03/01/2026

à bon entendeur...

 Declaração de intenção: Não nutro qualquer simpatia por ditadores, sejam eles de direita, esquerda, acima ou abaixo; abro uma excepção  para aquele que o Sacha Baron Cohen interpreta ou todos aqueles o nosso Herman José no seu período áureo, tão bem soube desconstruir. Na mesma medida estou crente que o Presidente que os americanos elegeram é uma versão fofa de ditador.

A propósito da Venezuela e do Nicolas Maduro-  país que não devoto sequer um minuto da minha atenção diária – tão pouco sinto qualquer pena desse indivíduo (tenho mais pena de todos os porcos que ao longo dos anos ficaram sem o seu respectivo pernil para alimentarem a entourage que o rodeia!). Sobre o país e a corja que o governa com o selo de impunidade e bênção de algumas democracias conhecidas, as Nações Unidas publicaram recentemente um relatório que descreve mais de uma década de assassinatos, torturas, violência sexual e detenções arbitrárias contra opositores políticos. Falsificou descaradamente as eleições presidenciais de 2024 e fomentou a instabilidade económica e política na região, provocando um êxodo milhões de migrantes. Em Caracas e todos os lugares da Venezuela, ca. 8 milhões de famílias dependem de uma caixa (CLAP; acrónimo de Comités Locais de Abastecimento e Produção) para sobreviver à fome e miséria. Uma esmola transformada em arma de persuasão que cativa uma parte significativa dos 28 M de habitantes, num país governado por narcotraficantes e corruptos. A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do Mundo, logo seguido pela Arábia Saudita, mas 77% da população vive em pobreza extrema (rendimento de 1 USD/dia). Tudo isto explica o ódio que qualquer ser humano pode devotar a um ditador deste calibre. Não obstante há alguns entendidos que por cá  defendem este tipo de “DEMOcracia” bolivariana com determinação. Hoje de madrugada, enquanto nas ruas de Caracas se dormia com memória do foguetório do início de ano, as forças armadas dos USA efectuaram uma operação cirúrgica para derrubar Nicolas Maduro e a esposa (estão a caminho de NY para recebem as acusações  já devidamente preparadas perante a US Attorney General  Pam Bondi; sim a mesma dos ficheiros Epstein que existem, mas não existem).




Não que este tipo de acções seja novo, mas a julgar pelo longo historial: Guatemala (1954), Venezuela (1958), Cuba (1961), Brasil (1964), Chile (1973), Somália (1993), Bolívia (2019), Líbia (2011), Iraque (2014), Afeganistão (2021)-  é de querer que seja mais uma vitória de Pirro e mais uma nota a assombrar os falhanços da política americana no séc. XXI.

O actual presidente vai ter de surpreender o Congresso e os partidários do MAGA que ainda o apoiam, com uma justificação suficientemente robusta (à prova de bala) à luz da Constituição americana e, sobretudo, tendo presente as premissas da Carta das Nações Unidas. Provavelmente na conferência que vai promover na estância onde toam aspirinas para fugir ao tédio do lugar que ocupa, vai remeter toda a acção para a recém-publicada Estratégia Nacional de Segurança, mas isso poderá ser visto como uma infantilidade, com a credibilidade de uma stand-up comedy.   

Em traços largos, o bobo da corte - a  Venezuela-  tornou-se o primeiro alvo da nova Doutrina Monroe, uma espécie de imperialismo americano. Esta nova forma de abordagem, para além de ilegal é perigosa e devia servir de farol, sino, alarme para a Europa. Com este pequeno gesto civilizacional de imensa bondade, a América cauciona a ilegitimidade da invasão da Ucrânia pelo seu amigo Putin, e corre o risco de dar justificação à invasão de Taiwan pela China, e quem sabe a anexação da Gronelândia tão cobiçada.

à bon entendeur...a Caixa de Pandora acaba de ser aberta!

31/12/2025

...run to the hills

 



Portugal em 2025 foi, como sempre, um país à procura de governo e de sentido de orientação. Alias, o discurso de Natal no nosso Primeiro de Tudo confirma a paródia que é viver num país rendido a assuntos pungentes e irremediavelmente risíveis: todos temos que ter uma mentalidade de Cristiano Ronaldo: fazer publicidade a uma ditadura islâmica sanguinária onde a religião determina tudo, adquirir um loft no skyscraper da cidade de Lisboa e folheá-lo com alumínio e vidro de museu, ou talvez adquirir um janto novo para suportar as longas filas do IC19. 

O nosso Governo começou o ano a fingir que governava. Não governava, claro. Governava uma ilusão, sustentada por discursos sobre “iniciativa” e “responsabilidade”, enquanto a realidade se resumiu durante meses, a páginas de jornal e folhetins diários de comentadores desportivos a discutir o sexo dos anjos e uma empresa que facilitava negócios com nome kitsch - Spinumviva. A poucos dias do término do ano ficamos a saber que a averiguação preventiva (continua ausente do Código do Processo Penal, mas dá muito jeito sobretudo em momentos chave do enredo desta telenovela diária em que participamos.

Mas voltando atrás na fita do tempo, temos de dar hosanas pelo facto de as eleições em maio nos terem ofertado os ingredientes habituais para um bom cozido à portuguesa: um parlamento dividido, sem maioria, sem rumo, onde se grita muito, finge mais ainda e alguns grunhos vociferam estupidez e burrice sem fim. A AD ganhou, não ganhando, o PS perdeu, mas não tanto como merecia, dada a iniquidade e falta de visão do líder até então (alguém sabe em que sótão do Parlamento se esconde?). A esquerda essa, passou a ombrear com o bafio, e os cotões que se acumulam nos Passos Perdidos. 

Depois há um conjunto de seres (não é possível classificar como gente), que ombreia com os vendedores de atoalhados das feiras ou as peixeiras da lota de Matosinhos, e que apesar de se autointitularem gente de bem, albergam uma minoria (as tais que devem respeitar a lei) de indigentes, alguns deles com parafilias e desvios de comportamento só comparáveis a bullys. Infelizmente, o nosso Parlamento, outrora a casa-mãe da política portuguesa que viu discursar gente insigne, está transformado num circo de rua e muitos (cada vez mais), do lado de fora aplaudem entusiasticamente o descalabro de um sonho que começou em Abril.   

Portugal em 2025 não mudou. Nunca muda. É um país que vive de ilusões, governado por gente que finge governar, observado por cidadãos que fingem acreditar. Uma tragicomédia sem fim, com actores medíocres e um público resignado. Interpreto este fracasso colectivo como uma total e absoluta falta de carácter da sociedade. Talvez uma chaise-longue em veludo carmim para cada português fosse a melhor medida a implementar a partir de 1 de Janeiro. Sim porque num País com 11 candidatos numa primeira volta de uma eleição presidencial, onde os boletins de voto terão 14 nomes, e que numa segunda volta, devido a burrocracias e contingências várias Estado, não há tempo para imprimar apenas os boletins com os dois candidatos mais votados, é caso para dizer que já só falta a política ser exercida como um livro de auto-ajuda, num país em que os casos clínicos bem podem esperar 19 horas no hospital Amadora-Sintra.

Depois não é de admirar que haja um candidato presidencial aceite no Tribunal Constitucional, prometendo vinho tinto nas torneiras e uma prostituta em cada casa portuguesa. A tal cereja no topo do bolo.

Sobre aquilo que é necessário para tornar Portugal um pais menos cinzento e tristemente iludido pela turba de inúteis que proliferam como cogumelos, alguém desligue a luz antes de sair, já que para entrar são necessárias 3 horas no controlo de fronteiras do antigo aeroporto de Lisboa.  

Assim, suspiro ofegante pelo Novo Ano 2026, e desejo que se mantenham nos eixos de uma bitola ibérica, rumo a esse túnel escuro chamado de incerteza.

Volto já

…paz selvagem



 «Não a paz de um cessar-fogo,

nem a visão do lobo e do cordeiro,

mas antes

como quando no coração a excitação termina

e apenas se pode falar de um grande cansaço.

[...]

Venha de repente,

como as flores selvagens,

porque o campo

precisa dela: paz selvagem».


Yehuda Amichai

21/12/2025

...Lucas 10 (capítulo final )

 O texto seguinte não é aconselhado a Pessoas de Bem ou gente que por influência ou efeito de manada, preferiram silenciar as convicções políticas até aqui defendias e resolveram sair do armário da vergonha onde nunca se sentiram confortáveis.

É um ponto assente que as atitudes face à imigração podem influenciar políticas concretas e que a ausência de dados mais finos  limita sobremaneira, a capacidade de desenhar políticas equilibradas. É unânime que existem fragilidades que vêm à tona, logo de seguida: mecanismos explicativos pouco claros; a distância entre preferências dos eleitores e as posições dos decisores políticos, e a necessidade de investigar melhor como as atitudes e os anseios se traduzem em legislação e reformas (?) políticas. A bibliografia mais recente sobre a temática dos tais fluxos (invasão) migraratórios diz-nos que:

  • As mulheres, em média, veem imigrantes de fora da UE de forma mais humanitária e associada a valores de solidariedade e direitos humanos, enquanto tendem a encarar imigrantes da EU, sobretudo como concorrência económica, o que as torna mais negativas em relação à livre circulação interna (i.e., Espaço Schengen).
  • As atitudes face à imigração não são neutras: podem influenciar a forma como a UE regula o asilo, a mobilidade laboral e o próprio processo de alargamento, sobretudo aos países mais a leste.
  • A limitações de dados (falta de informação sobre motivos da migração ou país de origem) devia ser complementada com uma investigação mais apurada e melhores mecanismos de controlo, dada uma aparente disrupção que cresce existe entre percepção da opinião pública face à avalanche de informação/desinformação e as políticas adoptadas.

As correntes de esquerda na Europa, com um forte pendor humanista,  têm defendido a solidariedade internacional, a proteção de refugiados, os direitos laborais dos migrantes e a visão da imigração como parte da luta por direitos sociais universais. Quando, tal como sucede em Portugal,  quando a esquerda cede ao enquadramento da extrema‑direita e a normalização imposta por alguns partidos liberais de centro-direita, e que desavergonhadamente,   aceitam a imigração como um “problema” (“ameaça” seria uma afronta à própria matriz fundadora) antes de mais económico e cultural, a racionalidade  abdica do seu próprio terreno ideológico: o da igualdade, da liberdade de circulação e da cidadania social inclusiva.



Este desvio tem dois efeitos perigosos, que já ocorreram ao longo do séc. XX e que conduziram a dois conflitos mundiais (prova provada que a água por vezes passa mais do que uma vez!):

  • Normaliza as categorias e os fantasmas  da extrema‑direita, tornando aceitável falar de “invasão”, “ameaça à identidade” ou “imigrantes bons vs maus”, o que desumaniza pessoas e legitima políticas mais duras.
  • Enfraquece e em última análise, auto-destrói a capacidade dos partidos liberais se diferenciarem das teses ignóbeis da extrema-direita: se o eleitorado vê pouco contraste entre o discurso humanista e supostamente cristão da direita radical, tende a optar pelo “original” (extrema‑direita) e não pela “cópia”.

Isto não é uma hipótese académica nem um teorema, é uma constatação e sucedeu, com a ascensão da ideologia fascista na europa no decurso do séc. XX. O que assistimos actualmente, é tão somente o renascer desse monstro, mas agora numa versão mais fofa e modernizada. Amén à realidade alternativa e à pós-verdade.

Não vou elencar os benefícios da emigração (a História de Portugal é um corolário de migração) no contexto sócio -económico actual mas vu só referir en passant três situações que ilustram de forma clarividente os falsos benefícios dessa nova moda trendy que a extrema-direita conseguiu inocular na sociedade ocidental: alguém me explique os benefícios do Brexit,  da dureza retórica dos governos de direita em Itália. A Hungria ainda é uma democracia ?

Provavelmente a culpa é deles: os emigrantes.

Lucas 10

 

A Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10), apresenta um Samaritano - para quem faltou à catequese, era uma nação  desprezados étnica e religiosamente, aliás eram considerados pelos restantes povos judaicos como impuros – como aquele que interrompe o seu caminho, se aproxima da vítima, trata as feridas, paga a estalagem e assume custos futuros, enquanto as ditas  “Pessoas de Bem” [utilizando um tema em voga por alguns energúmenos]  passavam ao lado, sem se preocupar. Penso que todos aqueles que, tal como eu atingiram os mínimos olímpicos da catequese (doutrina, lá para as altas montanhas do Norte), o ensinamento central que se retira desta Parábola é que o próximo não é apenas o membro do próprio grupo, mas qualquer pessoa em necessidade, incluindo o estranhos ou estrangeiros [vamos alterar o nome e chamar-lhes agora “emigrantes”; do outro lado do Atlântico são aliens, dai que suponho serem algo como seres esverdeados, luminosos e bastante perigosos, acabados de sair de uma nave ou teletransportados de outra galáxia mesmo aqui ao lado?].

Fazendo a ponte com a parábola, a pergunta que se impõe é “quem é o meu próximo?”, no entanto Jesus Cristo amplia o debate referindo que o importante não seria limitar quem conta como próximo, mas tornar‑se próximo de quem sofre, independentemente da origem. Por esta altura já muitas almas sedentas de um bom progrom ou duma épica kristallnacht contra os infiéis deve estar a revirar os olhos e tentar um argumentário para descalcificar a minha dedução lógica. Efectivamente o discurso anti‑imigração dominante na direita europeia faz precisamente o inverso: redefine o estrangeiro como ameaça, concorrente ou “invasor” [daí talvez o alien?], e legitima virar a cara ao sofrimento de refugiados e migrantes, venham, eles de que parte for, mas com mais fervor nacionalista se forem não europeus.

O Samaritano ultrapassa as fronteiras étnicas, religiosas e políticas para agir com misericórdia, palavra que  a cultura de cancelamento ultraconservadora evaporou do dicionário político. Digo isto da mesma forma que critico duramente grande parte da surreal cultura woke de esquerda que infectou a sociedade europeia! Continuando o raciocínio, muitas propostas política de encerramento das fronteiras, criminalização de pedidos de asilo, externalização de controlos e recusa de desembarque de pessoas resgatadas, p.ex., no Mediterrâneo,  institucionalizam o contrário: distanciamento, seletividade e indiferença perante a vulnerabilidade. Ainda relativamente à políticas migratórias, tenho que efectuar desde já uma manifestação de interesse: sou absolutamente a favor de um controlo rigoroso sobre quem entra e quem sai. Sou ainda a favor da expulsão de quem se encontra ilegal, excepto em situações em que decorram processo de legalização. Sou ainda a favor do reagrupamento familiar. Nada disto colide com a lógica cristã, e por favor não me venham pedir satisfações teologicas sobre a Fuga para o Egipto (Mateus 2), pois não há registo que tenham sido expulsos pelos serviços de fronteira do praefectus Aegypti Gaius Turranius.

Em suma, a parábola em causa direcciona-nos  para uma ética da responsabilidade concreta – ver, compadecer, cuidar, etc. – em oposição, boa parte do discurso anti‑imigração procura despersonalizar, ostracizar, desumanizar.

Para os incautos e alguns ditos doutores da razão e moral cristão, por favor, leia bem “O Catecismo da Igreja Católica”. Assim muito rapidamente, a doutrina social articula dois princípios: o direito de as pessoas procurarem condições de vida dignas, incluindo migrar e o direito e dever dos Estados regularem os fluxos em vista do bem comum, sem negar a dignidade e os direitos fundamentais do migrante.

Não se trata apenas de filantropia, mas de um dever moral muito bem enraizado nos Evangelhos.

Mais, a doutrina cristã também reconhece que os Estados podem estabelecer limites prudenciais, mas rejeita políticas que desumanizam, exploram ou deixam sós quem foge da guerra, das perseguições ou da miséria extrema. Eu diria que à luz destes ensinamentos, qualquer discurso que apresenta migrantes como ameaça, legitima a sua rejeição sistemática , mas sobretudo  normaliza a indiferença diante do seu sofrimento. É preciso invocar que não colhe qualquer  acolhimento coerente na ética cristã? Lá está, o problema, ou melhor a solução  é que o buraco da agulha, não pode ser uma avenida ao estilo da arquitetura soviética (extensa e brutalmente larga), mas apenas uma porta que recebe e acolhe quem chega, de forma digna e justa. Caos contrário, serão 70x7 aqueles que gritam hossanas pela desordem e a insegurança.

Para aqueles que temem a islamização do nosso País europa, um recado: caros cruzados,  não temam. A ética islâmica sublinha que,  dar refúgio a quem foge de perseguição ou injustiça é um dever da comunidade muçulmana; a proteção deve ser concedida mesmo a não crentes, sem discriminação de religião, etnia ou nacionalidade. Aliás, o Alcorão louva os habitantes de Medina por amarem “aqueles que emigraram para junto deles”, preferindo os refugiados a si próprios mesmo estando em pobreza, e apresenta a fraternidade, a compaixão e a hospitalidade como exigências éticas para com o estrangeiro. Em parte, são doutrinas com uma visão paralela, ou quase, ainda que em patamares distintos.

O estrangeiro não pode ser uma ameaça abstrata, não devíamos generalizar a suspeita, com toda honestidade teológica pois esses nunca foram fundadores da Europa. Outrora, fomos e ainda somos estrangeiros noutras geografias.

24/04/2025

…no ano em que o cuco não cantou




 …é um lugar comum dizer-se há uma estrela que à noite vai brilhar mais no céu. Não é o caso. Todas elas têm o mesmo encanto, independentemente da luz que anunciam. Alguns até são planetas, e apenas refletem. Esta noite serão exactamente as mesmas estrelas d’ontem, mas diferente a maneira de as contemplar. Mas o que me traz por aqui não é uma reflexão sobre astronomia, mas sobre a marcha do tempo. Amanhã prossegue o trabalho artesanal desta Primavera que floresce. O

mesmo chilrear do estorninho, a mesma azáfama na capoeira, a erva que não para de verdejar, o ruído suave das motas que  circulam, o lento anunciar d’ horas do sino, e por ai adiante. Não obstante, as ovelhas não vão sair da corte, pois a pastora não vai estar. Ainda assim, as tulipas continuam a crescer, tal como os lírios no campo, e as nuvens ornar o azul do manto sobre o vale verdejante. E passado este clamor de cores e sons mais ou menos melodiosos, o melro há-de cantar, assim como o cartaxo ou o pintassilgo; quando o estio estiver no auge, lá andarão as ovelhas felizes no prado de lima, enquanto mais acima, a pastora as há-de guardar. O relógio na torre continuará a cantar as horas e já quando os dias começarem a minguar, o pintor irá por certo anunciar a boa vindima e no campo, a espiga será pão p’ra todo o ano.  Segue-se a desfolhada e a vindima, e num lapso de tempo, as chuvas que o outono nos trás, convite p’ro serão do crepitar as castanhas no lume de caruma. Quentes e boas, fruto do souto, que dá nome à terra que a viu crescer. É altura do vinho novo e uns tempos depois, o Advento, e com ele o frio e o vento  que nos aquece a alma desnuda a folhagem do ramos. O vale ganha agora tons terra, e os dias dos menos do que o sono das horas. Quando damos por ela,  é Ano Novo, e por entre o foguetório e a lembrança do ano que passou, a pastorinha continuará a andar por cá, bem cá dentro. Vem o Janeiro, o Março em voo de andorinha e de novo a Páscoa do Senhor . Os dias prosseguem, e há medida que as estórias forem aflorando na memória, a pastorinha continua sempre por perto, mesmo cá dentro. E quantas estórias não hão-faltar, tantas ou mais que as memórias. Mais do que estrelas nesse céu que todos os dia nos enche de uma escuridão bonita. Por isso, e por uma imensidão de motivos, não será esta a noite que a tal estrela irá brilhar. É muito mais do que um mero cintilar, são todos os momentos que foram

e continuam por cá, bem dentro. 

É tudo isto no ano em que o cuco não cantou….


05/01/2025

…da inútil precaução das primeiras horas

 Não sei se já se ocuparam em desvendar o enigma do calendário de 1969, mas é em todo invulgarmente semelhante ao novo ano que agora anda por deambula. Pode-se afirmar que será inútil ir a correr comprar uma agenda de 2025, se podemos recuperar aquela agenda amarelecidade no sotão das recordações perdidas. 69, esse singular ano, cujo Maio que floresceu em 68 no Quartier Latin, chega a Portugal com um ténue aroma a liberdade  ianda poética que contrastava com uma dita primavera marcelista -  um prado de flores, um jardim sem cor).

Talvez seja isso mesmo que nos falta para sermos felizes, uma espécie de primavera que se propague , como um vírus, sem necessidade de máscaras, isolamentos, muros intransponíveis que nos cerquem a mente e nos toldem os sentimentos. Uma primavera em que todas as cores são únicas e nunhuma se destaque, amarela, rosa, branca, negra, azul, castanha. Um jardim bemformoso.

Porventura, o que nos falta para começarmos a ser felizes, é tentar ocupar as horas destes dias que por agora crescem, como vagabundos à procura de novas estórias, sentado à porta de uma livraria, rebuscando páginas de livros à procura desta ou daquela frase épica. E se conseguíssemos erigir cidades de parágrafos, multidões de páginas, de modo a preencher esses jardins mitológico que sonhamos para a Babilónia?

Talvez kronos nos fantasiasse um novo tempo que nos deixasse absortos e contemplativos, perante o silêncio e a imensidão bela, dessa palavra elementar chamada paz.

É desta forma que sentados à sombra duma árvore chamada esperança, ainda interrogativos, vemos passar estas  horas iniciais ,com uma inútil precaução que este novo tempo seja bem melhor do que a montanha-russa de desespero que foi o antigo testamento que os antigos nos deixaram em herança.

 Sonhar por um mundo melhor, será como passar além do Rubicão?