31/12/2010

...encruzilhada

Em surdina, e enquanto ninguém se lembra que tal, fui encher os depósitos das carroças antes que o preço do fardo de palha aumentasse por via do aumento do IVA e do fim da comparticipação aos produtores de biodiesel. Mesmo apesar da variação do euro face ao dólar beneficiar o preço do barril de crude, estou certo que a Galp (produtora internacional de todos os fardos de palha que são digeridos em Portugal e algumas bombas em Espanha) vai mesmo aumentar o manjar asinino logo após as 12 badaladas da meia-noite. Saciado agarrei os arreios e com toda a impedância apontei a cenoura até à grande superfície mais próxima. Estava cheia, para não variar nesta altura de saldos & enganos. Achei delicioso o pormenor de à entrada terem construído uma pirâmide de bolos rei industriais com aspecto de móvel velho lambido com óleo de cedro. Mais espantoso foi ver o escaparate dos preservativos Durex mesmo ao lado das nossas garrafas de espumante travestido de champanhe francês. Mais adiante, os inevitáveis sonhos oleoso, as rabanadas emplumadas de açúcar mais caro e canela das mais barata e as imprescindíveis uvas passa de calibre XXL para dar substância aos 12 largos e desmedidos desejos de início de década. Fritos & alcoólicas ao som das 12 badaladas, as passas do Allgarve e chá de tília para acalmar os fígados mais desprevenidos na manhã seguinte.

Confusão, mesmo grande confusão era a bicha para o marisco:

- “9,99 €/ kg, mas com desconto em cartão!” – não sei tive pena dos bichos ou quem estava disposto a mariscar as últimas finanças do ano numa amálgama de tremoços de bigodes meio congelados e mal amanhados . Satisfação para a carteira, decepção para o paladar. Fiquei-me portanto pela prata da casa e pelo tradicional paté de atum com um derivação de vinho da madeira e resguardo de pasta de azeito. O queijo de Évora também vai fazer pendant com as azevias de grão que a bimby preparou. Para memória futura, robalo no forno com batatinhas acompanhadas com um branco Duas Quintas 2007.

Mas voltemos á brutal realidade dos números, neste “fim de festa” da governação em que nem os reis magros do mercado nos agraciam com a mirra (muito menos o ouro ou o incenso), o nosso Primeiro Herodes depois de degolados os abonos das inocentes crianças deste país, prepara-se agora para o saque supremo ao templo pátrio do contribuinte. Felizes os convidados para a Ceia do Senhor, eis o carniceiro que tira o imposto ao povo.

IRS, IVA, Deduções Fiscais, Benefícios Fiscais, Código do Trabalho, Código Contributivo, Segurança Social. Amén

Rejubilem todos aqueles que foram enganados (os patos bravos que ainda acreditam neste Carcereiro-mor), ele que transporta numa bandeja de prata, o sonho de todos aqueles que ainda esperam a última vinda do messias libertador, o D. Sebastião que nos há-de livrar de Alcácer-Quibir, e de todos os negociadores do FMI. Façam as vossas apostas, será que o FMI ou o Sr. Trichet nos vai visitar no final do primeiro trimestre, será que o nosso Ministro das Finanças vai finalmente poder apreciar o merecido descanso ao sabor de uma peça de fruta enquanto se delicia com o seu ipad no sofá da sua sala. Será que o nosso Primeiro vai finalmente dar o braço a torcer e mudar a retórica de desculpabilização sistemática da crise internacional e vacilar sob a pressão dos números?

Será que alguém de bom senso vai poder votar em consciência nas próximas eleições presidências dada a total ausência de discurso político, diálogo de ideias ou soluções? Vou ser sincero: assisti a apenas um debate, o confronto final entre os dois únicos candidatos presidenciáveis. Que pobreza, que vazio! Não deixa de ser caricato para não dizer aberrante ver dois candidatos discutirem aquilo que não podem fazer mas que insistem prometer, e não falar claramente sobre aquilo que podem e devem fazer. Cada vez me convenço mais que dado o esvaziamento que se assistiu nos últimos cinco anos no papel do Presidente da República, era tempo de termos alguém em Belém que tomasse definitivamente o rumo do País e augurasse um novo estilo de protagonismo.

Mas nem tudo foi mau neste ano que agora se esvazia: mantenho a minha conta fora do BPN, continuo a respirar sem que para tal pague imposto, ainda posso sair de casa sem pagar taxa de ocupação municipal, e ainda tenho liberdade para escolher os ingredientes que utilizo e o modo de os confeccionar sem que a ASAE entre cozinha a dentro com os seus comandos swat.

Ainda consigo arranjar dois metros quadrados na praia de Carcavelos para apreciar uns banhos de sol e ler umas quantas páginas de língua portuguesa com consoantes mudas e pasme-se, ainda consigo ir pedalar no mar do Guincho sem pagar portagem. Por isso não me posso queixar. Nem foi assim tão mau!

Podia ter sido pior, mas o Papagaio sem Penas, essa loja mística que nos ilude e nos confunde deu uma ajudinha, e do outro lado do rio, algures no meio de livros e desapontamentos, um sorriso banhado em lágrimas acordou de um longo sono quimérico. Afinal enganei-me (estranho! sempre pensei que eu e o Cavaco éramos infalíveis e não líamos jornais!?) não te tornaste uma desilusão, apenas uma breve pausa no tempo.

E portanto, é com grande satisfação e maior preocupação que aguardo, as doze badaladas para a nova década. As passas brancas (só gosto dessas!) já estão alinhadas, na firme convicção que as 12 rimas não se transformarão em sete pragas do Egipto, pois de sustos e desilusões já este ano foi pródigo.

Uma boa noite &; boas entradas.

PS: para os incautos e patos bravos apenas um aviso: o Pingo Doce realmente não vai aumentar os preços em Janeiro...e sabem porquê?eh!eh!eh!he!...advinhem!

23/12/2010

....já perdi a conta às fitas!



....sim é verdade! gata & árvore de Natal simplesmente não combinam!... já perdi a conta às fitas que ela já destruiu e as bolas que roubou. Mas após várias experiências mal sucedidads descobri o antídoto: luzes musicais. Uma espécie de cruzamento entre a Madame Edith e o bardo Assurancetourix em formato natalício! Simples e eficaz.

22/12/2010

...50%


...O Natal traz ao de cima o melhor e o pior de cada um de nós. O melhor pela imensa generosidade como neste pequeno período de tempo que medeia entre o subsídio de Natal e o extracto do cartão de crédito em Janeiro, nos desfazermos de tudo o quanto já não achamos piada, com é o caso das poupanças que fomos amialhando desde que viemos de férias e pela inusitada vontade de dar mais uns quantos cêntimos para esta ou aquela campanha a favor dos mais necessitados. Mas só neste período mesmo!Depois eSquecemo-nos ou simplesmente ignoramos. O pior, pelo facto de nos autoflagelarmos em filas intermináveis por entre empurrões e brigas por aquele brinquedo que está com 50%!!!! em cartão, diferencial esse que gastmaos uns metros mais adiante na primeira pastelaria em sonhos, azevias e fatias dourada, não sem antes pedir a bica da praxe com adoçante. Há que manter a dieta. Confesso, adoro o Natal. Não pelo que recebo, mas pelo que posso dar de melhor de mim, seja um postal ilustrado feito à medida (ah! bons tempos) seja por este ou aquele mail mais engraçado, ou por aquele telefonema para um amigo ou uma amiga! O melhor do Natal para mim, talvez seja o facto de estarmos todos juntos, não que esse reencontro não suceda de forma espontânea ao longo do ano, mas naquela noite, algo de mágico ou quiça trascendental transforma cada frase ou cada gesto em algo particularmente belo e reconfortante. também aprecio o Natal, para ver o quão depressa as pessoas se transformam quando entram na loja e se atacam umas às outras com um frenesim inexplicável e por vezes irracional. Por vezes dou comigo pasmado com determinadas atitude. Os gestos de falsa simpatia oscilam entre a falta de educação e a rudeza do trato.

Por vezes penso que definitivamente se perdeu a espiritualidade do Natal e que acima de tudo, o que conta é ter a mesa farta e não olhar a gastos. Esse [felizmente] não é o meu Natal. Aqui em casa ainda se comemora o Natal à moda antiga!!


08/12/2010

....tornado


..neste dia que em que se comemora o assassinato do ícone John Lenon, o homem que acabou com a carreira artística da Yoko Ono mas que fez singrar e a sua vértebra empresarial, a minha homenagem é dirigida não um dos elementos dos Fab Four [ que são mais intemporais e conhecidos que Jesus Cristo; não foi eu que disse isto!!] mas para todos aqueles que sofreram mais uma desventura da mãe Natureza. As imagens do tornado de ontem são no mínimo impressionastes!

Oxalá que desta, o Governo seja mais célere na ajuda e não se resguarde em pormenores burocráticos com sucedeu com a última intempérie na zona Oeste! Era o mínimo!...

02/12/2010

...na mouche!

....existem aquelas frases que pela leveza da pena e o nítído momento de clarividência do autor, ilustram de forma brilhante o momento em que me encontro!



                       «Nunca me senti tão sozinho e nunca tive tanta certeza de estar tão certo.»




Sá Carneiro

21/11/2010

...a besta, o Bo e a Ritinha... e gorjeta!


Mare Nostrum Pátria deles



Perante a Cimeira da Nato, basicamente tinha duas hipóteses: ou enclausurava-me na nova mega superfície comercial da Quinta do Conde na esperança de encontrar lá alguma desempregada a gastar os últimos trocos, ou uma qualquer empregada a relatar em directo que tinha faltado para ser a primeira a entrar no recinto, ou ainda um qualquer estudante “baldas”, e assim evitar os holofotes mediáticos e a confusão na 2.ª Circular, ou então pegava nas chaves e ia até Vila Nova de Poiares apreciar uma Chanfana de Cabra bem regada em vinho tinto e umas couves cozidas absolutamente tenras.
Optei pela segunda mas com uma pontinha de vontade de experimentar a primeira. Confesso mesmo, ainda sinto um ligeiro formigueiro na bolsa pelo facto de não ter experimentado os terminais de pagamento de uma das novas lojas!

Mas afinal qual foi o chamamento, o leitmotiv,o alinhamento dos planetas a estrela de Belém que encaminhou os 40 chefes de estado, a “Besta” do Obama (refiro-me à limousine!) e a filha do ministro Amado até à Cimeira da OTAN? Decididamente o gadget de cortiça, os pásteis de Belém e a oportunidade de se reunirem no único local do mundo em que as pessoas têm mais do que fazer que partir montras, queimar bandeiras e imolarem-se em megafones e declarações agressivas mas inócuas.

Estou certo que o nosso ministro da admiração interna deve estar tremendamente arrependido pelo facto de ter gasto uns trocos (os tais que ainda abundam no bolso da desempregada!?) nas tais viaturas blindadas não bélicas que nunca chegaram, e que agora vão patrulhar os bairros e ruas problemáticas da Bela Vista, da Cova M, da Soeiro Pereira Gomes e da Lapa. Lá no âmago da sua inconsciência, possivelmente acordou com aquele mau hálito matinal que até moscas mata, com o peso de não ter aproveitado o dinheiro nas melhoria das instalações de algumas esquadras degradantes, ou na educação religiosa de alguns policias da esquadra da Boavista aqui na pátria urbe. Mas não! Você ignorante contribuinte que se queixa por método e declinação, já imaginou os galões de gasóleo que o nosso Estado poupou pelo facto de ter substituído essas bestas, por umas motos 4x4 com uns bonitos pirilampos de Natal azul celeste? Sim porque também o nosso glorioso líder pai da nação Sócrates [ler com sotaque amaricano!] deu um forte incentivo para a busca de energias alternativas ao conduzir um Leaf o qual, modéstia a parte, nem que fica mal no meio das aburguesadas bombas germânicas e da “Besta” do Obama.

Teoria heliocêntrica de Portugal

É verdade, para além de sabermos que o amigo português no presidente Buraca Obama chamar-se David, ficamos incrédulos com o facto de saber inclusive falar português. Coisa rara nos imigrantes! Em suma, o facto de estarmos intimamente relacionados com o homem mais poderoso do mundo a seguir a à senhora Hu (vá puxem lá pelos conhecimentos de geopolítica!!é a senhora que prepara o pequeno almoço de clepes! quem é? quem é?), à Sra. Merkel, à Oprah e ao Horatio do CSI, coloca-nos algures na equidistância do epitélio superior Norte e o pedúnculo inferior Sul, ou seja no centro do mundo.

Ainda melhor. Depois de Ossana  [não será Obama!?] nos ter revelado que a alberga no seio da sua família, nos corredores e na casa de banho do r/c do seu apartamento na Pennsylvania Avenue mais um português, o Bo, podemos finalmente considerar que todo o universo gira em círculos mais ou menos achatados e aborrecidos em nosso redor. Bo, talvez o único cão do mundo a seguir ao dálmata do rouxinol faduncho que teve direito às mãos calejadas de um mestre artífice chinês na sua concepção e pintura, e que serviu de pretexto ao nosso Presidente da Respública [vénia respeitosa] para chamar assim uns minutos de atenção no Palácio de Belém, e assim dar descanso á massagem tonificadora de ego do nosso Primeiro-ministro. Sim porque com é do conhecimento geral [vox populi] todos sabemos como é que as massagens começam, mas não sabemos como é que amanhã os Mercados as vão terminar!?


White block

Consta que o Manuel Alegre sentiu uma comichão para também ele se acorrentar à paragem do 28 na Av. Infante D. Henrique ao pé do mausoléu do Santiago Calatrava,em manifesto anti Nato, anti Pastéis de Belém e anti qualquer coisa que diga ou lembre Cavaco, mas o bichinho da caça ao gambuzino foi decididamente mais arrebatadora, isso e o poema que estava a ler. Em sua substituição tivemos uma manifestação compartimentada [nada de misturas e mesclas]. Aliás, foi o próprio camarada Jerónimo, líder da facção vermelha do Block deu ordem expressas para que os ilustres camaradas se afastassem da malta dos piercings, dos keffyeh palestinianos e dos cabelos com aspecto de não serem lavados desde a década de 90 do século passado e com ninhos de melro na cabeça. Por sua vez líder secretário Louçã do Block d’Esquerda ordenou à PSP que ignorasse alguns membros da sua comitiva com alguma mortalha fumegante no canto da bioca,e desse especial atenção aos betos anarquistas vestidos de negro [Darth Vader incluídos] e cara tapada que por ali passavam, não fossem eles começar a desancar com os bastões de baseball e cocktails molotov nas bonitas montras capitalistas que ainda dão alguma vida à nossa Av. Da Liberdade. Consta que a representação islâmica na manif se quedou pelo Centro Comercial da Mouraria, e algumas ruas do Martim Moniz. Afinal em plena semana de Hadj não havia razões suficientes para andar a queimar bandeiras americanas e israelitas com tanta coisa para fazer! Ele é sete voltas ao contrário em redor da Kaaba, ele é ir buscar as sete pedras ao Monte Arafat para apedrejar o Jamarat al-Aqaba. Eu sei lá! Para além disso com a crise que está, andar a deitar-se na rua para sujar a peça de roupa branca que custou um porradão de dinheiro a lavar e a engomar, não lembra ao careca!

Sugestões de semana:

Dia 21 – Comece o dia a celebrar o facto de todos sem excepção terem comentado a excelente capacidade organizativa de Portugal e mostre a sua indignação pelo facto da besta do Obama ter dito que a Cimeira não tinha sido excitante. Refira ainda que se ele queria excitação que fizesse como o Berlusconi no Elefante Branco ou que fosse comer um hambúrguer em Kabul!

Dia 22 – Acabe o dia perto da hora do almoço com uma valente dor de cabeça pelo facto de não ter conseguido estacionar o carro na nova superfície comercial na Quinta do Conde, em opção faça uma piada brejeira sobre o discurso duplicado do ministro das Obras Públicas e o seu Secretário de estalo!

Dia 23- Faça um discurso ligeiro ai por voltas das 16:00 até às 17:47 sobre a utilização do preservativo pelo Papa como forma de não proliferação de armas nucleares.

Dia 24 Dia de Greve Geral- se é funcionário público e presa a amizade dos seus colegas nos próximos meses [enquanto se lembrarem do gesto!] faça como eles, vá à nova superfície Comercial na Quinta do Conde e não vá trabalhar!;

Dia 25 – Celebre com euforia as virtudes da greve e da grande adesão que os camaradas colegas de trabalho tiveram a esse evento mobilizador da sociedade portuguesa. Acabe a divagação com a necessidade do Sócrates [com sotaque de rua e demais predicados] mandar para as urtigas o ministro das finanças, o amado ministro, a ministra da educação, a ministra da saúde, o ministro da defesa e o gajo que comprou os chaimites!Aproveite e saia mais cedo para tentar arranjar lugar no novo centro comercial que abriu na Quinta do Conde.


PS: e a gorjeta!? quer dizer gastamos o dinheiro todo e ninguém deixa gruja?!

06/11/2010

...não batam mais que o homem tem dor


Começo com a notícia de capa do Expresso que acabou por inviabilizar a degustação prazenteira do meu pequeno almoço. Há crianças nas escolas a passar fome, algumas das quais escondem esse facto e há inclusive alguns agrupamentos aqui bem perto que estão a ponderar a abertura das respectivas cantinas ao fim de semana e durante o período das férias. É triste, muito triste. Como alguns de nós já reparamos, este mês não houve [e sabe Deus quando haverá!?] abono de família. Vou ser sincero. No meu caso não é a quantia em si que resolve os meus problemas. Era apenas uma economia para ser utilizada muito mais tarde quando os petizes necessitassem, por exemplo para o ensino superior [desejo e anseio de pai!]. Por um motivo maior, patriótico quiçá foi-me retirado. Pelo que li, o Estado perspectiva uma poupança global de 250 milhões euros com esta medida de salvaguarda da fazenda pública.

Não hasteei a bandeira nem me ofereci em holocausto aos deuses do mercado muito menos queimei incenso na fotografia do Ministro das Finanças. Também não me comovicom a dor de alma do PM [antes fosse de rins para sofrer um pouco mais!]. Penso que esse meu dinheiro [infelizmente!] será utilizado para as contrapartidas da renegociação das tristes e famosas PPP ou o buraco do BPN. Nada como siglas para iludir o contribuinte menos atento. Mas talvez uma leitura mais atenta ao recente relatório do INE sobre a pobreza em Portugal e em particular nas crianças nos possa fazer reflectir sobre o gesto irreflectido que o secularissímo PM acaba de fazer. Passando das crianças para os mais idosos, ainda na triste senda deste país em quasi bancarrota, fiquei igualmente incomodado com o artigo de opinião da Clara Ferreira Alves. Sim, este país não é para velhos. Não obstante o facto de serem ignorados e marginalizados , ainda por cima lhes cortam as pensões, diminuem as comparticipações e pelo andar do circo ainda lhes barram o apoio social, a bem da saúde financeira do país que os "acolhe"! Esse país ou esse Estado bombeiro, que acode a todos e que o Miguel Sousa Tavares por vezes renega (com a devida vénia pelo encanto da sua escrita) nestas situações tem mesmo que vestir as vestes do bom samaritano meu caro MST, ou qualquer dia caímos no engano de um sistema supra capitalista em que metade da nação se insurge pelo facto da outra metade ter apoio social mesmo não trabalhando (uma espécie de telenovela americana já gasta e pouco recomendável!).

E por falar em telenovela, saúdo o Expresso pelo furo jornalístico da fotografia da verdadeira e única sede do poder em Portugal. Trinta anos depois desse fabuloso debate entre o Dr. Soares e o Dr. Cunhal (que apesar da tenra idade assisti com os meus pais ainda na velha phillips a preto e branco) finalmente chegamos à conclusão que aquele bando de pessoas singulares que têm como profissão deputados não servem para absolutamente nada, a não ser mandar bitaites e carregar no botão da votação electrónica. Afinal de contas o documento mais importante dos últimos 25 anos de democracia, foi discutido e acertado por dois respeitáveis anciãos da causa pública (um deles reformado e o outro indulgente com as dores d’alma do nosso PM) numa sala na Lapa com um belo chão em tábua corrida e com uma cesta de frutas meio vazia, um lapís, uns papéis e um ipad. Nem Vermeer teve tamanha inspiração, ficou-se pela rapariga do brinco de pérola.

Só faltou mesmo o chá no quadro e teríamos o nosso tea party à portuguesa. Por falar em tea party queria expressar o meu orgulho pelo povo americano. Alterar o satus quo vigente sim. Atacar as políticas da saúde e segurança social do presidente Obama, obviamente! mas acabar com a masturbação como pretendia a candidata Christine O'Donnel isso é que não!...masturbação para bem da nação como cantaram os Ena Pá 2000....eis um bom candidato à presidência!....acabo de ter uma epifania!...

Mas deixando de parte os prazeres sublimes da carne, depois de ver o resumo alargado dos dois dias de debate do OE20111 fiquei com duas certezas:

1. O nosso PM está na recta final da sanidade, pois já vibra com a fugaz intervenção da Manuela (vizinha de bancada do igualmente escondido Zé Pacheco Pereira);
2. ainda mais evidente, a frase singular que, e passo a citar, "...a subida dos juros da dívida não tem nada a ver com Portugal”. Pois não pá!E nós andamos aqui só para pregar sustos aos funcionários públicos e ao leite com chocolate das criançinhas!!

Como se não bastasse o facto de o candidato Alegre, mostrar já sinais evidentes de desespero ao afirmar [pasme-se!] que a greve geral do próximo dia 24 também passa pela actuação presidencial, também temos um candidato pouco ami no que toca a pagamento da renda da sede de campanha, um candidato madeirense cuja caravana de campanha é um carro funerário, e um candidato comunista que pouco ou nada diz e quando fala confunde presidenciais com política governamental . Em suma, e batendo as claras com o devido ritmo, isto está uma verdadeira ejaculação mal amanhada.

Mas não desesperemos. O jovem Passos o homem da mudança, o homem que traz sangue novo tem o remédio para tudo isso. Calabouço para os incumpridores. Processos crime para todos. Eu acrescento guilhotina meus concidadãos. No final sobra o Dr. Catróga, o Ministro Santos e a burro de presépio.

E por aqui me fico que as castanhas estão saborosas e jeropiga Paciência está no ponto.

Deixo alguns números sobre o desvio da execução orçamental dos últimos anos de governação para que os fieis crentes do nosso mártir PM possam também eles comungar das dores d'alma:

2005 – 900 milhões €
2006 – 770 milhões €
2007 – 400 milhões €
2008 – 200 milhões €
2009 – 100 milhões €
2010 – 1200 milhões €
2011- ...tudo depende das compras de Natal do camarada Hu Jintao e da disposição matinal da Sra. Merckel

...o resto são rosas Senhor!

PS: pede-se aos senhores boys do PS que se dirijam com alguma urgência às inciativas de campanha do Manel senão ele saca de um poema!Façam com a Manela vos ensinou, sorriam e finjam que estão contentes!

04/11/2010

..merci!

"...Paris sera toujour Paris" dizem, mas ainda assim nada se compara ao azul céu de Lisboa nem a luz que o calcário transmite às nossas fachadas.. Os famosos telhados de paris com os seus gatos e águas furtadas não se comparam com o bailado geométrico que a vista alcança no miradoro de São Pedro de Alcântara. E nem a arquitectura do mestre Haussmann se compara com o burlesco de uma alfama ou uma mouraria. Lá e cá as ruas são sujas, muitas vezes por incúria e desleixo dos transeuntes que vêem em cada recanto a oportunidade de aliviar a pedra no rim, ou um bom local para guardar a beata preventiva ou o lenço usado e abusado. Se Paris tem glamour, romantismo!? se ouvimos a concertina ou lemos um poema sentados no Les Deux Magots? Sim. Sente-se, sabe bem...e é caro! Não sei com é possível beber um simples expresso e pagar com se estivessemos sentados na Place Vêndome na loja da Cartier a escolher um diamante. É certo que o sabor tem um sabor especial [a caro!] mas nada se compara a um bom delta ou mesmo a um nicola no quiosque mais próximo. A baguette essa sim é uma instituição, e nada como circular debaixo do sovaco para dar aquele saveur de nouvelle cuisine. Na rua vendem-se sobretudo as famosas baguettes, os crepes e os inevitáveis cachorros, nesta altura também castanhas assadas na chapa!  Mas nada como para numa patisseire para nos deixarmos encantar pelo turbilhão de sensações organoléticas num simples olhar. Enfim o chef recomenda...mas nunca para apenas um fim de semana. Paris só se absorve na totalidade com pelo menos uma semana. Outra coisa curiosa é que em qualquer um dos bairros, o estacionamento dos carros é uma espécie de bilhar Às três tabelas, muito ao jeito do inspector Closeau. Tudo que seja mais do que 20 cm entre cada pára choques é um excesso, pelo menos têm a garantia que os pára.-choques são utilizados para a função. As francesas têm uma magia um je ne sais quoi...são bonitas e charmosas, e geralmente andam acompanhadas com o seu cão de raça [nada do frugal vira latas!]. Curiosamente e ao contrário do que o Stephen Clarke referiu no seu livro a Year in the Merde, o cão francês não é tão generoso como o português que deixa cadeaux em tudo o que é metro quadrado de calçada. Outra particularidade de Paris...tal como outras cidades cosmopolitas, é barulhenta e habitada por seres de todas as proveniências e mais algumas, de tal forma que ao descer alguma zonas não nos apercebemos se estamos no Martim Moniz em hora de ponta ou na Boulevard de Magenta. Paris é uma cidade pequena, os arredores é que se perdem de vista. A rede de metro é densa como Londres mas incrivelmente fácil de decorar [aqui em Lisboa perco-me com tão poucas linhas], mas ainda assim com tantos locais de interesse para visitar, nada com andar a pé e sentir na pele a vivência da cidade. Em suma...tenho que lá voltar nem que seja para perder dois dias no Louvre!...ah!...é engraçado ouvir um francês a tentar falar inglês!!




17/10/2010

...são rosas Senhor!


….para ser sincero não sei por onde começar, se pelas projecções macroeconómicas do Governo apresentadas no OE2011, se pelo atraso na entrega do documento, ou pelo facto de as ostras não se encontrarem abrangidas pela subida abrupta para a taxa máxima de IVA.

 fico-me por algo mais simples a subida para o escalão máximo do leite com chocolate. se me questionarem se estou mais inclinado a retirar da prateleira uma garrafa de Monte da Peceguina 2007 ou de um pacote de leite achocolatado da Nesquick, digo muito honestamente que opto pelo primeiro. neste particular os caríssimos secretários do ministro das finanças assinam por baixo a minha selecção, pois o leite aromatizado, aditivado enfim, adulterado só pode ser considerado bem de luxo e deve ser perseguido. as ostras não!

mas antes de entrar em detalhes, uma breve nota para o atraso [tristemente normal] da entrega do OE e para o facto de mais uma vez [que gozo para a Telepizza que teve mais uma noite de glória]. no meu tempo havia reguadas e castigos a sério! eu sei que era traumatizante para quem as levava e desmotivante para quem as tinha que aplicar mesmo não entendendo bem porquê, mas infalível!

relativamente ao ponto inicial que motiva este conflito indecisório, começo por apresentar a minha mais firma relutância sobre os dados macroeconómicos do OE. não é que tenha algo contra os arredondamentos das projecções, ou uma ou outra relutância contra algum número. simplesmente há ali qualquer coisa que não soa bem. não sendo economista, mas tendo alguma experiência em contas de mercearia [muitas vezes vilipendiadas mas mais justas e sinceras!] creio na minha consciência que há ali qualquer coisa que não combina bem. ora vejamos: o investimento do Estado é reduzido, os impostos exacerbados para as classes baixa e média [quem menos recebe vai pagar mais de imposto; quem mais recebe pagará menos, tudo por uma mera questão de equidade fiscal nos limites das deduções à colecta, pasme-se; é este o sistema socialista!!], a inflação sobe, o desemprego continua o seu ciclo ascendente, novos impostos para as empresas [o dos bancos não é imposto, só pode ser gozo, mas já lá vamos!], o PIB mantém a sua trajectória descendente, o endividamento do Estado continua no nível estratosférico, e para finalizar a procura interna vai diminuir. a parte mais curiosa, para não dizer divertida, é que a base deste baralho de cartas é o pressuposto de um aumento das nossas exportações [sendo nós uma potência em matéria de exportações a nível europeu!], como se numa penada o mundo mudasse e a estagnação mundial se transformasse numa Éden de trocas comerciais em que cabeça surgisse o made in Portugal como item mais cobiçado! não sei se é acto de fé ou auto de fé, mas que este ministro das finanças já nos habituou ao surrealismo, isso já. olhe senhor ministro, se a matéria de facto é o irrealismo, podia por exemplo dar um saltinho à retrospectiva do Victor Willing na Casa das Histórias e convencer-se que há formas reias de retratar a irrealidade da realidade dos factos!

e de quem é a culpa?....que pergunta mais irracional!eEntão não se está a ver?? só pode ser daquele imaturo, irresponsável e brincalhão do Passos Coelho. Péssimo dançarino de tango, completa nulidade na playstation!! provavelmente na universidade de verão do PSD em Castelo de Vide sofria bulling, e era obrigado a andar com bandeirinhas aquando das visitas de atestado do candidato a primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva [antigamente era Aníbal agora apenas Cavaco!]. foi ele com juntamente como Pacheco Pereira, o Frasquilho e o Miguel Macedo que arquitectaram toda esta encenação, e o cérebro de todas estas refinadas medidas de estagnação e contracção seria provavelmente a Manela, que antes que fosse tarde demais , optou pela sombra da coluna do caderno de economia do Expresso. e pronto os culpados do facto de uma embalagem da Compal de feijão de frade pagar tanto IVA como um Porsche Carrera 4s, estão identificados. mas há mais, o bando não fica por aqui.cCertamente que ninguém investigou a teia de relações entre o eminente Medina Carreira, o inoportuno Mário Crespo e a Chanceler Merkl (estratega mor do BCE!). são eles que tecem as ideias e estratégias com que os malandros dos mercados internacionais [gregos e FMI incluídos no embrulho] nos atacam de segunda a sexta-feira. quem é que aposta comigo em como o default da nossa dívida na próxima semana não vai disparar dos 27,6% para os 30% ou que o yield da nossa dívida não chega ao precipício dos 7%, face à indecisão calamitosa, o tabu devastador do jovem Passos. sim porque a culpa é toda dele, e da pobre Dona Maria e o seu marido que recebem 500 euros de reforma e que pelo facto de não se terem esforçado durante a vida de fausto que levaram, vão pagar agora o dobro do dinheiro que pagava pelo Nimed, mais IMI pelo T1 com 60 anos que habitam em Xabregas, mais IVA pelo leite enriquecido com cálcio que o médico lhes aconselhou para fazer face à osteoporose que afecta a Dona Maria. com alguma sorte, ainda vão ter que comprar fiado na mercearia da tia Amélia, que lá vai ter que fazer contas à vida pelo facto de ter que pagar aos fornecedores de algo que não recebe de imediato, e sabe Deus quando.

são estes portanto, os culpados e ponto final parágrafo.

mas uma dúvida invade-me. quem é que afinal está no Governo?a Dona Maria não é certamente!nem ela nem aquele casal que queria ter mais filhos e que agora vê suspensa a sua pretensão em diminuir a base de incidência das taxas de IRS à custa do aumento do agregado, malandros!é como os gregos e os tipo do BCE que cobram juros de 1% aos bancos e depois estes emprestam aos governos dinheiro a 6% e 7%!!!

por um simples acaso passava eu nos Passos Perdidos da Assembleia da República quando e dei de caras com um deputado triste e desapontado do PS. Queixava-se que um colega (o prestigiado chefe de gabinete do camarada secretário-geral do PS; não confundir com o primeiro-ministro por favor! trata-se do camarada Pinto de Sousa!) o tinha coagido a aceitar um lugar de destaque no negócio da ferrovia a troco de uns miseráveis 15000 euros mensais, desde que este desistisse da candidatura à distrital de Coimbra (que aliás perdeu!)! também não sabia bem quem estava no Governo, estava sim preocupado com a decisão que tinha tomado!

não satisfeita a minha curiosidade, outra questão me atormentou. mas afinal o que aconteceu realmente desde maio de 2009? tentei procurar o Passos nos Perdidos mas apenas vi  hordas de deputados que se atropelavam em congeminações e impropérios por uma pen que estava incompleta, e jornalistas que desesperavam por uma fotografia ou por uma fatia de pizza pois a fome apertava. sentei-me no camarote do Plenário da AR, e adormeci cheio de fome pois era tarde e a fome apertava.

chegados que estamos ao "mais importante orçamento dos últimos 25 anos", apeteceu-me recuar esses mesmos 25 anos, mas para minha infelicidade, vejo na bola de cristal os mesmos rostos, as mesmas políticas, os mesmos argumentos, as mesmas mentiras.

comungo das proféticas palavras do Jorge Sampaio, de que há vida para além do défice, mas questiono-o se pensa que também há vida para lá do orçamento. o ministro Teixeira dos Santos afirma solenemente o dever patriótico de deixar passar o défice, e eu pergunto-lhe directamente e quem nos defende a nós, pátria dos vossos erros e da vossa incompetência em gerir a causa pública?

desta vez nem nossa Rainha Santa Isabel nos safa!

PS: jorram lágrimas quando vi o séquita da alta finança portuguesa num gesto nobre qual Martim Moniz, todos eles com o nó do laço a oferecerem-se para serem os primeiros a ser martirizados pela pátria, desde que taxa a aplicar se refectisse no cliente! Só não entendi a que propósito Dona Maria não teve igual tratamento!?
"...levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres(...) Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,(...) ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas."



Crónica dos Frades Menores, Frei Marcos de Lisboa, 1562

11/10/2010

...um olhar diferente

...aqui também continua a chover, mas existem muitas forma de ultrapassar estes lampejos de outono envergonhado. Como ficar em casa e fazer zapping entre um qualquer canal português é meio caminho andado para nos afundarmos-nos em conjecturas e prognósticos sobre um possível, eventual, desejado, patriótica ou descabido chumbo do Orçamento que ninguém conhece, nada melhor do que acordar cedo e sentir o doce trago amargo da maresia, nado da fúria e ímpeto do mar que sacode a nossa costa, e outros incautos que gostam de jogar com o infortúnio. Ler o jornal (mesmo sendo o artigo do M Sousa Tavares, que quixotescamente luta contra os moinhos de vento do novo acordo ortográfico, e muito bem refira-se!) não deixa de ser um atrevimento que nem nestes dias me apraz provar. Sente-se e demasiado foco sobre um documentoque atropela os anseios e amarguras de toda uma classe que não sendo a solução do problema, é por entreposta dúvida a causa do problema, pelo menos para alguns, ditos esclarecidos.
Como se a sentença pelos pecados não praticados fosse a absolvição daqueles que do outro lado da barricada atiram a primeira pedra. A "César o que é de César" disse um dia um conhecido profeta da nossa praça, depois de confrontado por um grupo de sindicalistas fariseus. Por ventura, não esperava ele que o este nosso César cura-se de nos aliviar a bolsa com o mesmo ímpeto com que massacra os mais necesitados. E porquê continuar a apostar num semi-deus que mais não fez que continuar a caminhada desta jangada de pedra rumo ao desconhecido. Já nem o mar salgado nos poupa, nem as tágides nos encantam. Pasme-se, nem  o Velho do Restelo, que bem procurei ontem na bicha dos Pastéis de Belém ousa pronunciar-se sobre o destino desta nau. Ao folhear o jornal, leio nas entrelinhas este  auto da barca do inferno, vislumbro um Don Anrique que passeia toda a sua vaidade e arrogância e que deixa um povo na miséria. Vejo um pais de amadores de perdiz, em que nem a justiça escapa à selectiva estrefe do triste fado. Também em 1755, nessa Lisboa de fausto de uns e miséria de outros, as igrejas sucumbiram com o peso dos crentes, quando mesmo ao lado, as prostitutas se salvavam. Que obra de misteriosa e profana vontade divina é esta que condena justo e perdoa o pecador. Também nestas horas me interrogo sobre a justeza das medidas, da justeza dos actos e de algo mais preocupante. O que aconteceu, para termos chegado a este ponto, quando nem as Tormentas se vislumbravam no horizonte, ou o marinheiro assim o julgou!? Que meirinho do mar é este que surge do nada e que a todos quer libertar. Que novas cartas de marear traz no alforge, que novas terras pretende ele alcançar?...demasiadas perguntas, poucas ou nenhumas respostas. Tivesse eu uma bola de cristal, seria logo consumido pela fogueira da inquisição.
Hou da Barca, tendes por i algo melhor pra nos ofertar?...

27/09/2010

...here's Johnny!!


...quando a nata dos economistas portugueses (aqueles que neste momento não têm responsabilidades governativas ou se encontram confortáveis com as respectivas reformas) apela à vinda do FMI para retemperar o afã despesista do Governo, apetece-me perguntar se esses mesmos que agora apelam ao regresso desses belos dias de 83, na altura viam com a mesma ansiedade a equipa do FMI a entrar porta dentro com a calculadora e a caneta vermelha!?Porventura não!...
O curioso é que apesar de já cá terem pernoitado durante umas temporadas, os erros e as deficiências de outrora são as mesmas e não o obstante já ter passado um par de décadas, este simpático país insiste em caminhar alegremente para o abismo. Tal como as receitas da Mafalda Pinto Leite (simples e práticas) os ingredientes que o FMI utiliza são por demais conhecidos: redução brutal da despesa à custa de inevitáveis cortes cegos, despedimentos em organismos do Estado, perda de regalias sociais e adiamento de grandes investimentos. Tudo produtos frescos e com muita saída economistas com vontade de ver sangue.
A partir do momento em que o yeld da nossa dívida ultrapassou o limiar psicológico dos 6%, e com a apresentação hoje do relatório encomendado pela tutela da Finanças à sempre prestável e desinteressada OCDE) é por demais evidente que se no futuro próximo as metas de redução do défice não forem cumpridas (futuro próximo pode ser já este ano!!) estão reunidas as condições para que a tutela do Turismo faça reserva reserva de uns quantos quartos no Hotel Altis (pensão completa) para a equipa do FMI. A nossa sorte, é que desta feita cabe à União Europeia o refrear a hostilidade do papão FMI ( para grande pena desses economistas de ocasião!). Mas com ou sem o prepúcio do FMI, quando os maus da fita entrarem pelo gabinete do ministro T. dos Santos, meus amigos acautelem-se!!...entretanto, e enquanto nos ficamos teleculinária de tabacaria,, fiquemo-nos com uma sopinha de de um novo aumento (esperado!) do IVA, umas batatinhas cozidas com redução das deduções à colecta, e com uma lata de sardinha das mais baratas como prendas de natal antecipado pelo OE2011. Sim por que apesar dos dançarinos de tango se terem zangado, nas ruelas dos Passos Perdidos já se cozinham pipis e punhetas de bacalhau na tasca de S. Bento, há quem afirme que já cheira a Orçamento aprovado, a bem da Nação e do pastel de bacalhau!

21/09/2010

Abyssus abyssum invocat.


...extasiado, foi assim que fiquei após visualizar a comunicação ao país da senhora professora agora ministra Alçada. Fiquei com o sobrolho retorcido com a performance cénica, fiquei memo!!...mas fora brincadeira, talvez não fosse má ideia da próxima comunicação institucional, colocarem papel de parede com graffitis, um vidro partido, a maçaneta da porta descaída e um quadro eléctrónico como cenário. Para banda sonora, aconselhava Jonas Brothers ou Hanna Montana [no meu tempo seria o memorável hino dos Pink Floyd!]. E por favor senhora ministra, olhe em frente para a câmara, assim não ficamos todos com a sensação que está a ler o ponto. Talvez dessa forma não se acometa de tantos ataques à dicção da nossa maltratada língua.

Umas páginas mais à frente, ainda tive tempo para dar um saltinho ao site institucional do PSD, o partido do jovem Passos. Movido por uma inebriante curiosidade, decidi embriagar-me com  as 17 páginas da proposta de revisão Constitucional do PSD. Aqui fica uma súmula dos meus comentários iniciais ao manuscrito.

Artigo 53º
É garantida aos trabalhadores a segurança e protecção do emprego, nos termos da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e da lei, sendo proibidos os despedimentos sem razão legalmente atendível, ou por motivos políticos ou ideológicos.

Muito sinceramente, fiquei com a mesma irritação cutânea da última vez que ouvi o vocábulo atendível. Agora não estava à espera que a causa fosse mascarada por uma pretensa legalidade atendível. Confesso que ainda não atingi o alcance desta alteração, mas desconfiado como sou sinto-me inclinado a preferir uma causa justa ainda que seja vaga e muito dependente dos maus fígados da triste lei laboral, do que uma atendível liberalização dos despedimentos. Se é esta a forma que o redactor encontrou para promover, proteger e flexibilizar o emprego, então fiquemo-nos pela velha causa. Motivos temos nós de sobra para não entender o que é atendível! 

Artigo 64º
1. ...
2. O direito à protecção da saúde é realizado:
a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral que tenha em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, não podendo, em caso algum, o acesso ser recusado por insuficiência de meios económicos;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento de práticas de vida saudável.
3. ...
a)...
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde e promovendo a efectiva liberdade de escolha;

Caro Conselho Nacional, prezado Passos, se é uma questão de liberdade de escolha então prefiro sempre o Estado, ainda que confesse que apesar de a percentagem de actos médico no privado apresentar já uma percentagem significativa, custa-me acreditar que ainda hoje são necessários meses para ter uma consulta em algumas especialidades, e para visitar o meu caríssimo médico de família.
Se me pergunterem se deviamos pagar mais pelos internamentos, pelas cirurgias e por alguns exames que eu sei por experiência própria que são efectivamente caros [só quem nunca aqueceu o cartão multibanco num hospital ou clínica privada é que não imagina o custo de um simples TAC ou de uma cirurgia!], a minha resposta é absolutamente sim. Se me indagarem se os meus impostos são bem aproveitados pelo SNS, a resposta é um claro não. Eliminar o desperdício sim, eliminar o tendencialmente gratuíto é um folhetim. Apesar de estar estampada a gratuitidade, em boa verdade todos pagamos taxas moderadoras e exames nos hospitais públicos. Talvez fosse a hora de pagarmos um pouco mais é verdade para assegurar a sustentabilidade do SNS, mas daí até condicioanr o pagamento de acordo com a situição fiscal do contribuinte, a marca da camisa, ou o carro parado no estacionamento, vai um longo e ardiloso percurso. Sim às parcerias público privadas, mas em moldes que não seja apenas o estado a acrcar com o prejuízo. Já basta as hospitais, centros de saúde que fecham no interuior por motivos contabilísticos e estatísticos. Onde o público fecha, abre um privado logo de seguida. Porquê!? Se um alega prejuízos e falta de competitividade, como é que o outro tasquim vai sobreviver? Não me digam que depois a liberdade de escolha fica condicionada a ter que fazer umas dezenas de quilómetros para o hospital público mais próximo, porque no outro "paga a sério"!?...e não é com ambulãncias hospitalares de recurso , que o caso se resolve. Há também uma terceira hipótese de escolha, que é esperar que o tipo simpático da foice decida ter outro cliente nesse dia!


Artigo 74º
1 - ...
2 – Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:
a) ...
b) Promover e desenvolver o sistema geral de educação pré-escolar;
c) ...
d) Garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus mais elevados do ensino, da investigação científica e da criação artística, não podendo, em caso algum, o acesso ser recusado por insuficiência de meios económicos;
e) (Actual alínea f))
f) (Actual alínea g))
g) (Actual alínea h))
h) (Actual alínea i))
i) (Actual alínea j))

Artigo 75º
1. O Estado assegura a cobertura das necessidades de ensino de toda a população, através da existência de uma rede de estabelecimentos públicos, particulares e cooperativos, promovendo a efectiva liberdade de escolha.
2. ...

Realmente esta proposta parece uma anális esatística em que o excesso de graus de liberdade que apresenta confere-lhe à partida uma baixa probalidade de sucesso. Tal como na educação, no caso da saúde os "indigentes e os coitadinhos" que esta proposta omitindo mais ataca, são confontado com a efectiva liberdade de escolha. Que o Estado andava a piscar o olho aos privados para testar umas parcerias (ruinosas para o Estado) vantajosas para os privados todos já sabemos e conhecemos exemplos. Por venturas algum dos senhores subscritores desta proposta tem alunos no Estado? e no privado? Agora respondam-me a esta questão pertinente. Acham que uma pessoa da extinta e exaurida classe média com ordenado médio de 900 euros mensais consegue comportar uma mensalidade num colégio privado? E se agora com esta medida de generosa liberdade de escolha o Estado, começar a fechar escolas aqui e ali, abrindo em sua substituição escolas cooperativas, privadas, semi-públicas, híbridas eu sei lá mais o quê, o senhor encarregado de educação está na disposição de colocar o seu filho numa destas maravilhoas e tecnológicas escolas em que vai "pagar a sério"? Não será mais sério manter o mesmo articulado, continuar o Estado a sua acção de renovação do parque escolar? Eu andei sempre no Estado, tenho orgulho e sorte de ter tido excelentes professores no Estado e não vejo qual a mais valia que os privados possam oferecer. Em vez de artilharem a Constituição com tiques de neoliberalismo aterrador, alterassem anets as políticas educativas, verificassem a substância  e actualidade dos programas curriculares, dar melhores condições ao docentes para fazer aquilo que gostam e sabem fazer que é ensinar! Isso talvez seja mais difícil, por certo compreendo que é mais prático mudar uma ou duas palavras no texto fundamental.


Artigo 149º
1. Os Deputados são eleitos por círculos eleitorais geograficamente definidos na lei, a qual pode determinar a existência de círculos plurinominais e uninominais, bem como a respectiva natureza e complementaridade, por forma a assegurar o sistema de representação proporciona.

Artigo 230º
Alguma coisa contra o método de Hondt? É utilizado à décadas e que eu saiba ainda ninguém apresentou queixa!?Talvez fosse mais interessante e efectivo, reduzir o número de deputados.


1. Há um Representante da República comum para ambas as regiões autónomas, nomeado e exonerado pelo Presidente da República, ouvido o Governo.



E vai morar aonde?


Bem estas foram as primeiras impressões que me suscitaram o meu apelo para...gastarem o vosso tempo em coisas mais úteis e deixar de brincar às revisões. E se o programa de Governo do jovem Passos, não se adequa à actual Constituição, então está na hora de fazer como o Figo. Fique em casa e não venha a Portugal, aqui só se arranjam problemas. Gostava também que me explicassem esta atracção irascível por alterar a Constituição a cada passo. Certamente que é uma questão de feromonas!?....Mas se alterarem,não se esqueçam de lavar as mãos como manda a senhora ministra!!

18/09/2010

...a não perder!

...na senda de outras iniciativas de sucesso confirmado, o Ovo Estrelado recomenda vivamente:


...a cor ou a p&b, é tudo uma questão de olhares!

...para mais informações basta carregar no link.
...não! na linha mais acima...isso!isso!!...plim!...Sofia, agora é a tua vez!!

11/09/2010

911

9/11

...eu não me esqueci!

10/09/2010

rostos

...há rostos que mesmo ausentes, estão sempre presentes!

29/08/2010

...folha em branco

…ainda tentei encontrar-te, por entre o ondular do estorno, mas o vento empurrava-me de volta ao mar, esse paraíso imenso de solidão que o sol reflecte como se um mar de prata se tratasse. Na riqueza do teu olhar, inspirei-me, e nos finos grãos de areia escrevi um poema de palavras que soçobraram com maré. Torrente imensa de pensamentos, que me afundou na leitura de um livro que o vento carregava, entre páginas e páginas de mistério e beleza. Abri a porta e no mais recôndito lugar da mente, comecei a premir tecla após tecla, o principio e o fim de uma singularidade.


Nas minhas divagações lunares, por entre cidades misteriosas e ruas silenciosas, o som dos teus passos imaginei ao cruzares as ruas de granito sufocante. Senti teu olhar luzidio nas sombras, foquei o gesto sublime e a doçura do teu percurso, rua acima por entre janelas que te contemplavam e portas que se abriam na minha imaginação.


Ficámos sentados, junto à esplanada na praça central e ali permanecem, entreolhando silêncios que se cruzavam com o lento caminhar das horas, que o tempo se encarregava de consumir. Findo o dia partimos, cada um para o seu recanto, silenciosos e dissimulados na multidão que varria agora as ruas desse lugar, cujo som ecoava no bater das teclas.


Eu fiquei. Apraz-me ver-te partir nem que seja em sonho. A despedida é algo que não se escreve, o mesmo sucede com a saudade. Imagina-se, sente-se mas não se transcreve. Ao longe, consegui discernir um último fôlego para o parágrafo final: um por do sol à beira mar numa folha branca cheia de nada. Apenas silêncio.

22/08/2010

...no final da estrada para Damasco

o dr. Alberto acha que o Passos Coelho vai dar um bom PM. eu também concordo, desde que não seja com essa proposta aberrante de remodelação [um adjectivo mais consonante com o radicalismo da pena do escrivão contratado para o efeito] constituicional, nem com a prossecução da política esfoliante de impostos que nos últimos anos me tem adelgaçado. a insistência nessa via pelo do vendedor de sonhos actualmente inquilino de São Bento, apenas ilude os seus prosélitos e todos aqueles cuja ignorância é douta sapiência.



depois de ontem ouvir o seu discursos analgésico em Mangualde, não ficam dúvidas que o país que espreito lá fora [enquanto engraxo os sapatos da nova colecção Outono/Inverno], está bem melhor do que aquilo que os números reflectem. ainda pensei que fosse um golpe de sol, mas não. eu estava era rodeado de areia numa praia deserta, repleta de fauna estival de espanhóis, franceses, brasileiros e outros tantos portugueses, e do céu choviam flores por entre nuvens de um arco-íris cor de rosa. o único senão era o vento que insistiam em desfraldar as folhas do caderno da economia, enquanto me deliciava com uma sereia que por passava.

refugiado das minhas curtas férias de floresta queimada e foguetório, sinto já o formigueiro das intermináveis filas de trânsito enquanto leio serenamente de pé no meu expresso do oriente, mais um livro que olfacto na livraria. já tenho uma mão cheia de títulos a salivarem na minha curiosidade [bastam dois para encher uma demão]: Diário de um homem supérfulo de Ivan Turgéniev e um título na língua materna, A Máquina de Fazer Espanhóis do valter hugo mãe. entretanto e depois de mergulhar no mundo de Cortázar, vou agora derrimir umas horas com a Sombra do Vento do Zafón. e de pasta de papel estamos resumidos, porque da outra, nem chama!

?voltando à nossa estrada para Damasco, questiono-me como é que em apenas 5 meses [o resumo deste ano para esquecer] o nosso ministro da fazenda vai resolver o endémico problema das finanças públicas? convenhamos, mais 13, 5 mil milhões de euros até o governo ir a banhos, é uma ópera bufa. não sei se temos tenores e barítonos com capacidade para transformar esta comédia burlesca em algo mais sério. entretanto, estendamos as nossa esteiras e ouçamos os bobos da corte enquanto prossegue a silly-season veraneante. começa a ser um lugar comum ver estas picardias de camisa com botão desapertado, em tom de pele morena e pelo ao vento, interrompida por uns breves mas caloroso aplausos mais motivados pelo copo de vinho e lasca de fêvera no dente, do que pela razão e lógica das palavras suadas.



pessoalmente, prefiro a envolvência de uma bela paisagem refugiado no silêncio de um amontoado de pedras envolvidas pelo tojo agreste que brota do monte. sinto-me mais esclarecido, com as pinceladas no céu, e com o vento que leva os sons ancestrais do trabalho do campo. entre o discurso político inquinado, e o arfar das notícias de época, sinto-me nais refrescado com o escorregar da água do mar por entre os canais que sulcam o areal. mas como tudo na vida, no momento seguinte abrimos os olhos e a tinta se esvai no último predicado, no último sopro de tranquilidade...depois basta abrir a mente, arejar durante alguns minutos e sentir os aromas a envolverem-nos num bailado de olhares cúmplices, enquanto o beijo sedutor nos empurra escada abaixo até ao precipício. no momento seguinte o despertador toca e o último click faz-se ouvir...

20/08/2010

..desfolhar a lua

Eu pronuncio teu nome

nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Garcia Lorca

....lettre à Sakineh

... juste un bref commentaire



... N'est-ce pas la première fois que l'inconscience du régime iranien viole les droits les plus fondamentaux des femmes. La douleur est grande et les visages s'attarder dans la mémoire de ceux qui souffrent quotidiennement de l'hostilité d'une politique de nommage rabougris par la poussière de l'ignorance.

 C'est un autre visage à écrire sur le mur de l'hypocrisie de ceux qui blanchissent le régime iranien?

18/08/2010

...ao fundo do túnel, um sonho

…entramos no sonho , como quem entra numa gruta em que apenas uma ténue luz ao fundo nos separa da realidade. Tal como no conto do Carol Lewis, tudo parecia grande tudo parecia mágico. Nas paredes, sonhos de crianças, paisagens bucólicas. Sentámo-nos e a rapariga do avental começou uma história interminável, por entre sorrisos e olhares que nos fascinavam em cada frase que irradiava. Sentei-me no meu silêncio e comecei a entrar num mundo aparte, enquanto folheava todos os livros da sua estante. Este li, aquele também, aquele gostava de ter lido. Lá fora o sol cintilava num campo de milho, cá dentro outro sol serpenteava pela sala enquanto a rapariga do avental saltitava de local em local, entre história e estória. Entretanto a sua irmã chegara, e com ela a maresia que ondulava nos cabelos que gentilmente segurava, como algas que a maré trás e leva. A tarde prosseguiu, e cada vez mais o sonho se adensava. São tão diferentes – pensei. Uma a serenidade de uma praia deserta, o som que o mar ao longe irrompe em espuma que o vento leva. A outra, uma explosão de cor verde sol que carrega aos ombros, enquanto voava em tons de imaginário irrequieto. Assim como o vento leva as nuvens no azul céu e faz cantar as folhas de uma primavera amarelecidas pelo calor do verão, assim ela saltitava da sua concha, descalça casa fora, de móvel em móvel à medida que o seu tom de voz enternecedor fumegava encantos que nos apetece ouvir até a noite cobrir o negro manto do seu olhar. Entretanto, lá fora o relógio da velha igreja cantava sinos de louvor. Era hora. Ao fundo no túnel já se vislumbrava numa espiral de luz, o fim de um sonho, mas antes um chá da tarde num pé de dança de risos e contos. Quando abri os lhos, a rapariga do mar já nos transportava foz abaixo, e com um longo abraço de mar deixou-nos numa baia de saudade que estou certo que um dia há-de voltar a aportar.

10/08/2010

...a ilha

Aquilo de que eu gosto no teu corpo é o sexo.
Aquilo de que eu gosto o teu sexo é a boca.
Aquilo de que eu gosto na tua boca é a língua.
Aquilo de que eu gosto na tua língua é a palavra.

Julio Cortázar

09/08/2010

...dantes quando o sino tocava

…estivessem as estrelas adormecidas no profundo sono da noite, ou o sol no seu ponto mais alto, o sino repicava insistentemente com a presença de um fogo no alto do monte. Os chefes de família logo tratavam de acordar os mais empenedridos na constelação de sonhos, ou o jovem pastor deitado em nos pensamentos à sombra do carvalho enquanto vigiava o rebanho que fazia das suas, na seara do vizinho. Era um tempo em que a entreajuda era lei e o clamor do sino a todos diria respeito, pois o bem de uns era tão importante como o bem comum. E lá iam monte acima apagar o fogo que alguém por leviandade ou por mera maldade teria iniciado. Nesse tempo, o monte era o agreste tojal que alimentava as camas dos animais, abrigo de rebanhos em tempos de escassez, e que em última instância seria o estrume que alimentava o pão de muitas bocas famintas. A floresta por seu turno era o guardião da vida, fonte de rendimento para muitas casas e calorosa companhia nas noites frias e húmidas de inverno. As fagulhas as pinhas alimentavam as conversas de serão e aquecia o coração desanimado de quem lutava pela vida e ansiava por um futuro melhor para os seus. As famílias eram numerosas, braços que ritmavam a terra no tempo das lavras, vozes que cantavam as desfolhadas e pernas que derramavam o vinho que matava sede e alimentava a alma. Era o tempo em que a ordenha era madrugadora, e o caminho trilhado descalços até ao posto do leite, eram as migalhas de farelo e a farinha do capoeiro. Esse ritual diário, ponto de encontro das moças namoradeiras vestidas com a melhor roupa, manto de longos olhares de corte e sedução, mas descalças. Quantas promessas foram cantadas, quantos poemas escondem as pedras que o inverno e a chuva amoleceram e moldaram nesse trilho que hoje percorro a pé. Eram os tempos da junta de vacas que vagarosamente lutavam “contra a mosca”, carregadas até à exaustão do milho e a carocha monte acima já noite dentro. Eram o tempo em que os pés descalços encaminhavam a água das poças no lameiro, em que uma toalha de de água escorria no verde prado de lima coberto de pequenas flores e sonhos.

Esse tempo acabou. Agora sobram os casebres abandonados, despidos de vida, rodeados de mato e silvedos. O sorriso das crianças de outrora ouvem-se ao longe, e nem o sino da igreja conta o passar do tempo como ontem. Sim, parece que foi ontem. Sobra o barulho dos carros ao longe, na estrada emergiu da vontade de alguns e que manchou a pacatez da aldeia. Ouve-se um ou outro tractor que diariamente leva o mato, e pouco mais. O fogo come a terra, e o sino já não dobra pela vida de outrora. Aparentemente tudo se perdeu no esquecimento, e já nada nem ninguém acorda da letargia em que o presente caiu. É triste quando o passado recente só se revive como uma fábula do antigamente. E isso vê-se nos rostos de quem conta. Ouve-se a tristeza em cada palavra. Já não há presente, apenas um “dantes quando sino tocava…”.

04/08/2010

...folhas soltas num banco de café

…ainda pensei urdir umas quantas linhas de alfarrabistas, já que ainda não me habituei a todas as subtilezas do Office 2010, mas enfim rendi-me aos benefícios de poder escrever sob o canto das estrelas e um mocho que não para de me saudar.




Hoje não esteve calor, calor é uma abstracção inventada pelos fabricantes de limonadas e gelados, digamos que hoje coagulei os meus pensamentos enquanto me deleitava com uma francesinha no café Vianna e um fino escorregadio, por entre palavras e ideias numa mesa redonda de escárnio e baixa política[nada de futebol!]. Calor, era lá fora, na zona dos chapéus & ementas que se perdem na tradução para francês corrente do bacalhau à minhota ou a vitela estufada com ervilhas. O barómetro estava de tal forma agressivo que um pombo rompeu as barreiras da decência e colou-se à minha mesa ávido por um pedaço de pão que ainda lhe deu luta, até que a empregada o enxotou porta fora, no meio de um choro de uma criancinha que viu nele o companheiro de brincadeira. Após o repasto, rua de Souto abaixo para dar uma mirada na Loja das Bananas [local de culto!] e mais uns quantos cliques na objectiva. De caminho, já o sol quebrava o ânimo serra acima. Chegados ao chalet de montagne, mais uns quantos hectares de floresta a crepitar. Estranho prazer para esses pirómanos que poderiam perfeitamente ter o mesmo fim que os infiéis e personagens desavindas nos autos de fé! Esses, muitas das vezes pobres inocentes de um desvio de razão, má fortuna os bafejou. Outros tempos, régia justiça. Curioso destino o meu respirar o mesmo ar e pisar o mesmo chão onde outrora, o Exmo. Sr .Juiz da comarca remetia para a forca.

Mas mudando de assunto, não tenho visto o que se passa pelo mundo, acredito piamente que ele também não esteja interessado nas minhas motivações, mas sinto um brilho de alívio por me sentir bem nesta plácida condição de extrema ignorância. Sabe bem, acordar sem pensar no que aí vem, sabe melhor ainda pensar que amanhã tenho um muro para pintar. Pode não ser tão interessante com sentir o repouso do mar num fim de tarde na Meia-Praia, mas é igualmente motivante sentir que cá dentro tudo corre bem. Lá fora, não sei. Ainda não folheie o jornal hoje e já se faz tarde. Amanhã logo vejo, consoante de que lado empurra o mar.


PS: parabéns Mano!