...em boa verdade já estamos em 2023, pois neste pequeno ponto azul na vastidão do cosmos, metade dos desejos, metades dos sorrisos e alguns sentimentos de tristeza já são iluminados pelo sol. O mesmo em redor do qual que iniciámos mais uma rotação elíptica, No fundo, é apenas a espuma a do tempo que nos ilude, no meio deste percurso (quase penoso) pela magnetosfera.
31/12/2022
...365
...terra nullius
Após dois anos em que nos refugiamos
num mundo quase asséptico, em que quebramos o pacto solene de confraternizarmos
até à exaustão, juntemos uma constatação importante: se a pandemia nos tornou
reféns das redes sociais, da saudável distância (muitas vezes autoimposta
outras imposta), a guerra que agora nos bate à porta, introduz novos
condimentos: controlo, vigilância, a eliminação de opiniões contrárias à linha oficial,
e mais e mais propaganda e contrapropaganda.
Se durante a pandemia, fechamos
salas de espectáculos, silenciamos a arte e a cultura, e mais uma vez combatemos
de forma insana quem pensava de forma diferente, agora com ou sem aforismos,
nem metáforas fáceis, entramos na dimensão do inenarrável.
Quando do outro lado da “cortina
de ferro” (desenterrei este tesourinho do pós-guerra), assistimos à
diabolização do Ocidente (comparativamente à aura renascentista da cultura
eslava) e, em simultâneo no outro extremo - no Império do Meio (ao lado daquela
península onde um louco brinca com misseis balísticos) - ouvimos o troar da união dos povos
progressistas contra o maldito imperialismo ocidental, entramos gradualmente numa
retórica que inevitavelmente conduzirá a ao recrudescer da desumanidade e ao
colapso da humanidade como a imaginamos durante estas últimas décadas. Sim. Durante
as últimas décadas vivemos uma fantasia de enamorados.
E como se tudo não bastasse, para
além da fome, da guerra, do desespero de milhões que tentam atravessar
fronteiras, ainda assistimos à barbárie perpetuada por fundamentalistas
religiosos que interpretam os ditames da religião que confessam, como símios a
interpretar a teoria da evolução das espécies do Darwin. Para completar o
ramalhete de preciosidades, a proibição das mulheres de frequentar o ensino no
Afeganistão, entra num plano que não é possível postular com algum tipo de coerência
filosófica.
Assim de súbito, quase apetece
rumar em direcção a uma qualquer terra nullius e aí respirar algum tipo
de paz interior, longe, muito longe, para lá do horizonte dominado pelos antagonismos
entre os povos, dos delírios religiosos, étnicos, nacionalistas, etc.
Não há forma de entender este
admirável mundo novo, nem lendo até à última consoante, até ao último sopro de força.
30/12/2022
...variações sobre um tema
...este terá sido, um sério candidato , há já longa lista de piores anos da minha existência. É duro quando somos confrontados com a realidade. Aquela que se esconde [mal] por detrás da zona de conforto.
Eis-nos chegados à tal encruzilha, com 12 passas na mão, 365 dias pela frente, demasiadas incógnitas, um mundo de interrogações, nenhuma certeza ou direção,
25/12/2022
..noite de Natal
No dia de Natal, tenho em mente, invariavelmente, todos aqueles
que asseguram a continuidade de serviços essenciais, para que o outro [todos
nós] possa ter algum conforto e assistência. O meu Natal, está com todos
aqueles que [sobre]vivem num beco, cobertos de mantas e caixotes de papel sob
um céu carregado de chuva, no frio do piso duro que a vida lhes legou.
E em vez dos cânticos eclesiais e a alegria que se percebe,
aqui e ali, por detrás dos cortinados ornados de pequenas luzes multicolores, oiço
a tristeza escondida de todos aqueles que são companhia da solidão; velhos,
jovens, pessoas com as mais diversas fragilidades, longe do país que os viu
nascer, fugidos da guerra e de perseguições – expressões deste mundo dito moderno;
não interessa a causa das causas, o porquê. Todos aqueles que são transparentes
ao olhar da multidão que paira.
Neste Natal, ao cruzar as ruas iluminadas, no meio da
confusão frenética das compras de última hora, estou com todos aqueles que
circulam carregados com mochilas verdes, amarelas, deixando um rasto [de]cadente,
num país estranho que os acolhe a troco de alguma caridade e exclusão.
O meu Natal, está com todos aqueles que estão desempregados,
e outros tantos que vivem subjugados à incapacidade de olhar para o dia
seguinte sem sentir algum tipo de culpa e vergonha. Neste dia, estou com todos
aqueles sem expressão, imersos na escuridão dos dias, noite após noite.
O meu Natal é assim…a olhar para um mundo que não é
perfeito, diria quase injusto e profundamente desumano. E para a incapacidade
de o mudar.
17/12/2022
...a vida de Brian
Uma mera cortesia transfigurou-se numa espécie de transposição do Rubião em matéria de equidade, de solidariedade. O gesto em si tinha todos os condimentos para ser um penhor digno da época natalícia, mas aquele desvio ideológico, santificado com o mais coerente espírito ultraliberal, quebrou a harmonia do acto e arremessou o pêndulo da justiça social para os antípodas.
Xeque-mate da matemática pura sobre a beleza da epifania.
Se houvesse possibilidade de ilustrar a metáfora, imagine-se os Reis Magos entrarem pelo estábulo adentro e, perante a majestade do cenário, não oferecessem ouro, incenso e mirra, mas apenas uns cupões de desconto para que Maria e José tivessem a oportunidade de adquirir umas papas e um brinquedo para o petiz.
A providência divina, a divindade, e a humanidade ficam reservadas, para aquela criança que, por azar do destino, nasceu no mesmo dia na maternidade privada. A mãe está a acordar do efeito da epidural, e o pai está atrasado no trânsito, mas já enviou mensagem por WhatsApp para o grupo que criou.
O Natal é como a lógica financeira. Tem várias interpretações.
12/12/2022
...o sapateiro
…quando percorremos as ruas ainda adormecidas pelo sono, há um outro mundo que se revela para lá da penumbra.
Ainda existem velhos sapateiros, que cravam uma agulha no duro couro, para que alguém prolongue a vida de ambos: o artesão e o caminho que os espera.
...também eu vim de uma família de tamanqueiros e sapateiros.
11/12/2022
...estendal
…perdemos. Fomos eliminados por uma equipa que se bateu da mesma forma que também já nos orgulhamos e celebramos.
É o ciclo natural do desporto: perder, empatar e ganhar. Não adianta chorar. Mas podem. Revigora a emoção e exorciza a frustração.
O futebol não é uma luta de vida e de morte na arena perante uma plateia que exige sangue; apenas se exige emoção e entrega. Ela esteve lá, a espaços. Naquele jogo não. Paciência.
O “mata-mata” como simpaticamente o apelidam, é apenas um jogo. Este ficou no intervalo.
A seguir é a segunda-parte.
E outras mais alegrias e tristezas virão. Hoje é dia de arrumar as bandeiras e os cachecóis, manhã serão de novo estendidos.
...por favor
A corrupção mina qualquer país,
é um cancro que se espalha, na maioria das vezes, de forma silenciosa, outras
nem tanto. Por mais surpreendentemente que possa parecer, revela-se em primeiro
nas pequenas coisas, situações fugazes. Depois cresce, tal com a sensação que
nos alimenta de conseguir sempre algo a “troco de miúdos. Nos estágios iniciais,
é o “favor” o “jeitinho”, minudências e carícias de linguagem. Aliás a nossa cultura
proverbial está cheia de argumentos a favor quase sacralização da corrupção: “hoje
tu, amanhã eu,” “somos uns para os outros” ou então o sacrossanto “quem
parte e reparte, e não fica com a melhor parte ou é burro, ou não tem arte.
Quem pensar que um provérbio popular é uma blasfémia que atire a primeira pedra.
A corrupção é sempre tema de programa
eleitoral, sejam eles quem governa sejam quem grita do outro lado da barricada.
De um lado os chamados “tachos” do outro lado, meia dúzia de embalagens de plástico
com aspiração ao doce metal. Não se combate, apenas existe e prolifera. Só mesmo
quando sai nos cabeçalhos dos jornais e se torna demasiado inquietante e explícita
é que soam as campainhas de alarme. Um dia mais tarde, se chegar à barra do tribunal
(normalmente uns anos depois), talvez os prevaricadores sejam punidos ou repreendidos
(nem sempre exemplarmente é certo). Mas a sociedade tem memória curta e há por aí
muitos casos.
De acordo com o barómetro internacional
da matéria - Transparency International - em 2021, ca. 41% dos portugueses
tinham a sensação de a corrupção teria aumentado nos anteriores 6 meses. Até
podiam ser 69% que o impacte seria semelhante. Mais, 81% dos portugueses
admitiam que a corrupção dos governantes era um problema grave e 60% acreditavam que as medidas implementadas para (vamos ser simpáticos!) a mitigar, não eram
suficientes. Do outro lado da balança 58% dos portugueses tinham receio de
retaliações em caso de denúncia. Sobre este último ponto, realmente não me recordo
de ninguém que tenha recebido louvores ou créditos por ter denunciado algo.
Pelo contrário, por norma e por uma questão de segurança, as denúncias normalmente
são anónimas.
Não será necessário procurar
mais evidências nas publicações da especialidade sobre o estado da arte, pois o País - e por via dos factos, todos nós – nunca figurará bem na fotografia.
O mais estranho é que, até
temos um enquadramento legal bastante robusto. Leis que permitem válvulas de
escape, subterfúgios processuais bastante eficazes para atrasar os processos e
a complacência política para não dotar a justiça e quem a aplica, com meios
suficientes para a combater. Mas afinal porque é que nos queixamos, se até o
nosso código penal possibilita a possibilidade de os tribunais passarem a
negociar com os arguidos, não só as penas a que eles podem ser sujeitos a troco
de uma negociação – vulgo, troca de favores?
A mim não me surpreende que um
ministro seja apanhado em esquemas de corrupção, que determinados cargos de
nomeação pública sejam ocupados como troca de favores ou compadrios. O que me surpreende
é mesmo a falta de vergonha e a estranha capacidade continuarem a sorrir e
rematar que está tudo bem como se fossem damas impolutas ofendidas.
É bonito ver como a corrupção cria laços de grande fraternidade. É como uma família. E pelo que temos visto a família, essa instituição secular tem grande força por cá! Ética é que nem por isso.
iceberg
A beleza do iceberg reside na dinâmica do movimento de apenas
aquela parte infinitésimal que brilha ao sol, interactuando com a aparente
acalmia do mar cristalino. Porém, em termos metafóricos, a robustez que a massa
imprime na cadência do tempo, deriva sobretudo da grande massa submersa. Uma
espécie de inconsciente que não é directamente acessível, que se oculta para lá
das primeiras camadas que o sol consegue penetrar. A partir dai é a escuridão,
um mundo de silêncio;
Há uma dimensão para lá da luz que, sendo inteiramente revelada,
pode tornar-se demasiado avassaladora. Daí a beleza do iceberg. Por mais que admiremos, que o dia suceda à noite e que a lua ascenda ao céu, ele permanece lá,
na sua cruel dimensão.
“(…) Ecclesia catholica filiorum suorum infirmitates agnoscit et
confitetur, conscia eorum peccata totidem esse proditiones et impedimenta
perficiendo consilio Salvatoris allata.”
Ut unum sint, (Ref.3, item 3)
07/11/2022
...papéis inesperados
..se alguém encontrasse numa folha amarelecida pelo tempo presente, um conjunto de textos autoinfligidos por uma máquina de escrever, certamente iria encontrar estórias divagas sobre quiçá, o conto de um certo Paulo Raimundo que um dia acordava secretário-geral de um partido comunista (um pouco como aquele caixeiro-viajante chamado Gregor), talvez a fábula de um secretário-adjunto acusado por estar na órbita de esquemas de duvidosa legalidade (uma reencarnação do sr. Josef K.?) ou, quem sabe, algo menos distópico? suponhamos, um thriller entre um Presidente da República, uma ministra responsável pela execução de fundos europeus e, uma corda (uma atmosfera mais hitchcockiana)!
06/03/2022
inter arma silent leges
O facto de estarmos nos primeiros anos de um novo século, não determina o fim do conceito de guerra, ou como diria Karl von Clausewitz, a “continuação da política por outros meios”. A crueldade e a violência são características inatas do ser humano; um subterfúgio quando a razão não satisfaz plenamente. A anarquia e o caos são o elixir óptimo para subjugar a vontade de uma das partes em contenda.
Não me recordo ao longo da história de um império que
tenha desmoronado e por vontade de alguém tenha sido novamente erguido. E esta
não é certamente uma justum bellum e por norma os impérios não passam
disso mesmo, um pedaço de história.
“Quando se realizam grandes projetos, incorre-se na
hostilidade dos outros.”
31/12/2021
2021 Ano Pandémico II
É com alguma acidez natural e ironia, que me despeço deste 2021 [tal como em 2020, o peixe que Ordemalfabétix me impingiu tinha a consistência e a frescura de uma alface de Chernobil]. Até podia ser sádico e relembrar alguns bons momentos do ano [que os houve; com a mesma frequência com que observamos os anéis de Saturno na abóboda celeste], mas não. Foquemo-nos nas últimas horas deste pretérito imperfeito do conjuntivo, pois não há muito predicados para recordar.
26/12/2021
Natal
Não recorras ao que já sabes do Natal,
mas coloca-te à espera
daquilo que de repente em teu coração
se pode revelar
Não reduzas o Natal ao enredo dos símbolos
tornando-o um fragmento trémulo sem lugar
no concreto da vida
Não repitas apenas as frases que te sentes obrigado a dizer
como se o Natal devesse preencher um vazio
em vez de o desocultar
Não confundas os embrulhos com o dom
nem a acumulação de coisas com a possibilidade da festa:
o que recebes de graça
só gratuitamente poderás partilhar
Cuida do exterior sabendo que ele é verdadeiro
quando movido por uma alegria que vem de dentro
Uma só coisa merece ser buscada e celebrada, uma só:
o despertar de uma Presença no fundo da alma
Por isso o Natal que é teu não te pertence
Só a outro o poderás pedir.
José Tolentino Mendonça
25/09/2021
...confortos de alma
..se há coisa que me entusiasma é acordar a um certo
dia e pensar que daqui a umas horas vou utilizar a caneta para fazer umas cruzes
bem bonitas nos quadradinhos sem exceder os limites legais da geometria. Um mísero
detalhe que encerra o quão importante passo a ser a partir desse momento, para o
equilíbrio do ecossistema político. Por um voto se ganha ou perde, e o gasto em
tinta até é supérfluo; comparativamente, o estrago que a escolha pode ter, poderá ter outras incidências geométricas. Por sinal, nesta campanha [tal como tinha sucedido
com as anteriores] o nível de discussão foi tão avassalador, tão rico que estou
muito inclinado a daqui a quatro anos, propor-me como putativo candidato à Junta
de freguesia de um ilhéu nas Desertas, ou quem sabe a algo mais ousado, presidente da
Câmara do Ilhéu das Cabras. Uma boa hipótese para um futuro salto para uma aventura mais internacional (sempre fica mais perto de Washigton!).
Não é por nada, mas seria um passo decisivo para a
minha afirmação como cidadão interventivo, pró-activo e defensor acérrimo da
causa pública. As vantagens seriam mais do que evidentes para todos nós. Por um
lado, seria uma forma de descentralizar forma objectivamente específica e
factual contraindo a tese que muito se fala mas pouco se concretiza.
Por outro, seria uma forma de rentabilizar de forma
segura e transparente o investimento que costuma aparecer de forma simpática no
orçamento europeu na sub-secção territórios insulares, mas que normalmente
serve para construir hotéis ou cais de acostagem para paquetes de luxo. Ora, quer
o Ilhéu das Cabras quer o Ilhéu Deserta Grande, apesar de constituírem excelentes
portos de águas profundas, apresentam, características interessantes para a
acostagem de embarcações de grande porte que não excedam o tamanho de um bote
de borracha.
Outra das promessas que penso constar no manifesto
eleitoral que está em reanálise, será a descarbonização de toda a economia
local, pela implementação de ninhos em material reciclável para toda a avifauna
marinha e a redução da emissão de gases de escape (os botes só poderão acostar
se movidos à força de braços ou vela).
Dado que sou uma pessoa de bem, é minha intenção tornar
o território livre de armas, em especial bazucas, espingardas ou pistolas de
forminantes. Fiquemo-nos pelas atoardas deselegantes vinda de onde vierem,
sobretudo dos meus futuros opositores políticos. No máximo serão toleradas fisgas
ou arremessos de lava solidificada que por lá não faltam.
Não contem comigo para autocolantes, canetas ou
chapéus e bandeirinhas em corsos circenses sob aplausos. Contem comigo para
obra feita, nem que sejam umas rotundas ali ou acolá.
Penso que este conjunto de medidas, será mais do que suficiente
para assegurar um futuro mais risonho para colocar qualquer uma destas parcelas
do território na senda do desenvolvimento sustentado.
Mas amanhã vou mesmo votar primeiro, depois logo se
vê.
20/09/2021
…sem título
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou soterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado,
Revivo, existo, conheço;
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço:
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa
19/09/2021
..bas fond
...passada quase uma semana desde o início da campanha eleitoral confesso que não tive tempo suficiente para aprofundar com a devida subjectividade as diferentes propostas eleitorais que me têm sido presenteadas. Ainda assim, ficou-me já gravado na retina a riqueza e originalidade de um dos temas mais interessantes da campanha [desconfio que se vai prolongar até à noite eleitoral]: a bazuca. O discurso bélico e buliçoso é o máximo denominador comum de quase todos os discursos, facto que demonstra o bas fond da nata política (reflexo da sociedade?). Aliás, se retirarmos do discurso a tríade mágica: o PPR, as promessas de dinheiro fresco para quem votar no partido que está no poder e os novos investimentos que vão ser realizados, mas que curiosamente já lá constavam em anteriores campanhas, ainda assim, ficamos com um conjunto apreciável de boas ideias e iniciativas louváveis [ver detalhe de algumas delas na imagem infra]. Em suma um manancial que se extingue até ao ponto de aridez absoluta.
Nota de auto-flagelação: votar foi em tempos, um exercício
agradável, sobretudo quando o discurso e os oradores tinham o dom da palavra e
um sentido nobre da causa pública [os resultados é que nem sempre seriam os
melhores, mas isso resolvia-se no plebiscito seguinte de forma mecânica]. Nos
dias de hoje, é dramático, quase angustiante ouvir e ler determinados
candidatos, que mais não são do que a materialização do vazio, ou de formas
abstractas do ridículo. Diria que a seita dos idiotas está a propagar-se forma
quase viral - abusando da metáfora. E para isso ainda não há profilaxia, nem
vacina.
26/05/2021
...a estrada não termina
Não tenho por hábito escrever homenagens ou tributos a alguém,
mas a Rosinha não era “alguém”. Hoje deixou-nos aquele sorriso encantador. Para
quem como eu que comungou pequenos momentos com ela, há uma vontade enorme de
relembrar sempre cada minuto, como se fossem horas. A última vez que partilhamos
a mesma mesa de conversas foi no jardim da sua casa no verão do ano passado.
Depois disso fomos trocando mensagens já com ela hospitalizada e, ultimamente
já em casa.
Tinha perfeita noção do seu real estado de saúde, desde o primeiro
diagnóstico. Movido pela força dela (única e inexplicável), inconscientemente acreditei num milagre; erro comum para quem sem a lucidez que se exige, sempre manifestou alguma relutância em entender a morte como uma transformação da própria vida
física, em algo mais profundo.
A Rosinha era um poço de vida. Provavelmente a pessoa com maior compaixão
pelo próximo que conheci até hoje. Uma mãe e esposa que semeou amor e carinho. De
entre os traços de carácter que a engrandeciam, a grandeza cívica e humana. Não
é preciso fechar os olhos para interiorizar a dimensão do legado que deixa. Era
como sempre, inteira nos afectos, corajosa da defesa das suas convicções,integra e
cativante. Sempre.
E para sempre, o vazio que agora nos acerca e a saudade que nos desafia será preenchido com a memória e aquele sorriso que nos abraçava a alma.
Marta a tua mãe vive em ti.
Um grande Abraço Filipe.
17/05/2021
...nenhum
um pais sem cultura nem sequer é lugar, é lugar nenhum onde a lei da ignorância impera e governa. A iliteracia é o triunfo brutal dos fracos, desses para quem a cultura é vista como um capricho de uma pequena franja de intelectuais líricos que vivem a vida como um ilídio wagneriano.
Uma civilização é tanto mais retrógrada, quanto mais se submete à fatalidade de o ser humano não ousar sonhar, ser criativo e crítico. Isto é o o que nos distingue dos sonâmbulos que advogam o paraíso futuro, silencioso, monótono e autómato.
O multiculturalismo, a
interculturalidade são territórios férteis para a produção artística, pois
absorvem o que de melhor cada povo tem para oferecer. Este patchwork de
pensamentos e conhecimento sempre acompanhou a renascimento do Homem. Quem opta
por formatos pré-estabelecidos e se submete à massificação cristaliza no território
do autoritarismo cultural, e vive o vazio intesticial. A cultura é o encontro entre-espaços, entre-tempos, o barro que nos molda, o fio condutor, a pauta que nos faz sonhar, a palavra que nos faz ser.
16/05/2021
...os invisíveis
…numa altura em que as baterias do discurso político direccionam-se ora para a retórica militar [bazuca] ora para a escatológica performance de alguns ministérios, aqui do alto desta torre de cristal, seguro da justeza da argumentação e a salvo de raides de haters, diria que o clima é mais de descendente do que propriamente de um ciclo de expansão.
Não é necessário percorrer algumas das
brilhantes performances dos senhores do capital – nobres honrados cavaleiros
feudais, reputados na arte do esquecimento e exímios mestres na arrogância - que
por estes dias glorificam o papel dos ilustres deputados da Nação, nas audições
parlamentares sobre a gestão do Novo Banco. É um aconchego para esta alma,
imaginar que os favores dos amigos – agora meros conhecidos ou nem isso,
serviram para criar uma teia de ilusões tão densa que nem na noite mais obscura,
seria possível a mais incauta borboleta da traça evitar ser surpreendida. É confortável
verificar a agora aquilo que muitos camaradas alertavam para os perigos do
capital, não eram um salto de pó de um disco riscado, mas antes a mais pálida
das verdades.
(foto do mestre Sebastião Salgado)
Fomos construindo um País assente em
bases tão sólidas e tão nobres, que agora servem como stand-up comedy
para donas de casa de final de tarde na televisão do parlamento. Mais, tão determinados
e voluntariosos, os nossos apóstolos da economia de mercado, ainda se deram ao
trabalho de criar paraísos e fundações com fins filantrópicos, para aliviar a voracidade
da Autoridade Fiscal, a bem da nobreza e uns e criando empregos para uma
imensidão de gente que a esta hora devia estar de joelhos agradecida por tamanha
demonstração de caridade.
Tenhamos fé neles e em todos aqueles que
se ajoelham a apanhar frutos e hortícolas a troco de um quarto compartilhado com
mais uma dúzia e pouco mais de 3 m2 de liberdade neste paraíso de
tendas de plástico. O consumidor no hipermercado agradece o desconto
proporcionado e o Estado assobia ao som de uma qualquer moda alentejana. O problema,
é que estes invisíveis [revisitando as personagens do escritor Ondjaki] há-os
por todo o lado. Mas como sempre, ninguém se apercebe ou realmente incomoda.
Desde que não vivam relativamente perto da sua zona de conforto.
Pergunto-me se não seria preferível enfiar qualquer loquaz vedeta do canal parlamento em contentores e dar alguma dignidade a quem fugiu da miséria e a da iniquidade?
01/02/2021
à escuta
“Ponho o
ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro.”
E não tardam
as dispersas primaveras,
uma atrás da outra.
Passa no mundo a estranha
ventania.
(...)
Por trás da imobilidade, horas
verdes
caem de espaço a espaço
— gotas de água no fundo de um
subterrâneo.
E em volta um círculo de
montanhas atentas.
No alto da noite côncava e
branca,
uma camélia gelada. E metem as
árvores
para o interior
a tinta e os ramos.
Absorção
dolorosa, diamante polido,
vegetação
criptogâmica.
— O tempo.
E o céu. Basta-nos o nome para
lidar
com ele.
O céu.
Uma nódoa que se entranha
noutra nódoa.
— A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no
silêncio.
Ponho o ouvido à escuta de
encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo
sem tremer; sinto-me
balouçado num sonho imenso,
ando
nas pontas dos pés.
E estou só e a noite.
Há palavras que requerem uma
pausa e silêncio.
Herberto
Helder













