18/10/2026

...o triunfo dos porcos (parte I)

Os EUA enfrentam aquilo que se pode designar por um golpe fascista habilmente mascarado. Esta vaga de fundo com reminiscências no Tea Party e do sector católico iliberal , cujas tradições ideológicas e intelectuais estão mais próximas à direita europeia do que à anglo-saxónica assentam no primado do anti-individualismo liberal, reforço do poder executivo e defesa acérrima do proteccionismo económico.

A ascensão da actual presidência americana, na pessoa de Donald Trump e do seu vice J.D. Vance é alimentada por um medo profundo do futuro: o receio de que cristãos brancos estejam na via do declínio irreversível e, a desconfiança em relação a outras culturas. Ao  reeleger Trump, os americanos sufragaram um "culto de violência redentora".

O estado actual da sociedade americana resume-se assim, a uma reacção em cadeia e uma desintegração política e de valores éticos e morais,  onde o cinismo e o ódio dominam as relações sociais. A manipulação da verdade  - o pós-verdade. Através da tentativa de controlo dos media, através da propaganda massiva, seguem a práxis dos regimes fascistas todo o séc. XX na Europa.


Robert Paxton define o fascismo como uma obsessão pela decadência comunitária e pela busca de um salvador. Tanto na Europa como nos EUA, muitos sentem-se vítimas da globalização, levando a um ressentimento crescente. As observações de Renaud Camus e Michel Houellebecq sobre a “mudança demográfica” e a “submissão” cultural ilustram uma crise de identidade e medo de deslocamento. A retórica de Trump ecoa essas preocupações, ao alienar grupos minoritários e desenhar uma nova narrativa do “nós” contra “eles”.

O inquilino da Casa Branca, à semelhança de outros líderes fascistas, é devoto da crença quase sobrenatural  si mesmo, operando no contexto de uma crise existencial da cidadania americana. Não cria apenas “inimigos”, também distorce a verdade para moldar a percepção pública. A linguagem desconectada do significado, como alerta George Orwell, leva a um estado onde a própria noção de realidade é substituída por uma nova “verdade”.

Ao contrário do que poderíamos supor há uma década, o fascismo não estava em remissão. No cenário actual, a luta pela verdade e a resistência Às ideias extremistas emergem como imperativos morais, na dura batalha contra a desumanização e a decadência dos valores.

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