Declaração de intenção: Não nutro qualquer simpatia por ditadores, sejam eles de direita, esquerda, acima ou abaixo; abro uma excepção para aquele que o Sacha Baron Cohen interpreta ou todos aqueles o nosso Herman José no seu período áureo, tão bem soube desconstruir. Na mesma medida estou crente que o Presidente que os americanos elegeram é uma versão fofa de ditador.
A propósito da Venezuela e do Nicolas Maduro- país que não devoto
sequer um minuto da minha atenção diária – tão pouco sinto qualquer pena desse
indivíduo (tenho mais pena de todos os porcos que ao longo dos anos ficaram sem
o seu respectivo pernil para alimentarem a entourage que o rodeia!). Sobre o país
e a corja que o governa com o selo de impunidade e bênção de algumas democracias
conhecidas, as Nações Unidas publicaram recentemente um relatório que descreve
mais de uma década de assassinatos, torturas, violência sexual e detenções
arbitrárias contra opositores políticos. Falsificou descaradamente as eleições
presidenciais de 2024 e fomentou a instabilidade económica e política na
região, provocando um êxodo milhões de migrantes. Em Caracas e todos os lugares
da Venezuela, ca. 8 milhões de famílias dependem de uma caixa (CLAP; acrónimo
de Comités Locais de Abastecimento e Produção) para sobreviver à fome e miséria.
Uma esmola transformada em arma de persuasão que cativa uma parte significativa
dos 28 M de habitantes, num país governado por narcotraficantes e corruptos. A
Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do Mundo, logo seguido
pela Arábia Saudita, mas 77% da população vive em pobreza extrema (rendimento
de 1 USD/dia). Tudo isto explica o ódio que qualquer ser humano pode devotar a
um ditador deste calibre. Não obstante há alguns entendidos que por cá defendem este tipo de “DEMOcracia” bolivariana
com determinação. Hoje de madrugada, enquanto nas ruas de Caracas se dormia com
memória do foguetório do início de ano, as forças armadas dos USA efectuaram
uma operação cirúrgica para derrubar Nicolas Maduro e a esposa (estão a caminho
de NY para recebem as acusações já
devidamente preparadas perante a US Attorney General Pam Bondi;
sim a mesma dos ficheiros Epstein que existem, mas não existem).
Não que este tipo de acções seja
novo, mas a julgar pelo longo historial: Guatemala (1954), Venezuela (1958), Cuba
(1961), Brasil (1964), Chile (1973), Somália (1993), Bolívia (2019), Líbia
(2011), Iraque (2014), Afeganistão (2021)-
é de querer que seja mais uma vitória de Pirro e mais uma nota a assombrar
os falhanços da política americana no séc. XXI.
O actual presidente vai ter de surpreender
o Congresso e os partidários do MAGA que ainda o apoiam, com uma justificação suficientemente
robusta (à prova de bala) à luz da Constituição americana e, sobretudo, tendo
presente as premissas da Carta das Nações Unidas. Provavelmente na conferência
que vai promover na estância onde toam aspirinas para fugir ao tédio do lugar
que ocupa, vai remeter toda a acção para a recém-publicada Estratégia Nacional
de Segurança, mas isso poderá ser visto como uma infantilidade, com a
credibilidade de uma stand-up comedy.
Em traços largos, o bobo da corte
- a Venezuela- tornou-se o primeiro alvo da nova Doutrina
Monroe, uma espécie de imperialismo americano. Esta nova forma de abordagem,
para além de ilegal é perigosa e devia servir de farol, sino, alarme para a
Europa. Com este pequeno gesto civilizacional de imensa bondade, a América
cauciona a ilegitimidade da invasão da Ucrânia pelo seu amigo Putin, e corre o
risco de dar justificação à invasão de Taiwan pela China, e quem sabe a
anexação da Gronelândia tão cobiçada.
à bon entendeur...a Caixa de
Pandora acaba de ser aberta!
