13/12/2017

...o resto são palavras

Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.



Miguel Torga

10/12/2017

...cal

...quando a vida passa por longos e silenciosos períodos de metamorfose, resta esperar que o silêncio se eleve até que um infinito manto de palavras e desça do Céu. Não serão anjos nem querubins que do alto soarão as trombetas a anunciar os povos da Terra, mas será um rasto de estrelas que o céu desenhará na anunciada alvorada.
 
Motivos não têm faltado para deixar escrito tudo o que poderia ser dito, mas nada como o frio imaculado de uma parede de cal. Apenas uma breve brisa.
 
Um ano passou e tudo permaneceu exactamente no mesmo tempo.Como se o silêncio fosse uma pausa quase ridiculamente infinita.
 
 



08/11/2017

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

Ondjaki

17/06/2017

...praia fora

..cai a noite,
é no escuro que vemos melhor.
sonhos.
um dia gostava de ouvir o som dos seus sonhos.
o som do vento que se mistura  com cabelos que ondula  pela praia,
as as palavras que o olhar esconde por detrás daqueles olhos amendoados.
sentir a areia que pisa,
o ar que respira quando a maresia toca a doce pele morena,
caminha só praia fora.
cada pegada é um pensamento,
a cada pensamento um vazio que descreve,
nasce o sol, abro os olhos
e tudo desvanece,
dela nada,
apenas apenas espuma do mar,
e o som do vento.


26/02/2017

...um mundo aparte



O mundo de Athos era um vazio de luz. O mundo de Isa era dominado por um tonalidade áurea onde não havia lugar a sombras nem penumbras.

O sonho de Athos era sentir o calor das cores, e o perfume da luz. Athos não compreendia a razão pode detrás das palavras.O sonho de Isa era sentir a paixão da noite e melancolia do silêncio. 

Athos  sentia a dimensão da penumbra e sabia distinguir o vulto das sombras, como se fossem o prenúncio do dia e da noite. Isa era cega mas lia nas palavras o mundo de luz que a rodeava.

Viviam em mundos separados, mas havia alturas em que ambos quase se tocavam: de manhã e ao anoitecer.
Foi assim que se conheceram, e por isso se afastaram.



Na luz que Isa transportava no seu sorriso, faltava a penumbra que guiava Athos. À melancolia que Isa sonhava, respondia Athos com gestos que Isa não compreendia.Nunca se tocaram, nunca se viram, apenas gestos, palavras e mais tarde um silêncio que se perpetua.

Ele ficou cego pois guiou-se pela ilusão de compreender as cores, sem as sentir sem as tocar; ela abriu os olhos e teve a percepção que o significado das palavras não eram suficientes para compreender o que o seu olhar não captava. Viu o dia e perdeu a noite. Ele via luz, mas afundou-se na penumbra.

Talvez a história tivesse outro destino, senão existisse apenas aquela manhã ou o anoitecer. Um dia provavelmente haverá algo que falhou: tempo.

...discurso passivo

....se o poeta é um pastor de fingimentos, o escritor um contabilista de palavras, eu serei apenas um guardador de silêncios.

Os meus silêncios não serão freses, e os meus pensamentos não serão poesia. Rodam por aqui, e surgem quando tomam o forma de tinta invisível


06/11/2016

...CGD

Eça de Queiroz escreveu um dia que os políticos e as fraldas deviam ser trocados de tempos a tempos pelo mesmo motivo. Eu acrescentaria que alguns deputados da nossa Assembleia também deveriam ser sujeitos a um processo de esterilização bocal, dada a alarvidade de algumas declarações nesta semana de discussão do OE2017.
Vem isto a propósito da degradação que se vem observando, quer pelas notícias de falsas licenciaturas, quer pela lavagem de roupa suja que alguns ex-governantes se dão ao trabalho de branquear ao sol. Já nem vou entrar nos meandros da birra dos administradores da CGD que pasme-se, julgam-se damas cuja virtude e castidade não pode de forma alguma ser colocada em causa.

Os recentes relatos de pseudo canudos são o espelho da descaracterização da função pública. A gestão da "coisa do povo", essa a que nos habituamos a chamar república transfigurada em jogo de cabra cega, em que as lideranças partidárias e as ignóbeis jotas se divertem numa dança de cadeiras. Talvez isto explique como de facto tudo o que é público, seja hoje sinónimo de descrédito e desrespeito; a começar nos gabinetes ministeriais, continuando a propagação do vírus pelos gabinetes das autarquias e acabando nos lugares de administração das empresas ditas públicas. Vícios privados, públicas virtudes.

Por simpatia, gostava de imaginar que a escolha dos lugares nos cargos de maior responsabilidade política devia obedecer a critérios tão estanques como a competência e a seriedade. Obviamente andamos todos iludidos, pois outros valores se sobrepõem, a começar pela cor partidária e ou mais importante do que isso a prepotência e o favorecimento (a famosa “cunha”). Aos visados por este parágrafo, aconselho vivamente o mesmo remédio que sugeri ao sr. Relvas.


No caso da CGD, gostava que alguém tivesse a humanidade de colocar estes senhores que algum idiota (este sim caro deputado João Almeida) decidiu nomear, no devido lugar. Até podem ser os melhores gestores bancários; uma lufada de ar fresco depois de anos de governamentalização da administração da CGD, mas isso não lhe augura o direito de se sobreporem à lei. É tão simples! uma folha A4, caneta BIC, saliva e um selo dos CTT. O Tribunal Constitucional ainda tem uma daquelas caixas vermelhas do correio postal e dizem por aí que ainda é um daqueles órgãos que conserva algum respeito pela tal “causa pública”. Que o diga o ainda deputado Passo Coelho. Admirador confesso da Constituição da República.

Por falar em TC, aqui fica o estímulo para os senhores juízes. Talvez assim acordem do marasmo em que se encontram.Saudades dos ataques constitucionais do anterior Governo!?



Web Summit. Espero que o facto de termos roubado este evento aos nossos amigos celtas de Dublin tenha um impacto superior aos 200 M€ euros em entradas, gorjetas e receitas de UBER. O objectivo é alavancar as nossas tecnológicas e diminuir o gap tecnológico e investimento nas novas tecnologias. Talvez muita gente não saiba, mas só podemos agradecer ao anterior governo esta iniciativa!
E para terminar um pensamento sobre a actualidade internacional


Entre a mulher do Trump e a mulher de César, escolho o pacto secreto do sr. Hollande. Acho que para quem anda atento ao que se passa nesta Europa, já basta a merda que o Eça de Queiroz queria dizer.

25/09/2016

...portuguese sardines


“Total fertility rates (TFR) have increased since 2000 on average in the EU as a whole, although
this trend increase has reversed into a decline since 2010 (…)…By contrast, fertility rates
have decreased in Cyprus, Luxembourg, Malta Poland and Portugal.”

The 2015 Ageing Report. Underlying Assumptions and Projection Methodologies, UE

..em resultado disso, é normal que haja menos crianças matriculadas nas escolas! O próprio relatório aponta para um decréscimo da população escolar em Portugal até 2060. A consequência disso serão cada vez menos escolas e menos professores!?

Talvez sim. A manter-se esta prática absurda de encaixotar alunos até que o oxigénio dentro da sala de aula se converta em vapor de água e dióxido de carbono por um mecanismo biológico conhecido; nessas salas espectaculares com quadros interactivos que mal são utilizados e com ar condicionado desligado por falta de verbas. Nessas escolas que foram uma “festa” e que se transformaram numa pesada herança, em nítido contraste com outras [muitas mais!] que nunca foram objecto de qualquer beneficiação e que sobrevivem entre pingos que caiem do tecto, o calor que sopra depois o frio que pela janela entra.

Seria interessante, começar a olhar para os relatórios não numa abordagem “malthusiana” da solução [mais simplista e com resultados orçamentais imediatos], mas vendo aqui uma oportunidade de voltar a pensar na educação, não na sua perspectiva aristotélica na globalidade, mas como uma via para recuperar e cimentar as capacidades cognitivas e das aptidões específicas dos alunos. Isso só se consegue efectivamente com comunicação, expressão de afectos, aquela coisa estranha chamada socialização, o mútuo respeito. Gostava que a métrica estúpida dos metros de quadrados por aluno, ou a análise irracional do custo por aluno fosse substituída pelos resultados que conseguem alcançar em termos de reforço da auto-estima e a autoconfiança; que a sala de aula voltasse a ser um espaço de reflexão metódica e pensamento dinâmico. Não uma lata de sardinhas [metáfora muito usual!].

Apesar das mudanças na orientação política elenco do MEC [se é que isso influi na capacidade de mudança no mi(ni)stério!?]…a velha praxis mantém-se! Para prejuízo dos alunos e do nosso futuro. No FIM, culpe-se os professores!...

09/08/2016

...passos

meus passos nesta rua
ressoam
     noutra rua
onde
     ouço meus passos
passarem nesta rua
onde
só a névoa é real.

Octávio Paz

07/08/2016

...o vissio da b'leza

…nada é mais subliminar que a beleza. Exprime-se por um som, uma recordação, uma imagem que fica a pairar, um poema de ideias, um breve olhar, ou mesmo uma troca de palavras. Talvez seja esta a teorização do belo platónico, essa masmorra que nos comprime de forma insuportável e ao mesmo tempo apaixonante. É sobre esta masmorra que paira o meu quotidiano pensar. Não é um pensamento vago, uma ideia metafísica; é bem real, corpóreo, tem um rosto.

Como uma matriz de números, encerra uma equação de variáveis intrincadas que nem o tempo parece capaz de resolver. Sempre tive uma má relação com os números. As letras são infinitamente moldáveis e encerram uma melodia que ultrapassa a rigidez da álgebra.

A beleza é boémia, embriaga, não vive de acordo com normas ou a cadência repetitiva de uma série, ou uma equação linear. A beleza é um vissio; algures entre a superstição e a crença,- ora adoramos quebrados aos seus pés, ora somos fustigados com a sua raiva contida e levados ao mais profundo dos infernos, inebriados pelo perfume a sua fúria.


Perante a beleza, somos fracos, apenas um número no canto de uma página, ou na lombada de um livro esquecido numa prateleira. Vazios como uma pauta sem melodia, que nos inunda o silêncio do pensamento.

 

04/08/2016

...óleo



..obviamente que se demita! penso que é a saida mais honrosa que lhe assiste. Já agora gostaria de saber qual foi a justificação que apresentou ao responsável hierárquico! Indisposição momentãnea? assistência à família? representação institucional? trabalho politico...ou lobbying?

...uma excelente caso para promover uma ligeira alteração à redação da lei! mesmo aceitando o "presente" em caso de devolução, não se passou nada! Surreal, mas aparentemente (a julgar pelo bruá!) natural, aos olhos da maioria silenciosa!

...ética a quanto obrigas!


06/07/2016

...luz

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando? 
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Fernando Pessoa


01/07/2016

...algures na baia do Espirito Santo


Próximo destino


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16/04/2016

.. a menina que não falava




Parabéns D

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, os seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmissível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam a percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava numa língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entoação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
O seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite apertou-lhe as mãos e implorou, certo que falava sozinho:
— “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostos  daquela água salgada e disse:
— “Mar”…
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elaborou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azul e o seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E as lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando a pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
— “Vem, filha!”



Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
— “Vamos filha! senão as ondas vão-nos engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Tamanho peso tão jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Cansado, sentou-se ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas já pareciam enrolar o peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: a sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua estilhaçou-se em mil estrelinhas. O mar encrespou-se, o barco afundou, engolido num abismo. A praia cobriu-se de prata, flocos de luar cobriam o areal. A menina pôs-se a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— “Pai!”
Então, abriu-se uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz derramava-se sangue. A água sangrava? O sangue aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e calou-se. A história tinha perdido o fio e a meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os seus pés, e as pernas da sua filha? E ele, em desespero:
— “Agora, é que nunca”.


A menina, nesse instante, ergueu-se e avançou ondas dentro. O pai seguiu-a, temeroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai espantou-se com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos escoariam?
— “Filha, vem para trás. Filha, por favor”…
Ao invés de recuar a menina entrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida fechou-se, instantânea. E o mar refez-se. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e conduziu-o de volta a casa. No cimo, a lua recompunha-se.
— “Viste, pai? Eu acabei a tua história!”
E os dois, iluminados, extinguiram-se no quarto, de onde nunca haviam saído.


adaptado de um conto de Mia Couto

...sempre distante, longe





A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?


Pedro Tamen

(photo by: Paulo Medeiros


18/03/2016

...l'amour

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra 
e seu arbusto de sangue. Com ela 
encantarei a noite. 
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena 
do sorriso de um momento. 
Mulher quase incriada, mas com a gravidade 
de dois seios, com o peso lúbrico e triste 
da boca. Seus ombros beijarei. 

 (foto: Jackson Carvalho)

Cantar? Longamente cantar. 
Uma mulher com quem beber e morrer. 
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave 
o atravessar trespassada por um grito marítimo 
e o pão for invadido pelas ondas - 
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes. 
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento 
de alegria e de impudor. 
Seu corpo arderá para mim 
sobre um lençol mordido por flores com água. 

Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos, 
os bordões da melodia, 
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, 
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. 
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob 
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, 
mulher de pés no branco, transportadora 
da morte e da alegria. 



(foto: Luis Mendonça)
Dai-me uma mulher tão nova como a resina 
e o cheiro da terra. 
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, 
cantarei seu sorriso ardendo, 
suas mamas de pura substância, 
a curva quente dos cabelos. 
Beberei sua boca, para depois cantar a morte 
e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro 
pescoço de planta, 
onde uma chama comece a florir o espírito. 
À tona da sua face se moverão as águas, 
dentro da sua face estará a pedra da noite. 
- Então cantarei a exaltante alegria da morte. 

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela 
despenhada de sua órbita viva. 
- Porém, tu sempre me incendeias. 
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite 
imagem pungente 
com seu deus esmagado e ascendido. 
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 
Entontece meu hálito com a sombra, 
tua boca penetra a minha voz como a espada 
se perde no arco. 
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua 
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo 
se desfibra - invento para ti a música, a loucura 
e o mar. 

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, 
a inspiração. 
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. 
Vou para ti com a beleza oculta, 
o corpo iluminado pelas luzes longas. 
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos 
transfiguram-se, tuas mãos descobrem 
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça 
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou 
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - 
eu sou a beleza. 
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem 
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada 
beleza. 

(foto: J. Giesta)

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti 
que me vem o fogo. 
Não há gesto ou verdade onde não dormissem 
tua noite e loucura, não há vindima ou água 
em que não estivesses pousando o silêncio criador. 
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos 
originais. 
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra 
a carne transcendente. E em ti 
principiam o mar e o mundo. 

Minha memória perde em sua espuma 
o sinal e a vinha. 
Plantas, bichos, águas cresceram como religião 
sobre a vida - e eu nisso demorei 
meu frágil instante. Porém 
teu silêncio de fogo e leite repõe a força 
maternal, e tudo circula entre teu sopro 
e teu amor. As coisas nascem de ti 
como as luas nascem dos campos fecundos, 
os instantes começam da tua oferenda 
como as guitarras tiram seu início da música nocturna. 


Mais inocente que as árvores, mais vasta 
que a pedra e a morte, 
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, 
tinge a aurora pobre, 
insiste de violência a imobilidade aquática. 
E os astros quebram-se em luz 
sobre as casas, a cidade arrebata-se, 
os bichos erguem seus olhos dementes, 
arde a madeira - para que tudo cante 
pelo teu poder fechado. 
Com minha face cheia de teu espanto e beleza, 
eu sei quanto és o íntimo pudor 
e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa, 
é sua carne que do minuto obscuro e morto 
se devolve à luz. 
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras 
com uma imagem. 
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito 
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade 
uma ideia de pedra e de brancura. 
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, 
que te alimentas de desejos puros. 
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, 
a sombra canta baixo. 

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, 
onde a beleza que transportas como um peso árduo 
se quebra em glória junto ao meu flanco 
martirizado e vivo. 
- Para consagração da noite erguerei um violino, 
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada 
darei minha voz confundida com a tua. 
Oh teoria de instintos, dom de inocência, 
taça para beber junto à perturbada intimidade 
em que me acolhes. 



(foto: Rui Silva)

Começa o tempo na insuportável ternura 
com que te adivinho, o tempo onde 
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde 
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida 
ingénua e cara, o que pressente o coração 
engasta seu contorno de lume ao longe. 
Bom será o tempo, bom será o espírito, 
boa será nossa carne presa e morosa. 
- Começa o tempo onde se une a vida 
à nossa vida breve. 

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna 
salina, imagem fechada em sua força e pungência. 
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado 
em torno das violas, a morte que não beijo, 
a erva incendiada que se derrama na íntima noite 
- o que se perde de ti, minha voz o renova 
num estilo de prata viva. 

Quando o fruto empolga um instante a eternidade 
inteira, eu estou no fruto como sol 
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada 
matriz de sumo e vivo gosto. 
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices 
das nuvens florescem, a resina tinge 
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. 
E estás em mim como a flor na ideia 
e o livro no espaço triste. 

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento 
a cevada pura, de ti viriam cheias 
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses 
em minha espuma, 
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? 
- No entanto és tu que te moverás na matéria 
da minha boca, e serás uma árvore 
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança. 
Ver no aro de fogo de uma entrega 
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus 
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante 
do meu perpétuo instante. 
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face 
se encha de um minuto sobrenatural, 
devo murmurar cada coisa do mundo 
até que sejas o incêndio da minha voz. 

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso 
jovem da carne aspiram longamente 
a nossa vida. As sombras que rodeiam 
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto 
seu bárbaro fulgor, o rosto divino 
impresso no lodo, a casa morta, a montanha 
inspirada, o mar, os centauros 
do crepúsculo 
- aspiram longamente a nossa vida. 

Por isso é que estamos morrendo na boca 
um do outro. Por isso é que 
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento 
da brisa, no sorriso, no peixe, 
no cubo, no linho, 
no mosto aberto 
- no amor mais terrível do que a vida. 

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz 
o perfume da tua noite. 
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua 
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre 
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca 
ao círculo de meu ardente pensamento. 
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam 
sobre o teu sorriso imenso. 
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente 
das urzes, um silêncio, uma palavra; 
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua 
vermelha. 
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, 
casa de madeira do planalto, 
rios imaginados, 
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas 
maravilhosas da noite. Ó meu amor, 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

De meu recente coração a vida inteira sobe, 
o povo renasce, 
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora 
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma 
de crepúsculos e crateras. 
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome 
encanta pela noite equilibrada, imponderável - 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se 
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro 
da tua entrega. Bichos inclinam-se 
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando 
contra o ar. Tua voz canta 
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com 
o lento desejo do teu corpo. 
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo 
eu morrerei contigo. 

Herberto Helder