq sobre a “mudança
demográfica” e a “submissão” cultural ilustram uma crise de identidade e medo
de deslocamento. A retórica de Trump ecoa essas preocupações, ao alienar grupos
minoritários e desenhar uma nova narrativa do “nós” contra “eles”.
O inquilino da Casa Branca, à semelhança de outros líderes fascistas,
é devoto da crença quase sobrenatural si
mesmo, operando no contexto de uma crise existencial da cidadania americana. Não
cria apenas “inimigos”, também distorce a verdade para moldar a percepção
pública. A linguagem desconectada do significado, como alerta George Orwell,
leva a um estado onde a própria noção de realidade é substituída por uma nova
“verdade”.
Ao contrário do que poderíamos supor há uma década, o fascismo
não estava em remissão. No cenário actual, a luta pela verdade e a resistência Às
ideias extremistas emergem como imperativos morais, na dura batalha contra a
desumanização e a decadência dos valores.
