31/01/2021

...assincronia

 

Perante uma situação emergência, como é que vivemos actualmente (tal como sucedeu em Itália, mais tarde em Inglaterra, ainda a decorrer nos Estados Unidos, e noutras paragens) há sempre dois modelos de actuação, cada qual com as suas fragilidades e desafios: salvar o maior número e salvar todos os que podem ser salvos. O segundo modelo congrega o consenso moral, o primeiro é um desígnio alcançável, mas qualquer um deles enferma de um pequeno problema funcional e estrutural: por mais planos que se façam, nada consegue remediar a arbitrariedade da produção e distribuição das vacinas. Não depende de nós.

Simplesmente, não existe sincronia absoluta na cadeia de processamento e a garantia de fornecimento é baseada na expectativa.

Por isso, é normal que casos como os que sucederam esta semana, e que não são um exclusivo nacional (atente-se ao que sucedeu por exemplo no Oregon na passada quinta-feira), vão ser inevitáveis. Toda e qualquer acção por parte das equipas que estão a administrar as vacinas vai sempre depender da tomada de decisão individual, organizacional e ética. Aquilo que se pode questionar (e bem!) é se, faz sentido fornecer uma primeira dose a todos os trabalhadores de uma simples pastelaria e questionar o facto de terem estado naquela hora específica no local certo. Outra questão que deve ser exarada (naquilo que, agora se intitula do foro “criminoso”) é se, não teria sido mais justo indagar outro local nas proximidades com pessoas que estejam dentro dos critérios da 1ª Fase. Certamente que haverá.

Convém notar que, não se pode replicar o mesmo raciocínio à atitude de quem, estando em lugares de chefia pública (ou privada) utiliza essa condição como argumento, para, de forma gravosa, sobrepor-se ao racional que está definido. O enquadramento desses actos, ultrapassa questões éticas ou morais, e cai directamente no âmbito do absurdo premeditado. Isso sim, é matéria passível de ser julgada. E não é uma questão, é um facto.

Para que o modelo funcione, não é possível que todo e qualquer indivíduo mobilize esforços e sobreponha-se ao próximo, de uma forma individualista e egocêntrica. Tudo tem de seguir o seu ritmo- a sincronia absoluta mais do que uma impossibilidade, é uma utopia. Qualquer tentativa reiterada de subverter as regras definidas constituem um clamoroso perigo – a utopia transfigura-se em anarquia.

30/12/2020

..a mesma vida

 

…talvez a forma menos cáustica de celebrar o epílogo deste ano seja mesmo fazer uma introspecção demorada sobre tudo o que aconteceu: as poucas boas, mas sobretudo o furioso galope do egoísmo e falta de educação que atingiu como nunca os píncaros.

 

(sugestão de música: https://youtu.be/R9rF87XYmwQ)

 

Há pouco menos de um ano, enquanto almoçava rebatia argumentos sobre as virtudes da organização disciplinada e férrea dos chineses que, quais formigas no emaranhado caótico de um formigueiro, montavam em contra-relógio um hospital para fazer face à ameaça de uma doença desconhecida. Um dos argumentos à prova de bala foi que, a breve trecho, o hospital poderia colapsar dada a reconhecida falta de qualidade (de quase tudo) made in China. Quiçá uma forma proverbial de xenofobia comercial, mas que, para quem passou a vida a brincar com carrinhos made in Taiwan, qualquer produto chinês é de facto sofrível.


Enganei-me redondamente. Quem colapsou foi o mundo que conhecíamos.




É intrigante. Bastou uma doença invisível, mortal para uns, uma maçada indolor para outros, para arruinar a teia intrincada de relações emocionais e paulatinamente destruir toda uma cadeia de sentimentos que mais não eram que uma singular aparência. Como se a lua fosse a penumbra e o sol uma sombra. 


Algures já em plena pandemia escrevi que não havia que apontar esta ou aquela profissão, e que as palmas à janela e os afagos públicos depressa seriam esquecidos ou vulgarizados. Escrevi então que, no final seremos todos heróis. E a realidade confirma-o em todas as latitudes.


Amanhã, este longo Inverno emocional termina, mas não será a Primavera de um novo dia. Ainda há um eclipse duradouro até que possamos de novo tentar (re)viver num novo paradigma em que, os alicerces de tudo quanto considerávamos adquirido, deixou de ser. Como se o verbo fosse agora uma eterna dúvida.


Tenho sérias dificuldade em olhar da mesma forma para muitos rostos cuja leitura dos últimos meses foi uma verdadeira decepção. Não sei se consigo ter a mesma lhaneza de tracto para com quem, este sobressalto (chamemos-lhe assim) foi um exercício dolente, mas muito revelador. Mas por outro sinto uma certa nostalgia do tempo em que todos, eramos virtuosamente naïfs.

 

Talvez siga uma máxima existencial, e opte pelo silêncio. A mais pura forma de amor, e talvez um dia o olhar de quem se desligou  sinta suficientemente amaciado. Não é por orgulho ou vingança mesquinha, mas porque há todo um mundo para lá de quem nos fecha portas. Para lá da penumbra e da sombra, encontro a profusão de luz. Por cada teia que a tempestade eliminou há uma nova arquitectura, um novo horizonte de planos que irrompem.

Um admirável mundo novo, mas a mesma vida.

22/11/2020

..manta morta

 

Na natureza o elemento mais parecido com um partido populista é o cogumelo. Para se desenvolver dependa da manta morta em decomposição e quanto mais substracto orgânico maior a difusão de esporos. Desligando a componente biológica e mergulhando a fundo na indecência da realidade europeia, as movimentações nos extremos das democracias liberais (sejam eles da índole xenófoba e racista ou pregando ideologias de âmbito marxista,  leninista ou trotskista; pelo menos estes últimos tinham uma aura de vanguarda culturalmente mais evoluída, passe a ironia) constituem uma espécie de barreira intransponível para os valores básicos do humanismo (e em importante medida na tradição judaico-cristã que cimenta a construção da nossa civilização).



No caso concreto dos movimentos de extrema-direita, pasme-se, chegamos a um patamar quase imoralidade face aos direitos fundamentais do Homem. Como se duas guerras mundiais e respectivas consequências, o legado de morte e ódio, não foram suficientes para afastar de vez os adeptos do nacionalismo irracional.

Talvez seja este seja o Outono da democracia de valores, mas temos sempre se transforme num longo  Inverno, ainda que acredite ser funesto, o legado destes movimentos que se alimentam do medo, a ignorância e o desespero.

Como se não bastasse, o que se passa do outro lado do Atlântico em que a mentira passou a ser uma tendência e o ódio ao estranho uma crença, mais triste me sinto quando aqui nesta margem, se utilizam os mesmos argumentos e tácticas utilizadas pela propaganda nazi nos idos anos 30 do século passado: a “raiva latente” e o “ressentimento” de quem vive em situações de extrema debilidade, o ódio a uma determinada etnia, o desprezo sobre quem é de determinada raça, transformados em verdadeiros anátemas de uma sociedade que se quer pura , de pessoas normais. Mais ainda quando algumas forças políticas ditas sociais-democratas calcinam essas entidades, com o rótulo de moderados.

Perigoso. Acho que é a palavra certa. A radicalização do discurso contra determinadas franjas da sociedade são a manta morta que alimenta o fungo.

Só há duas formas de manter a coesão dos valores da democracia: a constante luta contra o extremismo e uma intolerância total de movimentos que perfilem essas ideologias.

 

Preservemos o espírito da liberdade como herança de todos os seres, de todas as terras, em todo o lado

Abraham Lincoln

11/10/2020

..nós vs eles

O sublime e o óbvio são factos tremendamente perigosos. É estranho o que se passa actualmente em Portugal e um pouco pelo mundo fora, em que a ideologia de extrema direita com a aura de populismo pop tem vindo paulatinamente a tomar conta das agendas de discussão, numa primeira abordagem e, com uma redobrada dose de marketings nas redes sociais, a tomar lugar na agenda política e, nalguns casos no controlo de governos.

O discurso é de facto bastante agradável e subliminarmente polido para ser quase libidinoso. Ilude e mascara uma realidade que há muito devia ter sido abolido, mas que, por insondáveis razões, mantém um conjunto de fiéis e ideólogos que operam na sombra de forma a dourar o discurso. O perigo para a democracia reside no facto de algumas das ideias e políticas que advogam puderem ser consideradas tão óbvias quanto normalizadas. Tal como nos anos 30 do séc. XX, este neo-nacionalismo, anti imigração, racista, xenófobo e homofóbico, tem um enorme impulso com crise económica de 2008 e nas repercussões das sucessivas vagas de refugiados na Europa - nós contra elesOs alicerces da política social europeia foram erguidos com base nos valores do humanismo, na liberdade, no multiculturalismo e na defesa intransigente dos direitos humanos. Tudo valores que vão contra a ordem natural defendida por estas novas seitas. O belo acalma, o sublime excita, e apesar de tudo há é pouca gente para dar por isso! Ou então caíram no engano de se deixar seduzir pelo factor novidade sem medir as consequências todo o racional sociológico que se esconde por detrás destas ideias aparentemente refrescantes.

Mais triste é quando nos apercebemos que, por cá, por detrás desta nova face da extrema-direita, estão rostos ligados a movimentos da igreja cristã, em clara oposição a tudo aquilo que defende o cristianismo.

Nem de propósito foi publicado este mês uma nova encíclica: Fratelli Tutti – que, por coincidência temporal, ou talvez não, anuncia-nos um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si». A fraternidade, esse conceito tão maçónico não tem a mesma química etérea que a violência e repulsa por tudo aquilo que é diferente – os outros não carregam a nossa marca.

O nós é, sem qualquer tipo eufemismo,  uma espécie de horror delicioso, que cresce até tornar-se algo gigantesco se não for quebrado. Como diria Newton, aquele que vê mais longe é aquele que se apoia nos ombros de gigantes. E de facto, é perturbador o que se vê e ouve hoje em dia, mais assustador, quando nos apercebemos que é tão óbvia a ameaça que paira no ar e no silêncio que gera em alguns sectores da sociedade acima de qualquer suspeita. 

...happy trails to you Eddie

 ..todos nós temos heróis! seja na arte, na literatura, na ciência, na política, no desporto, etc. No meu caso concreto ,era um indivíduo estranho, quase eremita, músico, o último dos guitar heroes. Complemente louco e extrovertido em palco, reservado no recato da vida privada. Vivia no estúdio que construiu nas traseiras da mansão em Los Angeles, onde estudava e construía as guitarras que utilizava. Tal como Hendrix, foi uma espécie de Deus da guitarra eléctrica. O mais estranho talvez fosse o facto de ser holandês: Edward Lodewijk Van Halen.

O resto são os milhares de memórias que tenho ao som da música que compôs.  

Neste momento está algures lá em cima, a tocar alguns riffs com sua Frankenstein, com o cigarro preso nas cordas. As lendas são eternas.

Happy trails to you Eddie...



25/07/2020

..uma questão de gosto


... a democracia não está uns segundos mais próxima da órbita do perigo só pelo facto de deixarmos de ter os debates quinzenais na AR. Pelo contrário, basta ter estado atento ao último para entender que o modelo foi erodido com o tempo e deixou de fazer qualquer sentido. Num aspecto quer PSD quer o PS têm razão: é mesmo necessário preservar o que resta da dignidade da AR perante a opinião pública.
O cerne do problema talvez seja outro: a asfixia em termos de qualidade dos tribunos que elegemos. Talvez tenha sido um azar temporal ter acompanhado desde muito novo, grandes debates, antes e depois dos governos do Prof. Cavaco Silva (paladino da representatividade da AR; com uma pitada de ironia). Não vale a pena elencar nomes de ilustres oradores que por lá passaram, pois, a história já se encarregou de os colocar na prateleira respectiva -vulgo arquivo histórico, em zona com temperatura e humidade controladas.
Para quem gosta de cantares ao desafio e lutas de galos, o modelo actual assentava que nem uma luva, ainda que por vezes tenha resvalado para o lado do romance como foi o pretérito. O tempora! O mores!
Mais do que o escrutínio - essa palavra tão amada, mas que depressa se tornou vaga, os debates quinzenais raramente confluem em algo palpável ou útil para os eleitos, tendo-se tornado de forma abusiva – maxima culpa – uma coreografia de soundbytes e jingles de noticiário para deleite de comentadores.
Talvez fosse hora dos senhores deputados fazerem um acto de contrição pelo mau desempenho, e quiçá talvez um dia descubram que o problema do modelo não era o facto de obrigarem o PM e restante executivo, a maçada de se deslocarem ao hemiciclo para serem confrontados com uma rajada de questões (todas elas eminentemente cruciais para o destino da Nação), mas o simples facto de as respostas , raramente terem o nível que se exigia comme il faut e no final do debate juntos, se encaminharem para um merecido repasto, como se nada se tivesse passado. Quando a argumentação é má, o esforço da contra-argumentação será inevitavelmente mínimo - a pegada ecológica agradece.
Para os autos ficam alguns debates (poucos) desde que o José Seguro teve a idiota ideia (com o devido remoque para o senhor PM) de os acrescentar ao regimento. Aguardamos com redobrada expectativa os (co)mensais sectoriais para calibrar de novo a qualidade da ementa parlamentar.   

12/07/2020

Color me blind



Num momento em que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa navega num bote à deriva, ao ritmo do caudal da corrente alternada com que magnetiza o seu discurso, acho simpático distrair os lisboetas e os pouco turistas que por cá vagueiam com ruas pintadas em tons de arco-íris! Espero sinceramente que os serviços do urbanismo tenham em atenção as elementares regras em termos de tons das fachadas e compatibilidade com as caixilharias. Já agora uns graffitis para dar um cunho ainda mais moderno?

Neste momento não sei o que é mais nocivo: se as listas vermelhas na Europa, se o AL ou o Airbnb, mas tenho a certeza de uma coisa: a atitude titubeante do Governo e a subserviência aos países ditos “amigos” é de bradar aos céus. Lá está é tudo uma questão de interpretação da cor. Neste particular somos daltónicos.

O sucesso do desconfinamento será sempre proporcional ao tamanho da recessão. Talvez. Seria verdade se cada um cumprisse aquela regra básica de utilizar máscara ou se cumprisse rigorosamente o isolamento preventivo nos casos referenciados pela literatura. Mas aparentemente é mais fácil deitar fora as máscaras verdes e azuis para o chão da rua, do que sofrer a humilhação de as utilizar junto dos seus pares. Colocar no caixote do lixo jamais! E isso de ficar em casa a ver a tonalidade das paredes não é opção quando numa esplanada se está verdadeiramente melhor.



Há uns anos atrás, um banco em tons de verde colapsou e transformou as nossas vidas num buraco negro que ainda hoje não se vislumbra. Se alguém souber do paradeiro de uma das auditorias – basta uma - que entretanto foram produzidas, que acenda uma pequena luz para termos alguma noção de decoro.

O Governo vai começar a monitorizar os discursos de ódio nas redes sociais. Não era preferível transferirem essas competências e esforço para ampliar as equipas que tentam fazer a despistagem epidemiológica nas Região de Lisboa e Vale do Tejo?

Tenho uma sugestão: passar as conferências de imprensa da DGS do horário de trabalho para antes do Preço Certo e reduzir o número de intervenções. É uma opção win-win:  a DGS tem mais umas horas para actualizar as listas excel em vez de utilizar o programa da OMS que é mais intuitito, user friendly e de borla e ainda, A família está toda reunida e podem discutir  o tema de uma forma mais ponderada e assertiva e, last but not the least ,a produtividade no trabalho aumenta pois são menos 10 minutos discutir as variações percentuais do dia anterior.

...gostava de sonhar a cores, mas é cada vez mais difícil quando a  realidade se revela em tons preto e branco.

03/05/2020

...(a)norma



Parecia um ano completamente banal, pelo menos era essa a ameaça. Recordo-me vagamente que uma das resoluções era mesmo não planear nada [premonitório]. Nos primeiros dias de Dezembro as notícias que vinham da China começavam a levantar a ponta do véu daquilo que seria algo completamente disruptivo e devastador.

Primeiro a perspectiva de quem está longe e observa com natural espanto todos aqueles autómatos a construir um hospital de raiz em meia dúzia de dias, como se disso depende-se a sobrevivência da espécie ou tal significasse o último sopro de vida.

«E se este mundo for o inferno de outro planeta?»Aldous Huxley

Um pouco de forma jocosa, fazia-se o paralelo entre o investimento e obras públicas que por cá são uma eternidade e uma imensa fonte de corrupção, comparativamente com a celeridade e eficácia de um sistema comunista totalitário, desprovido de Tribunal de Contas, Código dos Contractos Públicos (CCP) e toda a carga “burocrática” e teias de relações que seria necessário ultrapassar para tal ser sequer imaginável. Já nem falo dos almoços.

Mas não. Estávamos todos enganados. Afinal era apenas por prenúncio de uma distopia que se transfigurou em realidade muito rapidamente.

Graças aos malefícios da globalização, dos  acanhados lugares dos voos charter e da dinâmica do turismo e da atractividade que o Velho Mundo Continente sempre teve por desgraças alheias [para mais informações consultar qualquer manual epidémico] aquela cidade que ficará pra sempre na nossa memória - Wuhan – era uma espécie de Hiroshima aqui mesmo lado.

As nossas vidas não são as mesmas. Somos personagens de uma ficção sem um guião.

«Que vida! A autêntica vida está ausente. Não estamos no mundo.»Rimbaud

As ruas são agora mares de silêncio. Onde se ouvia  adoce melodia da boémia, o crepitar da vida social, os afectos, os desalentos, o choro do desassossego, o murmurar da comunidade, agora é um mar de gente que se afasta aproximando, que lança um olhar desconfiado e um temor que transparece um medo heróico.

«Mesmo através do painel da janela fechada, o mundo parecia frio.»George Orwell

Enquanto caminho pelo jardim na esperança de ouvir por fim o ruído da Primavera que vingou o Inverno mas sem se anunciar ou ser comemorada, apercebo-me da geometria que todos os zombies [eu incluído] desenhamos no espaço – longas elipses que não se intersectam no tempo. O nosso mundo já não é plano, não há rectas, nem o calor das interseções, nem muito menos vidas paralelas. Somo corpos que giram em redor de um medo que nos atrai e nos repele. Não há o próximo, apenas a dor da distância.



26/01/2020

...tudo são números


“Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/ não há nada mais simples./ Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.”
Alberto Caeiro
A social-democracia em Portugal confunde-se um pouco com o socialismo à moda portuguesa, pois ambos advogam a distribuição de dinheiro pelo Estado, ainda que no caso socialista, a devolução desse “investimento social” não seja uma preocupação, já que depois da catarse seguir-se-á sempre uma punção fiscal, ávida de obter esse diferencial nos anos seguintes.
O bom social-democrata [nos países nórdicos] multiplica funcionários, aumenta pensões, acrescenta subsídios, e acumula contratos e parcerias privadas. Privatiza com moderação, um pouco mais do que um socialista [daqueles que não seguem a religião à letra]. Se com os primeiros governos socialistas tivemos as prim
eiras reversões das nacionalizações do PREC, com os governos sociais-democratas 80-82 e sobretudo na década de 90, tivemos a maior entrada de funcionários públicos, a tal classe média que importava conquistar [“o centrão”].
Infelizmente [é dispensável a prova dos factos] para grande infelicidade nossa, o socialismo democrático (não confundir com o socialismo mais à esquerda) e social-democracia têm conduzido os destinos do nosso País nas épocas erradas.
Por exemplo, os primeiros governos socialistas do post 25 de Abril, [na, escala geológica serão os primeiros segundos entre o PREC e ao amanhecer os anos 80] até à chegada da primeira comitiva oficial do FMI, tudo parecia um “mar de rosas”, até que de um dia para o outro passamos a falar novamente sobre a crise [tema recorrente desde a batalha de São Mamede]. A entrada da comitiva da sra. Ter-Minassian, tinha como objectivo corrigir os desequilíbrios macroeconómicos, orçamentais e financeiros, em linguagem financeira, a bancarrota resultante do impacto da crise petrolífera e os devaneios económicos dos anos do PREC.
Em suma, o grande problema é o facto da social-democracia só chegar ao poder em épocas de crise, tal como sucedeu em 2011, depois do deslumbre dos governos socialistas.
A oratória financeira ensina-nos que em anos de contenção financeira, é prudente congelar ou diminuir a despesa pública e, em simultâneo implementar medidas de apoio ao investimento privado e exportações – ou seja apimentar um pouco de neo-liberalismo. E é exactamente isto que raramente foi feito, com a honrosa exepção da social-democracia e democracia cristã.
As [duras] medidas implementadas [com uma forte componente neo-liberal; doutrina delineada pela troika mas negociada pelo socialismo] tiveram um impacte demolidor na economia e na vida dos portugueses e de certa forma consumaram um corte com a trajectória de descalabro da economia portuguesa. Mas infelizmente a ortodoxia neo-liberal suplantou a social-democracia [é melhor nem referir qual a componente de doutrina social cristã, porque não houve] e acabou por ser vítima de si própria.
Em 2015, [qual Pilatos], o socialismo democrático lavou as mãos e facilmente tomou novamente as rédeas do poder, num golpe de mestre ao aliar-se com o socialismo ortodoxo, o mesmo que nos anos 70 ficou na gaveta. O trunfo da esquerda, sobretudo do socialismo é o facto de em Portugal, o partido social-democrata [exceptuando um curto período] não conseguir deixar de ser neo-liberal.
Não é preciso citar Thomas Piketty ou Joseph Stiglitz, para chegar à conclusão actualmente, para a maioria da sociedade portuguesa a social-democracia tem uma reduzida capacidade de gerar uma sociedade melhor. De facto, a narrativa central da social-democracia que aponta para a redução gradual das desigualdades não teve reflexos nas últimas décadas, pelo contrário.
Dado que o espaço do centro é hoje o feudo do socialismo, rapidamente se entende que o fracasso da social democracia e da democracia cristã [mais de direita], são o viveiro e o caldo ideal para a génese de de idelologias populistas e mais radicais.
O socialismo não é antídoto para as desigualdades sócio-económicas e a social-democracia não é uma corrente neo-liberal. O problema de Portugal é questão de números num tempo errado. E tempo é uma constante interminável.

31/12/2019

..the show must go on


A era em que caminhamos sem nos aperceber (ou quase conscientes do limbo) alimenta-se de uma realidade parcial, um pseudo-mundo que nos impõem, para o qual somos convidados a contemplar e tecer encómios pelo espetáculo que nos proporcionam.

Vivemos e respiramos imagens a uma velocidade impossível, somos bombardeados com a informação e desinformação de tal forma que, num abrir e fechar de olhos o passado está aqui na berma do precipício e o que o futuro nos apresenta é uma mão cheia de trivialidades, de nada.

A realidade é tão efémera como a sombra numa árvore num dia de céu azul metálico. Entender o nexo de realidade de todos os eventos de um ano, que fluem desligados e se fundem na mais perfeita harmonia é quase como tentar entender uma pintura surrealista com o primeiro olhar. Seria necessário, tempo para contemplar e respirar tudo, e isso esgota-se no tempo de escrever meia dúzia de linhas. Fica para amanhã.


 O fim de ano é disso um belo exemplo. Um espectáculo que cruza e mistura, para alguns, o desapontamento do ano que agora finda e a esperança que o próximo seja exactamente aquilo que foi mediatizado na imaginação há um ano atrás: No intervalo entre o pequeno-almoço e a meia-noite vivemos, conscientes, na mais perfeita alienação. O verdadeiro transforma-se no surreal.

Amanhã é apenas a continuação de há um ano, e nada mais do que isso.
...até já.  

28/12/2019

..distopia


É cada vez mais difícil saber distinguir a verdade da mentira para quem consulta das redes sociais ou mesmo os media, seja em versão, jornal pendurado no quiosque de rua ou na mais ecológica página online, sempre actualizada. Não que as notícias tenham um qualquer delay por falta de tinta na rotativa do portal na net website, mas porque atravessamos um tempo em que os media, começam a deixar de cumprir a sua função neutral no espectro das operações sociais, e estão cada vez mais reféns de uma lógica que se esgota naquilo que o consumidor quer ler ou precisa de ler.
Apesar de estarmos ainda longe da distopia orwelliana do ‘1984’, o grande inquisidor, o pai que nos protege já espreita, ainda que mascarado por coisa tão fúteis como audiências, pressões políticas ou a necessidade de garantir dividendos do accionista.
Paulatinamente caminhamos, cegos, para uma racionalidade acéfala em que a liberdade de imprensa perde significado e terreno. Com isso, a nossa forma de interagir em sociedade, de manifestar auto-crítica, de cumprir a cidadania esvai-se perante a imposição de um novo normal, o facto verosímil. A realidade perde todo o sentido, quando o espaço público é manipulado e instrumentalizado. Perdemos a noção da realidade, mas ganhamos a ilusão como agentes passivos, indiferentes, sem tempo para questionar, sem direito, muitas vezes ao contraditório.
Se é esta a revolução digital, da comunicação, da informação e da cultura das apps, da IoT, em que a cultura de massas prevalece, em que a crítica se desmorona face à ideologia do que deve ser correcto, polidamente asséptico, em que a independência se transforma num fantoche articulado , então regressemos às velhas rotativas do séc.XX, pois não é este o caminho que devemos trilhar.
A beleza da utopia começa a ser ocupada pela artificialidade da distopia.



25/11/2019

"Só quer a vida cheia quem teve a vida parada "

...acho que é a primeira vez que evoco o 25 Novembro, pelo menos aqui neste submundo. Lá fora apregoou anualmente com a devida vénia, lembrando todos aqueles que lutaram para que a democracia imperasse perante a ameaça do totalitarismo. E é isso mesmo que representa o 25 de Novembro - uma cena muito importante, no contexto de uma obra maior- o 25 de Abril. Sempre entendi que o 25 de Abril foi o início de uma caminhada rumo à construção de uma sociedade democrática. 

Se vivemos uma  democracia imaculada, isso é outra estória que ainda não consigo descortinar, mas cuja a formulação reservo algumas dúvidas bem fundamentadas.


 Não querendo minorar a importância da data, pois houve outro actos igualmente importantes e decisivos no período pós" dia inicial inteiro e limpo", lembrar o 25 de Novembro é fazer com que não caia no esquecimento. Não é necessário feriado, evocação na AR, parada militar, discursos, eu sei lá. Basta falar sobre ela. Falar é recordar.

Os pais estava fracturado entre dois pólos inconciliáveis, de um lado a extrema-direita, espetro resiliente do Estado Novo, sedenta de sangue e pelo outro uma extrema-esquerda anárquica que saia da esfera de controlo férreo do Partido Comunista. O 25 de Novembro colocou cobro a isto - nem um Norte casto e puritano de direita, nem um Sul abaixo de rio maior pecador e comuna.  Nem Norte nem Sul, apenas Portugal.

A história já se encarregou de dignificar alguns dos rostos do 25 de Novembro. Talvez não todos, mas sem quaisquer juízos de valor, quando se evoca um chefe militar homenageiam-se todos os subordinados e todos aqueles que estiveram do seu lado.

Se o objectivo é assinala com grande pompa e circustância, com ao encómios do costume o 25 de Novembro, estenda-se a passadeira, mas de caminho evoque-se com igual cerimonial a aprovação da Constituição de 2 de abril de 1976 - marco igualmente fundamental do nosso processo democrático. 

24/11/2019

..silêncio


...há um silêncio agradável que vem do lado de fora e que se confunde com a modorrenta chuva que intervala o nevoeiro. Estes são os dias que nos fazem perscrutar os pensamentos. Em que cada abrir e fechar de olhos é como a luz de um farol ao anoitecer, e o respirar, um sussurro longo e profundo. Um grito.


21/10/2019

..apetece

..apetece
fugir,
correr,
sentir aquela brisa que nos impele,
a respirar até desvanecer

apetece,
voar,
gritar alto para chegar longe,
e terminar o dia a nascer

apetece,
amar,
sentir a noite a fugir-nos,
como o amanhecer

apetece,
olhar,
voltar atrás,
e escrever-te


13/10/2019

..sofá

Eu e mais uns quantos fascinados da política, estou em pulgas para ver como será o próximo desarranjo orquestral no hemiciclo.

Depois de um ronda de em trotinete pela cidade, ficamos a saber que o PS afinal de contas pode contar com algumas incompatibilidades de feitio no seio da esquerda hard & light. Isto dificulta de certa forma a arrumação das cadeiras dai que talvez seja avisado deixar alguns lugares vagos [estilo zona tampão] para evitar alguns burbirinho doce nas primeiras jornadas.

Relativamente à direita e manifestada a repulsa pelo deputado do Chega, a solução de caixa de segurança no topo do hemiciclo é sem dúvida a medida cautelar mais ajuizada. Talvez seja mesmo recomendável coloca-lo no camarote presidencial onde estará mais salvaguardado para os arremessos que vai receber das restantes bancadas, durante os 60 segundos que vai ter cada vez que ligar o microfone.

Os deputados do PAN, do meu ponto de vista o plantel mais desequilibrado em termos de género [lá está em sempre embirrei com a ideologia!], mas já que conseguiram finalmente constituir um grupo [novo “partido dotáxi”] recomenda-se agora que usufruam apenas do tempo que o regimento confere, pois estar 5 minutos a ouvir sonetos e prosas contra os malefícios da carne de vaca, já me basta o reitor da universidade de Coimbra [nem vou tocar no assunto das festas da univiversidade de cariz sexista pois é nestas alturas em que a questão do género se sublima de todo].

Se sou a favor do prolongamento da deputada do Livre? Claro eu sim! Que tenha exactamente o mesmo tratamento que o PAN teve na anterior legislatura, o mesmo sucedendo com todos os partidos com assento parlamentar mas sem grupo parlamentar. Já agora que se altere o regimento. E se um dia for eleito um representante que utilize apenas a linguagem gestual como meio principal de comunicação?

Resta-nos os mesmos de sempre…que se distribuem como as cores do arco-íris, e se não for pedir muito, com ou mais hermetismo ideológico, equilibrismo ou geometria variável tentem não estragar mais.

Por cá ficamos sentados no sofá a apreciar-vos!

12/03/2019

11+1=11 (3º Acto)



III Acto

No palácio real Pôncio Pilatos rodeado de duas donzelas da corte é confrontado com um suposto líder rebelde que acaba por ser defensor de outro ainda mais perigoso, num julgamento sustentado por um pequeno problema matemático. Está tudo em aberto, ou quase tudo crucificado

[música para de repente; palco escuro]

Apresentador – “Boa tarde novamente [voz pausada]. Pedíamos para fazerem silêncio…o III e último acto vai começar. Aproveitava para agradecer aos nossos patrocinadores que gentilmente ainda não responderam às cartas enviadas há um mês atrás!

[quando houver silêncio na sala].

Agora sim. Podemos começar.”

[ouvem-se as 3 pancadas de Moliére mas muito rápidas]

Centurião -Não é assim Brutus! É pau-sa-da-mente! É mesmo Brutus!

[ouvem-se as 3 pancadas de Moliére agora mais lentas e ligam-se as luzes]

Centurião – Isso! gen-til-mente! Como quem chama por mim, será chuva será vento…

Pilatos – …vento não é cegtamente minhas queguidas! o segviço deste palácio vive na mais pegfeita decadência, vejam lá, o dia nasceu, sou godeado de duas ninfas, mas não há uma alma que me abga os cogtinados para o vento entgag. Vá minhas queguidas, abgam a minha janela paga o mundo. Eh lá! Tanta a gente a olhag pga mim?

Donzela Decadência – Pilatos querido nenúfar do nosso jardim, enche-nos de poesia! Sabes o quão gostamos do teu lirismo

Donzela Errónea-  e de neoliberalismo!

Decadência – Burra, neoliberalismo é uma corrente política!Não tem nada a ver com poesia!

Errónea – politíca!? Não querida, política deixo para o nosso querido Pilatos. Queremos socializar! Não há convidados neste palácio? Onde pairam os eunucos e as bailarinas?!

Pilatos – Calma nobges donzelas, pimeigo há que tgatag dos assuntos do Estado depois venha a ógia. Entgue o pguisioneiro [grita]!

Centurião – Os deuses o tenham em boa conta! Nobre Pilatos…

Pilatos – Mudei de banco valente Centuguião! Bem me avisagam os augúguios e as tguipas de pogco que a sacegdotisa leu no templo da Coguelhã! Exponha então a acusação.

Centurião – Soldado, solte o prisioneiro! O indivíduo aqui na vossa presença está acusado de injúrias e ofensas à autoridade, posse de material estupefaciente e ainda é acusado de rebeldia e atentado ao Estado.

DecadênciaA avaliar pelo volume da barriga diria que o acusado é mais um atentado à dispensa das masmorras. Mas é isto a que chamais de assuntos do Estado meu adorável soberano?

Pilatos – Pguincesa dos meus olhos! Vá ali buscag uma toalha e um pouco de água que o calog das suas palavgas me povoca um estado febil na alma. Pgossiga Centuguião.

Centurião – O condenado, foi encontrado após intensa investigação por mim conduzida, e após buscas no refúgio secreto da organização. Não conseguimos apanhar o líder da seita dos 12, um foragido de nome JC, mas foram recolhidas provas inequívocas…

Errónea – que engraçado Centurião tenho uma amiga em Lesbos que se chama Equivoca…

Decadência – ….és mesmo irrefutavelmente ignorante!

Centurião – …isso mesmo nobre Pilatos. Eu diria mais: provas irrefutáveis!

Decadência –..mas como é que um jovem tão belo e charmoso é acusado de tantos crimes?

Pilatos – Vá meninas!Aqui quem guesponde pegante a Lei é o condenado. Já agoga o que é que o condenado tem a dizeg?
[Pilatos lava as mãos na água e seca as mãos numa toalha que é segura por uma das donzelas enquanto Tadeu fala]

Tadeu – Nobre Pilatos…nada tenho a defender, pois nada cometi! Apenas me insurgi pelo facto destes brutamontes terem interrompido a nossa ceia. Não têm nenhuma prova. E definitivamente não sou membro de seita alguma. Tudo cabalas…

Errónea – ..ah cabalas, adoro com batatas cozidas e azeite! Já algum tempo que aqui no palácio não servem!

Decadência –..que tristeza Errónea. Nem para sobremesa servias.

Pilatos – Pombinhas caladas! Pois bem Centuguião. Continuo sem pecebeg a gazão da pguisão. Espego que não se engane, ou alguém vai entrar bguincag com os meus leõzinhos na aguena. Não é assim minhas doces pombinhas?

Donzelas – Sim nosso fofinho Pilatos. Os deuses aplaudem-vos lá do alto! Mesmo lá em cima na Junta Olimpica.

Pilatos – Boa então eles que venham cá paga em baixo que está na hoga da ceia! Soldado, mande vig a mim o gabi Joshua!

[Pilatos vai para a mesa lavar novamente as mãos]

Tadeu – Gabi Joshua?! Não será Rabi? Mas para quê?

Pilatos – Deste caso, lavo as minhas mãos. A toalha doce Egónea. Criados tgazei-me vinho, fgutas, doces e música. Tou cá com uma tgaça…

[entram o Rabi, e Pavlova com vinho e um pires com tremoços]

Pilatos – Ah Gabi, seja bem-vindo, sente-se e beba um copo…Pavlova enche o copo do Gabi mas cuidado para não sujagues a minha toalha! Não sei o que se passa neste Palácio as toalhas dsapaguecem todas?!

Rabi – Obrigado! Já agora pode encher um pouco mais…Divino Pilatos…por que me chamais?

Pilatos – Um assunto menog! Um ovelha tgesmalhada do teu guebanho. O Centuguião conta os pgomenores…
Centuguião chegue aqui!!

Centurião – Rabi Joshua, uma seita de 12 liderados por um perigoso profeta anda a difundir ideias contrárias à Lei romana e presunto que em infração grave à vossa religião. Há tribos vossas que ousam mesmo dizer que é blasfemo…

Rabi – E onde está esse falso profeta?!.

Tadeu – Nem falso nem meio falso! Tudo mentira!

Rabi – Espere aí a sua cara não me é estranha!?! Ah já sei! Era você que há uns tempos foi apanhado a pintar uns graffitis na parede do templo de Salomão? !Qualquer coisa Tipo…abaixo o Governo?...Romanos go home?

Errónea – …Cabala é bom mas salomão, ui! Adoro Salomão, assim grelhado com umas ervas, e sumo de limão! Também é bom fumado…com muita alface e queijo grego feta!! Foi uma amiga de Lesbos que me deu a receita…

[Todos olham para ela e fazem uma pequena pausa; Errónea encolhe os ombros e todos abanam a cabeça incluindo Tadeu]

Decadência –…tadeuzinha! É assim mas é feliz! Muitas amigas em Lesbos dá nisto…

Rabi – Nobre Pilatos tem que se julgado! Melhor! Abrevia-se a coisa. Juntam-se as testemunhas do costume e arranjam-se uns canapés, umas tendas para vender artesanato, talvez uns pastéis de bacalhau, uns rissóis ou umas alheiras…e crucifica-se! Sempre se faz algum negócio! Convinha era arranjar mais um ou dois para compor o cenário? Há por ai alguns extra?!

Pilatos – Centuguião?!

[Centurião está distraído a falar com soldado]

Centurião – Sim nobge Pilatos, perdão Senhor…
[entra JC e os amigos a correr]

JC – Sou eu. Quem procurais sou eu…e não o pobre Tadeu! Tadinho.

Decadência – …e quem é este! Estou a começar a gostar deste programa, já parece uma telenovela. Cada episódio é mais uma história. Senta-te aqui ao nosso lado jovem charmoso!

Pilatos – Guadas! Como é que este individuo se atgueve a entgague assim no meu Palácio?

JC – Bem, eu toquei à campainha! Ninguém atendeu, e como a porta estava a aberta entrei!

Pilatos – Pavlova! [grita] Centuguião pguenda este…
[entra Pavlova a correr e assusta-se ao ver JC]

 Pavlova - Sim meu amo…ai!! Ai o meu outro patrão …[ e vira as costas para não ser vista]

JC –…quo vadis mulher? Estou a ver que isto é pior do que os programas da TVI. É tudo ao molho e fé em Nele. Agora já percebi porque é que chegas sempre atrasada, porque é que a casa fica mal aspirada à sexta-feira! “Ai patrãzinho tenho que ir com a minha mãezinha”, “ai patrãzinho tenho uma tia doente”. Está despedida! E com justa causa. O subsídio de férias e Natal? e sem carta de recomendação!

Pilatos –Centuguião pguenda este infâme…melhog!Pavlova [grita] taga a minha toga e a minha cabeleiga postiça. Faz-se já o julgamento e acaba-se com o pgoblema. Que me diz Gabi?!

Rabi – Gabi? Bem Já que insiste. Mas não se arranja ai nada para comer entretanto, Senhor?

JC – Não…não trouxe merenda!

Rabi - Mas eu não lhe pedi nada!

[musica com todos em palco: https://youtu.be/GJ2X9SANsME]

[Entretanto JC em cima do palco pede aos restantes para subirem ao palco e trazerem cadeiras para assistir ao julgamento!]

[Nas cadeiras sentam-se os restantes membros do elenco. Em frente à mesa onde se vão sentar os membros do tribunal fica em pé JC e o Soldado Brutus, o Soldado Gaius fica em pé, ao lado das cadeiras, a defesa é assegurada pelo Tadeu que tem uma cadeira ao lado da mesa, o ideal é a mesa ficar na diagonal para a audiência, uma questão a testarem].

Soldado Gaius - Silêncio na sala que a audiência presidida pelo Meritíssimo Pilatos vai iniciar-se [em voz alta]!

[Se alguém tiver beca ou trajes académicos tanto melhor!]

[entram na sala o Rabi, Pilatos, as duas damas e o Centurião e sentam-se todos excepto o Centurião que vai ficar em pé]

Pilatos – [bate duas vezes com o martelo na mesa e lê do papel] Está abegto o pgocesso 2019/001 com a data de XX de XXXXX do Ano Domini 2019, o acusado é o guéu….como é que se chama mesmo?

JC – José Castro, mas os amigos trata-me por JC!

Pilatos – Pgofissão?

JC – Treinador de futebol…

Rabi - Protesto Meritíssimo, deve haver um equívoco. Não é esse o índivíduo que consta dos autos!

Pilatos – pgotesto indefeguido!

Pilatos – Pois muito bem, tal como consta nos autos o guéu é acusado ente outgos: invasão de pgropiedade pivada, incitação à desogdem pública e destruição de edifícios públicos, et cetega, et cetega…

JC – Em verdade, verdade vos digo!Sou absolutamente inocente. As acusações que me são imputadas não passam de cabalas!

Errónea- Cabalas em molho de escabeche são muito boas! A amiga minha de Lesbos tem uma receita muito boa,,,

[todos olham para Errónea e encolhem os ombros!]

Decadência – Oh mulher cala-te!…

Pilatos – Pois muito bem! Tem a palavga a Acusação.

Rabi – Acuso-o directamente de ser o líder de uma seita dos 12, acusado de atentarem contra a ordem e os ensinamentos do Livro das Leis. Mais, não tenho dúvidas que está por detrás de manifestações, distribuição de autocolantes e aventais, bem como pinturas murais em edifícios públicos, nomeadamente o sagrado templo de Salomão.

Todos [excepto Pilatos, o Rabi e o Centurião] – Uuuhhh!

Pilatos – Silêncio [bate com o martelo na mesa]. O géu tem a palavra!

JC – Ora bem portanto…em primeiro lugar aqui só somos 11! Aliás o Centurião pode atestar disso. Em segundo, a nossa campanha não anda a distribuir nem autocolantes, nem aventais. Não temos fundos para isso. Em terceiro lugar, não andamos em campanha eleitoral, a última já deu prejuízo por isso decidimos passar a organização política.

Rabi – A acusação pede a palavra a Centurião.

Pilatos – Pedido defeguido!

Tadeu – Protesto Meritíssimo! O Centurião Crassus não consta do role de testemunhas!

Pilatos – Pgotesto...acabou..aqui quem manda é o Meguitíssimo…o Meguitíssimo houve quem queg!Centuguião apgoxime-se! [Centurião fica ao lado de JC]

Rabi – O réu alega que não integra um bando de 12, mas afinal quantos estavam naquela noite! Quais os factos que sustentam a acusação?

Centurião – Meritíssimo, o réu estava naquela ceia com todos aqueles indivíduos ali sentados e mais este aqui ao lado é só fazer as contas. Expedientes dilatórios não o vão safar!

Pilatos – Muito bem Centuguião…levantam-se os senhogues ai das cadeigas! Soldado conte as testemunhas…

Soldado Brutus – Ora 1, 2, 3,4,5, 6, 7, 8,9, 10 e com esse ai à frente 11! Deve ter sido um erro crassus pois parece que falta um…

Pilatos – Po favog Soldado taga-me água e umas toalhas que estou a ficag com calog!

[o Soldado vais buscar a tijela de água e umas toalhas com Pavlova]

Todos [excepto Pilatos, o Rabi e o Centurião] – Uuuhhh!

Pilatos – Silêncio [batendo com o martelo]! Paguece que há aqui um ego de contas de megcieigo não paguece Gabi? [com ar visivelmente zangado]

Todos [excepto Pilatos, o Rabie e o Centurião] – Uuuhhh!

Pilatos – Silêncio [batendo com o martelo]!Mas então onde está o 12º?

Tadeu – Meretíssimo, peço a palavra!

Pilatos – Cala-se!

Tadeu – Porra, até aqui! Como é que eu defendo se não posso falar!

Pilatos – Você fala quando chegag a sua vez! …sed lex duga lex. Além disso a lei só pode seg exegcida se tudo tiver clago como a água!
O meu tempo não é é ad etegnum e a minha paciência não é etegna…A Acusação e a Defesa que se pgonunciem antes de eu diga a pena do guéu!

Rabi – Meritíssimo, o réu aqui presente, na modesta opinião da Acusação, e após aturada reflexão [inclina-se ligeiramente] reúne todas as condições para ser acusado do crime de blasfémia em primeiro grau. A acusação pede pena máxima!

Todos [excepto Pilatos, o Rabi e o Centurião] – Uuuhhh!

Pilatos – Silêncio! [batendo o martelo] Tem a palavra a Defesa….fale homem que está ai quase a gebentag!

Tadeu – A Defesa pede a absolvição para o réu e o pagamento de uma indemnização por danos morais e tentado ao bom nome do meu constituinte!Mais, pretende que todas as acusações sejam retiradas e que isso conste dos autos.

Pilatos [lendo do papel]- Em face do exposto e após consultag o jugui independente aqui composto pelas ilustres membgos, eu considego então o guéu culpado a uma pena máxima de cgucificação e aguesto de bens.

Todos [excepto Pilatos, o Rabi e o Centurião] – Uuuhhh!

Tem atenunante o facto de não teg sido compgovado que ptencia a quqlquer grupo de 12 elemntos, facto que invalida as guestantes acusações. Assim sendo, a pena fica suspensa pog um peguiodo de 1 ano [guenovável], sendo estabelecida a fiança para o guéu em 30 moedas de pgata. O guéu deseja fazer alguma declagação?!

JC – Sim. Aonde é que posso colocar a pastilha?!

Pilatos – O guéu que se cuide pois a paciência do tgibunal não é etegna!

Tadeu – Meritíssimo 30 moedas de prata é um roubo!

Judas – Tadeu. Calma ai que isso já se arranja! Tenho um primo meu que tem um amigo, cuja namorada é irmã de um gajo que trabalha na Caixa da vila! Por isso qualquer coisa é só telefonar que a massa aparece!

Tadeu – Meritíssimo. A defesa não tem mais nada acrescentar. Encerre-se a sessão!

Rabi – Então e eu?! E a multidão lá fora à espera de um crucuficação! Como é que eu vou explicar ?

Pilatos - Centuguião!! Guesolva a situação…

Centurião – Tragam o Barrabás [gritando]!

 [Entra Pavlova com um cartaz a dizer “FIM!” e música: https://youtu.be/r30D3SW4OVw]

[Todos em palco aplaudem]