08/11/2017

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

Ondjaki

17/06/2017

...praia fora

..cai a noite,
é no escuro que vemos melhor.
sonhos.
um dia gostava de ouvir o som dos seus sonhos.
o som do vento que se mistura  com cabelos que ondula  pela praia,
as as palavras que o olhar esconde por detrás daqueles olhos amendoados.
sentir a areia que pisa,
o ar que respira quando a maresia toca a doce pele morena,
caminha só praia fora.
cada pegada é um pensamento,
a cada pensamento um vazio que descreve,
nasce o sol, abro os olhos
e tudo desvanece,
dela nada,
apenas apenas espuma do mar,
e o som do vento.


26/02/2017

...um mundo aparte



O mundo de Athos era um vazio de luz. O mundo de Isa era dominado por um tonalidade áurea onde não havia lugar a sombras nem penumbras.

O sonho de Athos era sentir o calor das cores, e o perfume da luz. Athos não compreendia a razão pode detrás das palavras.O sonho de Isa era sentir a paixão da noite e melancolia do silêncio. 

Athos  sentia a dimensão da penumbra e sabia distinguir o vulto das sombras, como se fossem o prenúncio do dia e da noite. Isa era cega mas lia nas palavras o mundo de luz que a rodeava.

Viviam em mundos separados, mas havia alturas em que ambos quase se tocavam: de manhã e ao anoitecer.
Foi assim que se conheceram, e por isso se afastaram.



Na luz que Isa transportava no seu sorriso, faltava a penumbra que guiava Athos. À melancolia que Isa sonhava, respondia Athos com gestos que Isa não compreendia.Nunca se tocaram, nunca se viram, apenas gestos, palavras e mais tarde um silêncio que se perpetua.

Ele ficou cego pois guiou-se pela ilusão de compreender as cores, sem as sentir sem as tocar; ela abriu os olhos e teve a percepção que o significado das palavras não eram suficientes para compreender o que o seu olhar não captava. Viu o dia e perdeu a noite. Ele via luz, mas afundou-se na penumbra.

Talvez a história tivesse outro destino, senão existisse apenas aquela manhã ou o anoitecer. Um dia provavelmente haverá algo que falhou: tempo.

...discurso passivo

....se o poeta é um pastor de fingimentos, o escritor um contabilista de palavras, eu serei apenas um guardador de silêncios.

Os meus silêncios não serão freses, e os meus pensamentos não serão poesia. Rodam por aqui, e surgem quando tomam o forma de tinta invisível


06/11/2016

...CGD

Eça de Queiroz escreveu um dia que os políticos e as fraldas deviam ser trocados de tempos a tempos pelo mesmo motivo. Eu acrescentaria que alguns deputados da nossa Assembleia também deveriam ser sujeitos a um processo de esterilização bocal, dada a alarvidade de algumas declarações nesta semana de discussão do OE2017.
Vem isto a propósito da degradação que se vem observando, quer pelas notícias de falsas licenciaturas, quer pela lavagem de roupa suja que alguns ex-governantes se dão ao trabalho de branquear ao sol. Já nem vou entrar nos meandros da birra dos administradores da CGD que pasme-se, julgam-se damas cuja virtude e castidade não pode de forma alguma ser colocada em causa.

Os recentes relatos de pseudo canudos são o espelho da descaracterização da função pública. A gestão da "coisa do povo", essa a que nos habituamos a chamar república transfigurada em jogo de cabra cega, em que as lideranças partidárias e as ignóbeis jotas se divertem numa dança de cadeiras. Talvez isto explique como de facto tudo o que é público, seja hoje sinónimo de descrédito e desrespeito; a começar nos gabinetes ministeriais, continuando a propagação do vírus pelos gabinetes das autarquias e acabando nos lugares de administração das empresas ditas públicas. Vícios privados, públicas virtudes.

Por simpatia, gostava de imaginar que a escolha dos lugares nos cargos de maior responsabilidade política devia obedecer a critérios tão estanques como a competência e a seriedade. Obviamente andamos todos iludidos, pois outros valores se sobrepõem, a começar pela cor partidária e ou mais importante do que isso a prepotência e o favorecimento (a famosa “cunha”). Aos visados por este parágrafo, aconselho vivamente o mesmo remédio que sugeri ao sr. Relvas.


No caso da CGD, gostava que alguém tivesse a humanidade de colocar estes senhores que algum idiota (este sim caro deputado João Almeida) decidiu nomear, no devido lugar. Até podem ser os melhores gestores bancários; uma lufada de ar fresco depois de anos de governamentalização da administração da CGD, mas isso não lhe augura o direito de se sobreporem à lei. É tão simples! uma folha A4, caneta BIC, saliva e um selo dos CTT. O Tribunal Constitucional ainda tem uma daquelas caixas vermelhas do correio postal e dizem por aí que ainda é um daqueles órgãos que conserva algum respeito pela tal “causa pública”. Que o diga o ainda deputado Passo Coelho. Admirador confesso da Constituição da República.

Por falar em TC, aqui fica o estímulo para os senhores juízes. Talvez assim acordem do marasmo em que se encontram.Saudades dos ataques constitucionais do anterior Governo!?



Web Summit. Espero que o facto de termos roubado este evento aos nossos amigos celtas de Dublin tenha um impacto superior aos 200 M€ euros em entradas, gorjetas e receitas de UBER. O objectivo é alavancar as nossas tecnológicas e diminuir o gap tecnológico e investimento nas novas tecnologias. Talvez muita gente não saiba, mas só podemos agradecer ao anterior governo esta iniciativa!
E para terminar um pensamento sobre a actualidade internacional


Entre a mulher do Trump e a mulher de César, escolho o pacto secreto do sr. Hollande. Acho que para quem anda atento ao que se passa nesta Europa, já basta a merda que o Eça de Queiroz queria dizer.

25/09/2016

...portuguese sardines


“Total fertility rates (TFR) have increased since 2000 on average in the EU as a whole, although
this trend increase has reversed into a decline since 2010 (…)…By contrast, fertility rates
have decreased in Cyprus, Luxembourg, Malta Poland and Portugal.”

The 2015 Ageing Report. Underlying Assumptions and Projection Methodologies, UE

..em resultado disso, é normal que haja menos crianças matriculadas nas escolas! O próprio relatório aponta para um decréscimo da população escolar em Portugal até 2060. A consequência disso serão cada vez menos escolas e menos professores!?

Talvez sim. A manter-se esta prática absurda de encaixotar alunos até que o oxigénio dentro da sala de aula se converta em vapor de água e dióxido de carbono por um mecanismo biológico conhecido; nessas salas espectaculares com quadros interactivos que mal são utilizados e com ar condicionado desligado por falta de verbas. Nessas escolas que foram uma “festa” e que se transformaram numa pesada herança, em nítido contraste com outras [muitas mais!] que nunca foram objecto de qualquer beneficiação e que sobrevivem entre pingos que caiem do tecto, o calor que sopra depois o frio que pela janela entra.

Seria interessante, começar a olhar para os relatórios não numa abordagem “malthusiana” da solução [mais simplista e com resultados orçamentais imediatos], mas vendo aqui uma oportunidade de voltar a pensar na educação, não na sua perspectiva aristotélica na globalidade, mas como uma via para recuperar e cimentar as capacidades cognitivas e das aptidões específicas dos alunos. Isso só se consegue efectivamente com comunicação, expressão de afectos, aquela coisa estranha chamada socialização, o mútuo respeito. Gostava que a métrica estúpida dos metros de quadrados por aluno, ou a análise irracional do custo por aluno fosse substituída pelos resultados que conseguem alcançar em termos de reforço da auto-estima e a autoconfiança; que a sala de aula voltasse a ser um espaço de reflexão metódica e pensamento dinâmico. Não uma lata de sardinhas [metáfora muito usual!].

Apesar das mudanças na orientação política elenco do MEC [se é que isso influi na capacidade de mudança no mi(ni)stério!?]…a velha praxis mantém-se! Para prejuízo dos alunos e do nosso futuro. No FIM, culpe-se os professores!...