27/12/2011

...adeus 2011



...que forma sublime de te desejar a ti, Dantas um bom final de 2011. A paródia segue dentro de momentos! Até jazz....

26/12/2011

o 4uarto rei magro

Asdrúbal espera ansiosamente na estação de Massamá o comboio que não chegava com destino ao Rossio. Era assim todos os anos véspera de Natal, os 4 amigos já satisfeitos com sonhos e infinita generosidade intimados a percorrer mesmo caminho , rumo a Belém para adorar o residente. Quase 11 da noite e comboios nada. Apenas um fulano mascarado de Pai Natal com barba postiça a devorar uma sandes de ovo e punhado de carteiristas que fumam ao lado da máquina vandalizada. Sobram pacotes de M&Ms e Matutano com sabor a presunto pelo chão, mas nem isso demove o rafeiro que se aninha em redor da máquina. Está uma noite “bem escura, bem ventosa, bem fria e húmida”. Do comboio nada! nem o cheiro a lenha queimada, nem o palhaço ou o coelhinho de chocolate. Asdrúbal sentiu um arrepio de preocupação. Devia ter acabado aquela fatia dourada que Belchior não quisaer,e da preciosa carga que trouxera as mil e uma paragensapenas sobrara um precioso pacote de bolachas Maria. O seu amigo Álvaro (o simpático Álvaro que um dia disse Álvaro é o meu nome, sem ministro pelo meio) disse que estávamos em plena crise e havia que cortar nos gastos e trabalhar mais. Este era o seu trabalho, o seu modo de vida, todas as noites desde sempre, todas as véspera na noite de alegria,pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem, e dar-lhes coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, pelo menos até ao Natal seguinte. Um dos carteiristas abeira-se e oferece-lhe um cigarro em troca de lume. Asdrúbal empalidece com temor mas aquece aquela troca de olhares sinistra, com a chama do Zippo. O carteirista [temporariamente desempregado por falta de clientela] questiona-o sobre tão estranha indumentária ainda para mais, só numa estação em pleno dia de greve. Asdrúbal agradece, mas continua com o olhar fixo no relógio cujo ponteiro dos minutos parou no tempo. Tantas horas perdidas e podia ter apanhado um táxi directo para Belém. A esta hora provavelmente já Belchior, Baltazar e Gaspar se banqueteiam na Pensão Estrelinha por entre as couves a emoldurar o bacalhau comprado na merceearia do bairro. Se calhar, já foram a Belém entregar a encomenda que chegou hoje de manhã pela DHL e em Belém, alguém já faz pesa o ouro prara trocar amanhã na loja nova da esquina.. Por tradição só depois é que seguem juntos até à paragem do 28 rumo ao Oriente e dai para o Natal seguinte. Farto daquela solidão exasperante Asdrúbal acerca-se do fulano do fato vermelho que já balanceava o saco do Continente com uma exasperante impaciência. Então amigo, que faz por aqui a estas horas? Já deu de comer às renas e agora descança? O dito puxa da barba que lhe atrapalhava a respiração e num hálito impronunciável repele: a puta que os pariu! Asdrúbal é fulminado por este amargo de boca por entre um esgar de rancor. O contrato falava apenas num dia com direito a duas horas para pausa de almoço e jantar, mas em vez disso, colocaram-me em frente à escada rolante sentado numa cadeira e obrigaram-me a vender um cd com a Leopoldina e a tirar fotografias com uma Popota. As pobres das criancinhas até fugiram de mim. Assim não vale a pena. E nem pagaram o almoço. Fomos todos enganados, eu as crianças e os pais que cairam na ilusão de tamanha bondade. Não admira que hoje em dia eu me sinta um fantoche, um boneco que é pendurado nas varandas. Noutros temposeu circulava no Rossio e nos Restauradores e elas vinham ter comigo. Hoje exigem o 9.º ano e uma carrada de papéis com o número da segurança social, o número do contribuinte, e o diabo que os carregue. O pobre homem continuou a carpir blasfémias, mas a noite tudo silenciava. Noite Feliz, dizem. Fazia-se tarde e Asdrúbal tinha que optar entre continuar a ser sondado pelos carteiristas ou fazer-se à estrada. Desceu as escadas e depois de levantar algum dinheiro no Multibanco ao lado da bilheteira fechada e acordou o taxista que lia a Bola num sonho de extremo cansaço. Para Belém! que já estou um bocado atrasado. O Mercedes lançou-se a toda a velocidade pela IC19 apinhada de famílias felizes apinhados de prendas e caixas de bolos que tronavam o aroma da noite tão doce como oum céu estrelado. Nem mesmo um trenó seria mais rápido com todo aquele trânsito. A conversa no táxi foi a mesma lengalenga estafada de sempre: a troika, os chineses da EDP, os malandros do Governo, os corruptos e os ladrões disfarçados de banqueiros e o fogo de artifício do Alberto João. Ainda houve tempo para aquele cliché do meu tempo era assim, no meu tempo era assado, frito cozido e grelhado. E tão depressa como a conversa se esvaziava nos lamentos da falta de dinheiro da clientela, a bandeirada aumentava, de tal forma que foi necessário antecipar a paragem. Sobravam 0,12 € na bolsa, ainda o suficiente para comprar uma acção do BCP. Agora eram só mais uns metros ao longo da Rua da Junqueira. Nada que um camelo não fizesse de bom grado. Belém já se via ao longe, agora com menos iluminações de outros tempos, apenas umas pequenas grinaldas de luz compradas na loja do chinês penduradas nas janelas de madeira dos casarios antigos. Asdrúbal seguiu a passo acelerado, quando de repente é interceptado por uma voz. Esmola! Esmola meu bom senhor para um pobre desempregado do ramo da sucata e cheio de fome. Asdrúbal detém-se por momentos, e perante o tormento não resistiu pegar nas poucas moedas que sobravam da desvalorização em bolsa e encheu a mão do pobre vulto, queimada pelo frio. Tome estas! São poucas mas certamente com algumas bolachas que aqui trago são certamente o melhor que lhe posso dar neste momento. Obrigado caro amigo, noutros tempos dar-lhe-ia uma caixa robalos ou um presunto, mas neste momento de aflição só lhe posso agradecer. Asdrúbal sentiu um aperto no coração mas seguiu em frente. Passou o pórtico de saída da Rua da Junqueira e entrou na Praça de Belém onde já o clamor de uma multidão se detinha à pota do antigo Museu dos Coches. Era uma manifestação de descontentes, jovens anarquistas e avaliadores de acidentes de viação, numa orgia de megafones e cartazes com reptos anti tudo e contra nada em concreto. Era quase meia-noite e já o galo avisava a luz que se aproximava. Asdrúbal questionou um grupo isolado sobre o motivo da manif e logo foi bombardeado com um discurso acalorado sobre Keynes, o fim da liberdade, e a tirania do poder económico sobre débil donzela democrática, o blá, blá típico do Facebook e do Twitter mas com litrosas e ervas aromáticas enroladas em papel de arroz. Já se fazia tarde e a missão obrigava a atalhar as questões sociológicas. Depois de tocar á porta, o sinete deu lugar a uma voz colocada “Obrigado por ter tocado, mas os serviços encontram-se fechados. Por favor visite-nos nos dias úteis no período entre as 9 da manhã e as 17 horas da tarde. Esperamos por si. Tarde demais, e lá na pensão o bacalhau já devia estar frio. Asdrúbal sentiu o desânimo de quem não conseguiu cumprir a sua demanda. Certamente que os serviços das Finanças não iriam deixar em claro este esquecimento, e o facto de não ter dinheiro para pagar a passagem pelo pórtico da Rua da Junqueira sem o aparelho da Via Verde ia pesar na multa a aplicar. Talvez se tivesse dado o pacote de bolachas ao pobre homem deitado na amargura da calçada fria fosse um bom investimento e acções acabassem por subir? Ou se tivesse permanecido mais tempo com os jovens indignados tudo fizesse mais sentido depois de uma baforada daquele tabaco com um sabor estranhamente cativante? Certamente que a companhia do Pai Natal enganado seria a melhor forma de recordarem outros tempos em que o Natal tinha outra vivência, e por momentos se sentissem úteis ainda que por poucos dias. Quem sabe se o taxista não poderia ter perdoado aqueles últimos metros e a bandeirada por momentos ficasse congelada no limbo? Apagou o último cigarro que sobrara e desligou o IPAD. Para o ano será diferente, ou talvez não!? Talvez para o ano saia um modelo novo, e quem sabe em vez de um pacote de bolachas possa oferecer uma caixa de bombons?

24/12/2011

Feliz Natal

 Feliz Natal para todos!


27/11/2011

...ovos-moles



Dei por mim esta semana a olhar atentamente para a única moeda de um escudo que escapou à purga anti escudo. Refugiada no bolso de um fato, acompanhou as dúvidas dos primeiros meses, sobreviveu às réguas de cálculo e demais conversores da moeda nova, aguentou o embate de sucessivos governos e desgovernos e só acompanhou de perto a euforia transformar-se rapidamente em desilusão. Vou guardá-la. Não pelo valor facial, mas pelo valor simbólico mas sobretudo pelo valor sentimental que me faz despertar. Fomos felizes e tínhamos os pés bem assentes na terra, quando decidimos aventurarmo-nos nessa coisa estranha chamada Euro. Hoje caímos na realidade. E que tombo.

Esta semana houver greve geral. Deu-se por ela, não obstante a previsão optimista e atabalhoada do Governo sobre a adesão. Fiquei na dúvida se por detrás de cada cabide ou por debaixo de cada cadeira haveria um agente infiltrado ou sensor de peso, tal era a minúcia e rigor da percentagem apresentada. Eu acho que ninguém minimamente consciente pode ligar à má vontade do Governo ou ao optimismo desconcertante dos sindicatos. Houve greve geral e ponto final. Qualquer Benfica-Sporting ou vice-versa teria mais efeito sobre a quantidade de sofás cheios e cadeiras ocupadas na casa dos portugueses. E venham elas, pois aqueles que ainda trabalham bem agradecem…há menos filas de trânsito e acaba por ser um dia bastante mais calmo.

O debate sobre o estado débil Eurocrise, prepara-se para atingir proporções cataclísmicas caso a Itália ou mesmo a nossa querida Espanha venham a necessitar de uma ajudinha extra. Dado que aquelas reuniões aborrecidas de croquetes dos G20, e o ménage à deux Merkozy já foi chão que deu uvas, proponho que se crie em sua substituição um Clube Europeu do Lixo, Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e provavelmente…bem deixemos por agora o grémio a cargo de apenas 5 potências desacreditadas que há tempo para novas aquisições. Agora mais a sério, a colocação do “Super Mário” Monti pela Sra. Merkel à frente dos destinos da bota italiana acabou por ser uma vantagem para nós, já que vamos poder comprar antes do Natal o novo disco de canções de amor do caro Sílvio Berlusconi (em opção as aventuras sexuais do Mr. Dominique). Outra grande vantagem para Portugal acabou por ser o alívio da pressão dos mercados e das empresas de rating, por pouco tempo é certo, já que bastou o Senhor de Massamá e o biltre das Finanças traçarem o quadro macroeconómico do OE2012 para que passássemos de lixo vulgar a lixo compostado. Desta vez não podem vir com a desculpa ignóbil que tal se deveu às críticas ou comentários do líder da oposição. Vejam só, até as empresas de rating chinesas já quase nos comparam com os seus produtos especiais, a ASAE que o diga.
Por falar em oposição, sinto-me inseguro em traçar um perfil politicamente claro face ao vazio doloroso que se assiste lá para as bandas do Rato. Sinceramente ainda não entendi bem qual a estratégia está a engendrar, mas talvez o senador Mário Soares esteja mais bem informado, tal a sucessão de intervenções sobre tudo e sobre nada. Ainda não alcancei o significado da tal “abstenção violenta”. Provavelmente deve ser algo relacionado com o que alguns energumes do Sporting fizeram ontem no campo da Luz? Ou talvez aquela manif de indigentes e pobres diabos em frente á Assembleia da República? Ou será que que a violência está relacionada com a actuação proporcionada daqueles senhor camuflado com um cassetete sobre o pobre do alemão anarquista com cadastro violento?
No final, mesmo no fundo do tacho depois de lambida bem a pedra, resta-nos a sopa de letras, servida com uns robalinhos, uma alheira à transmontana e um pão-de-ló como sobremesa. Ainda bem que o julgamento Face Oculta se desenrola em Aveiro, pois enquanto o país se afunda em folgas e almofadas e em negociatas de terrenos, ainda nos resta os ovos-moles para saborear com prazer, estes dias finais de um ano para esquecer
É este o nosso triste fado.

PS: agora que o Advento começou, talvez tenha chegado a hora de darmos o nosso contributo para aqueles que nada têm ou muito necessitam. Eu já dei o meu contributo.

Listagem de IPSS http://www2.seg-social.pt/preview_documentos.asp?r=31553&m=PDF

Cáritas Portuguesa http://www.caritas.pt/site/nacional/

Banco Alimentar http://www.bancoalimentar.pt/

25/10/2011

..o Jardim das Delícias Terrenas



...tal e qual. Não um simples Stenway & Sons em plena de queda de graves, mas antes um partitura completa de eventos numa simultaneidade que deixa pouca margem para qualquer tipo de manifestação de alívio. De repente o décor que transfigurava a cena em palco, transforma-se numa réplica do Jardim das Delícias Terrenas (do saudoso Bosch) em que na ténue linha que separa o eliseu imaginado caminha agora vagarosamente uma personagem com o semblante toldado pela dúvida. Que passo dar, que rumo seguir?




Demasiadas dúvidas, incertezas que esmagam qualquer expectativa. A longa espera que incinera o ânimo arrastado pelas gotas que do céu caiem, como lágrimas de uma tragédia imaginada.




Talvez ainda não sejam os dias do fim, mas antes o princípio de fim de uma história. O tempo o dirá.



photo by: KVirtanen








20/10/2011

...simbiose de talentos


Straight from the Heart from Teresa Vila Verde on Vimeo.


...adorei Teresa! Superou as minhas melhores expectativas! Dar-vos os parabéns é pouco...tem tudo! a performance servida sobre a forma de autobiologia em que a arte se despe e expõe, de forma crúa, bela e única. Espero que esta seja a primeira de muitas simbioses com a Sofia, encantadora de olhares. O toque da Sofia traz ainda mais poesia à imagem. Palmas de pé. Bravo.

16/10/2011

…uma empada & uma bica sf.f.



PS: a imagem que se segue pode ferir ou provocar ardor a alguns contribuintes mais susceptíveis...

Acabado de aterrar em Portugal no aeroporto de Beja (a viagem mais barata que encontrei para sair de Heathrow!) veio-me à ideia o porquê de construírem um aeroporto em pleno deserto de searas e olivais regados. Estranhei o facto de não existir gente que se preze na fronteira terrestre, nem um follow-me que se dignasse a dirigir o avião à manga que também não existia, aliás não vi nenhuma alma, apenas um rebanho de ovelhas pastoreava o restolho.

Depois de meia hora à espera de uma mala que tardava a chegar à passadeira que não rolava, enfrentei nova fila na esperança de alugar um táxi que me levasse até Lisboa (o meu destino final). Cansado de esperar fiz-me à estrada, e percorri a terra sonâmbula durante algumas horas.

Passado o desnorte por tudo o que me aconteci [já para não mencionar o jet lag na inteligência!] lá consegui entrar numa carruagem vazia que circulava no metro do Porto. Fiquei atónito. Depois de vir apertado no avião com tantas cadeiras vazias, mais uma dezena de lugares à escolha cada um com melhor vista para o granito em que se transformara a minha decepção. Ainda pensei que fosse feriado, enquanto olhava as ruas apinhadas de vultos assombrados que desciam a Rua de Santa Catarina.

Chegado à estação do Poceirão entrei no café da aldeia para uma bucha rápida e pedi uma bica e uma empada de galinha. Estava com um aspecto absolutamente convidativo.

Sentei-me no balcão e olhei para a pequena televisão com box da Meo. Lá estava ele,o rapaz com um ar austero. Disse com um tom perturbado: "Portugueses, boa noite"

….o resto já se sabe!

Estarei eu no local errado à hora errada ou foi imaginação minha? Não. Decididamente não devia ter pedido a bica e a empada de galinha.

Refeito do murro do estômago, continuei estrada fora, e depois de alguma hesitação entre entrar em Lisboa via SCUT ou a nado, optei pela entrada norte via Ponte Vasco da Gama. Tenho um primo que é portageiro lá e consegue umas borlas. Dito e feito. Cheguei a casa tarde mas a senhoria não deu por mim. Óptimo.Mais uns dias de alívio antes de vir pedir o pagamento da renda.

Hoje manhã cedo, o rádio acordou-me com as noticias frescas do dia anterior. Uma multidão de resignados e indignados foi fazer truka para as escadas da Assembleia da República e entre megafones e cartazes, ouviram-se pregões de outros tempos. Ainda pensei que estivesse a sonhar com o PREC, mas não. Parece que se tratou de uma plataforma multinacional,multipartidária de gente diversa e algumas caras conhecidas, que devido a um aumento de capital passaram de geração rasca a mais prosáicos indignados. Maldita empada de galinha, antes um prego com uma imperial, isso ou um pedido de desculpas do Primeiro-Ministro pelo meu enjoo, que se mantém, apesar do kompensan.

Não bastasse má fortuna de este ano ter meio Natal, nos próximos dois anos alguns de nós não têm Natal de todo, nem férias no Allgarve ou lado algum. Aliás não têm nada, só aumento de impostos. Os que talvez tenham Natal e/ou férias vão trabalhar mais meia hora por dia, e dizem que isso vai contribuir decididamente para o aumento da produtividade e compensar a descida da TSU.Acreditamos sinceramente com toda a fé. É nisso e no Pai Natal.

Ainda não imaginei o alcance da tal meia hora, nem o alcance dos 3 mil milhões que o Governo não vai gastar com a cativação dos subsídios (politicamente falando trata-se da tal redução da despesa pública que todos os sectores da vida pública exigiam; querem cortes na despesa, ei-los!).

Mas não deixa de ser coincidência esta conversa de milhões ter algumas dissemelhanças com aqueles primeiras notícias do buraco do BPN que não iria afectar de todo o Estado ou os particulares. Em suma, a velha conversa fiada de sempre do cú com as calças. Juro. Qualquer coincidência entre as temas é tão ficção como a dívida encapotada do Sr. Alberto.

Depois de algumas águas do Castello [passe a publicidade], ainda mal refeito da maldita empada lá ganhei coragem e enfiei a família no centro comercial a passear o cão nas montras e aproveitara borla do ar condicionado. Eu não sai, nem para aproveitar o desconto na Repsol. Estou a tentar poupar para os cortes e acréscimos que ai vêem, tem de ser. Alguém tem que pagar as energias renováveis, alguém tem que tapar o estranho [???] défice energético da EDP.

Core tier 1. Gosto deste estrangeirismo. Faz-me lembrar gravatas e bancos. Eu acho é que eles não gostam nem do termo, nem da solução, nem dos 12 mil milhões de euros que andam para aí! É como o programa de emergência social, tem o mesmo saboramargo que as medidas do défice que ele não pariu.
Perguntam: "Como foi possível acumular tantos erros e acumular tantos prejuízos?". Fácil!. Não existe moldura penal para punir os culpados. Mas também não parece existir grande vontade de a formular.

Eu devia sair, parece que os combustíveis vão aumentar 1 a 2 cêntimos amanhã. Volto já.

lembrei-em agora que deixei o casaco no aeroporto. Sabiam que o aeroporto de Beja foi projectado para estimativa de um milhão de passageiros em 2015 e nos primeiros 4 meses de funcionamento apresenta o curioso número de 44 voos com um média de 18,1 passageiros/voo. Custou a módica quantia de 33 milhões de euros e uns cêntimos de ilusão. Ora aí está uma boa forma de o nosso Ministro da Ignomínia sair da toca onde se arrependeu, e apresentar uma boa alternativa para aqueles barracões. É uma pena, a paisagem em redor até é bonita, um bocado diferente dos casas desarrumados de Camarate. A sério.

Depois de meditar sobre a empada de galinha cheguei a uma conclusão óbvia sobre o momento periclitante que vivemos, ouçamos a minha Lição de Sapiência:

- Não é pelo facto do Isaltino preencher requerimentos atrás de requerimentos no Tribunal Constitucional para protelar a sua prisão, que o Alberto vai deixar de ensaiar números de circo ou que o Sr. Coelho vai deixar de andar com a vassoura atrás a fazer figura de parvo.

- E também não é pelo facto de estarmos a presenciar o maior roubo desde a queda da monarquia que o Comendador vai arranjar um pavilhão na Plataforma Logística do Poceirão para armazenar a sua colecção de Arte Moderna.

O problema é que, em vez de uma empada de galinha e um café devia ter pedido a sopa do dia que ficava mais barato. Isso sim.

Mas confesso. Fiquei com o coração desfeito [ainda tenho!] ao ouvir o bispo vermelho emérito D. Martins a profetizar uma espécie de apocalipse agora com manifestações, rebentamentos e sangue. Descansei quando fui reler o Canto IV dos Lusíadas. O D. Martins peca pelo exagero da figura de rastilho que emprega na sua crónica. O Velho do Restelo é que tinha razão, ainda que a espaços, fique com impressão que até o Velho do Restelo nos dias de hoje é bem mais optimista do que o nosso Ministro da Fazenda ou o responsável pela redacção dos discursos do Primeiro-ministro.

Depois de um café em casa [aproveitando o facto do IVA ainda não ter subido decidi comprar um carrinho de compras do lote arábica e timor à loja do Sr. Belmiro que dá super descontos aos tansos e entrega os impostos na Holanda para fugir ao fisco português; gesto patriótico] retemperei a boa disposição pelas páginas dos jornais e descobri coisas tão desinteressantes como as personagens do Secret Story ou o Peso Pesado [pausa para vomitar!]:

- Para além de existirem 99% de indignados a esta hora em Wall Street, parece que há um antigo secretário de Estado responsável por um negócio ruinoso de 600 milhões de euros com uma construtora e curiosamente está neste momento na Comissão de Obras Públicas. Más-línguas! - pensei.

- Foi descoberto um buraco de 200 M€ no Fundo de Pensões dos Trabalhadores do Santander-Totta resultado de algumas operações em fundos de futuros. Trocos!- retorqui.

Pior do que a digestão da empada de galinha, é imaginar que afinal de contas surreal é imaginar que isto tudo se resolve com meia hora a mais de trabalho ou cortar nas prendas das miúdos e nas férias no areal. A solução é continuar a filosofar, nem que seja com croissants.

Como diria o Mário Zambujal, longe daqui é que se está bem. Piores dias nos esperam.

Post-morten: desenganem-se aqueles que pensam que calças com boca-de-sino e colarinhos do tamanho de asa do avião estão fora de moda, com orçamentos familiares da década de 70 e encargos de séc. XXI, haja coragem para voltar a usar sapatos de tacão alto para elevar o ânimo. E vivam as marmitas.

13/10/2011

...estais cegos!

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.

Padre António Vieira, in "Sermões"

09/10/2011

...a relatividade de Escher


Produtividade, S.A.

A certa altura podemos questionar se o facto de na Constituição indicar que o SNS é universal e tendencialmente gratuito (idem para a Educação), impede que alguns serviços não possam a ser comparticipados. Aparentemente, é o que está previsto vir a acontecer. Isso não implica que a Constituição tenha de ser alterada, aliás, uma coisa que a Constituição não prevê nem aponta é para a continuação dos desperdícios, isso sim é que é lamentável

A Constituição matematicamente falando define conceitos abrangentes, médias, máximos denominadores comuns, e o diabo a quatro. Num país onde abundam, livros brancos, livros verdes, recibos verdes que eram azuis e agora são electrónicos, nuns pais já tudo foi estudado, e o que não foi estudado necessita de ser repensado, é caso para dizer, crie-se uma comissão para estudar o caso. Ou então mude-se a constituição, que apesar de sermos uma democracia imberbe, já foi modificada 7 vezes!

O motivo atendível foi uma espécie de persona non grata do famoso programa de Constituição que o PSD pretendia ver discutidas. Depois de enxovalhada na praça pública, e envergonhadamente colocada na gaveta, o Governo volta à carga com algo bem mais maquiavélico, a falta de produtividade e a inadaptação ao posto de trabalho. Todos sabemos que se há conceito abstracto e ardiloso, é a adopção de metas de produtividade.

Tomemos por exemplo o Sr. X que trabalha no Cemitério de A-dos-Aflitos. O sr. X consegue aviar 5 clientes/dia (abertura da cova com enxada, entrada do caixão com auxílio de corda de nylon já com algumas emendas e cobertura final com terra e acabamento final). A câmara municipal de A-dos-Aflitos vê-se compelida a privatizar o serviço público que providenciava (devido a uma alínea do acorda da Troika) e transfere essas competências para a empresa privada de um primo da secretária de vereador do urbanismo da Câmara Municipal. Mudança radical de paradigma. A nova empresa estabelece que o Sr. X para rentabilizar todos os encargos e gerar uma margem que proteja o corpo accionista, necessita processar 8 clientes/dia e vê o seu horário reduzido em duas horas por dia, bem como o ordenado que leva ao fim do mês cuidadosamente aliviado na mesma proporção. Mas nem tudo é mau para o Sr. X. A nova entidade gestora oferece agora um seguro de saúde, para o qual é descontado parte do ordenado do Sr. X (até pode descontar mais tarde no IRS!!) e assim, deixa de ser necessário faltar ao período da manhã para ir para a bicha que se forma à entrada do centro de saúde À espera de uma consulta d urgência ou para uma marcação de uma consulta para um dos dois médicos de família que ainda dão consultas. O Centro de Saúde deve fechar nos próximos meses, estando os serviços a ser concentrados no hospital distrital que fica a 54 km. Já ali, mas antes há que atravessar a serra pela estrada municipal que não vê obras de reabilitação desde o século passado. O sr. X só tem motivos para sorrir e aumentar a sua produtividade. Tem é que despachar 8 clientes.

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Madeira shaken, not stirred

Hoje há eleições na Madeira. A Madeira é uma ilha, ou antes um arquipélago. Aparentemente tem um buraco. Em termos matemáticos o Buraco nas contas da Madeira é qulquer coisa como o buraco da empresa pública REFER. No caso da REFER, por norma, quaisquer desvios e gastos excessivos são imputados aos maquinistas e em menor proporção aos vendedores de bilhetes (estes pelo facto de serem invariavelmente antipáticos!). No caso da Madeira, será difícil apontar bodes expiatórios, pois a haver “não renovações ou reformas compulsivas” seria necessário um comboio humanitário de milhares de madeirenses para o Continente (que ninguém quer!) ou então preparar as ilhas desertas para albergar uns quantos milhares de pessoas, incluído o chefe da banda e o director do Jornal da Madeira. Também há a opção de alugar uns quantos barcos a remos ou reduzir para metade as tarifas aéreas da para a América Latina. Ainda assim penso que a melhor opção é mesmo deixar os madeirenses resolver o seu problema…mas com os devidos cortes nas transferências do Continente por forma a contrabalançar essa aptidão irascível para gastarem mais do que podem e devem.

PS: alguém acha normal as empresas públicas madeirenses transportar eleitores em dia de eleições? Se existe alguém atirem-lhe a primeira pedra!

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A importância de se chamar Álvaro

Temos a felicidade de ter um Ministro simpático da pasta da Economia que se chama Álvaro. Apenas Álvaro e não mais do que Álvaro. Não foi escolhido pelo facto de ter editado um livro “Portugal, na Hora da Verdade (Gradiva, 2011), passe a publicidade mas porque tem um je ne sais quoi de Steve jobs da economia: visionário e sanguinário, e alguns apóstolos no Conselho de Ministros.

“Na política de transportes quase tudo terá de mudar” dixit. Só foi pena ter-se esquecido do Plano Estratégico dos Transportes em casa e ter vindo com a famosa conversa do 31 de boca. Mas adiante. Concordo com todas as opções tomadas, mais fusão menos fusão a confusão, desde que se acabe com a confusão nos transportes e com as regalias injustificadas. A parte triste da história é mesmo não existir desde a década de 80 do século passado uma abordagem séria aos transportes em Lisboa e Porto bem como no resto do País. É que pode não parecer mas Portugal também é para lá de Lisboa e Porto.

Conselho: amigo Álvaro da próxima deixe as cópias a cores do power-point e leve o Ipad, de certeza que vai fazer um figurão. Desta fez fez apenas má figura.

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Manif

…eu queria falar sobre as manifestações violentas de hordas de hunos da CGTP-IN e alguns UGT disfarçados de avó da capuchinho vermelho mas o Alberto João Jardim entrou aqui na redacção e disse que “Não queremos comunas aqui!…». Fica para uma outra oportunidade quando o Alberto João estiver a enxovalhar os deputados da oposição e o Presidente Cavaco no quarto de hotel a ver o Panda Biggs.

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Paradoxo de Escher

Este holandês apaixonado pela matemática foi mestre na criação de realidades impossíveis. Da mesma forma com a mesma argúcia, o nosso Governo está refinado na desconstrução de toda a lógica socialista das últimas décadas e paulatinamente tem vindo a criar a realidade utópica e insustentável de sobrepor na mesma receita: recessão e crescimento económico. Falar em cortes, sobrecarregar a carga fiscal restringir o crédito e desincentivar o consumo é tão benéfico para economia como um chapéu-de-chuva em pleno deserto. Aliás, o chapéu ainda faz alguma sombra…

06/09/2011

24





Desde que o Governo da nação tomou posse, ou melhor desde a primeira conferência de imprensa que o nosso “autómato” ministro da fazenda agendou, a sucessão de boas notícias inflamam os espíritos mais comburentes da nossa massa sindical. A cada medida corresponde um episódio ao melhor estilo 24. Só ainda não entendemos quem interpreta verdadeiramente o papel de Jack Bauer, pois todos os ministros actualmente (e ainda) no activo se comportam como corsários da pior cepa. Já não sei qual das medidas mais dolorosas, se a alteração dos escalões de IRS, o corte no remanescente do subsídio de Natal ou se o aumento de IVA na electricidade (não utilizo gás natural, pois não vou em barretes!).O certo é que a sucessão de más novas é de tal ordem, que já começo a antever um final ao velho estilo technicolor Gone with the Wind…e no fim morreram todos, menos a jovem Scarlett O’ Hara. Também neste particular não sabemos bem quem desempenha o papel de Scarlett mas pressinto que seja a jovem ministra da Agricultura.
Entretanto e com óbvia mudança de paradigma, o eternamente jovem Seguro desempenha agora o papel ingrato de virgem arrependida face ao caos deixado pelas forças do mal do império cor-de-rosa. É notoriamente difícil desempenhar o papel de líder da oposição quando parte significativa das medidas duras aplicadas pelo actual executivo a mando da omnipresente troika, o tornam cúmplice signatário e co-responsável em primeira mão, apesar da assinatura ser do outro que decidiu tornar-se filósofo de café em Paris.
«Em Portugal, há direito de manifestação e à greve, direitos que estão consagrados na Constituição e que têm merecido o consenso alargado em Portugal. Não confundiremos o exercício dessas liberdades com os que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal». Não fui eu que disse, foi o actual primeiro-ministro. Isto faz dele:


1) Um opressor dos direitos dos trabalhadores e restantes afectados pelas medidas chatas em começar a estilhaçar vidros de multinacionais como a McDonalds, Hugo Boss, Louis Vouton, Calvin Klein, Armani, Burberrys e Adolfo Dominguez?
2) Um repressor dos direitos dos trabalhadores e restantes desgraçados pelas medidas impostas, de incendiarem mercedes, bmw e audi dos ministérios do Terreiro do Paço?
3) Incentivador de manifestações pacíficas aos fins-de-semana no parque Eduardo Sétimo com Tony Carreira ao vivo, sardinhas assadas, sandes de torresmos e couratos regados com cerveja Sagres?



Escolha a sua opção.


Mas não deixa de ser piada, pois um dos remoques diversas vezes utilizado pelo PSD em tempos remotos de oposição foi a aparente asfixia democrática e o medo que o anterior executivo imprimia sobre tudo e todos, a começar pela empregada do quarto do sr. Strauss-Kahn. Talvez esteja enganado mas isto tem um nome: tiques pidescos!


Querem revolução, querem tiros e puxões de cabelos? E que tal começar por fundir freguesias desavindas e “mini” concelhos, e colocar um fim á eternização de alguns caciques do poder local e regional. O Francisco Louçã numa das suas raras aparições, no alto da sua azinheira, gritava esta semana que era necessário um novo 25 de Abril. Caro Dr., estamos em Setembro. O que é premente é mesmo um 11 de Setembro á nossa moda, com muito alho e orégãos.


Mas antes, talvez não seja má ideia consultar a frau Merkl pois está visto que tal como ontem, hoje é necessário uma avalização superior.



Tenho uma dúvida e necessito de uma resposta para um enigma:
Entre uma lipoaspiração do Estado e um transplante de fígado do nosso Ministro da Saúde, qual optaria? Ele já disse que se lixe o tipo do transplante mas mesmo assim contínuo com séries dúvidas se o seu colega Gaspar não optaria antes por mudar a taxa de IVA do leite com chocolate como o seu antecessor pretendia!


Fazendo um saltinho para o assunto fétiche do Expresso, começo por afirmar sobre compromisso de honra que não pretendo integrar os quadros da Ongoing nos próximos meses, no entanto gostaria de saber aonde reside o Segredo de Estado invocado pelo Sr dos Passos, depois do pedido ultra-rápido para investigação urgente ao caso das escutas do jornalista. Estaremos nós à beira de um mini Watergate à portuguesa ou só um mero caso passional? É que se o caso era só o facto da mulher do outro ter estado casada com um bem sucedido empresário madeirense estou mais descansado! É sinal que os nossos serviços secretos estão a trabalhar para a segurança efectiva do Estado.


Decidi que não iria utilizar o termo colossal nesta crónica de bons costumes, mas o raio da palavra enche-me as medidas cada vez que olho para as primeiras páginas dos jornais ou leio os artigos de alguns spinners e fazedores de opinião. Eu diria que há muito boa gente que ainda não tirou os presuntos de cima secretária e andou pelo país a ver a miséria que abunda. E depois não me venham falar em sacrifícios repartidos por todos, ou impostos solidários. Tretas.


Alguém sabe como é que está o resultado do jogo boys do PS que saíram vs. Boys do PSD e CDS que entraram?

Hoje foi um dia bom: ainda não aumentou nenhum imposto, o último foi ontem como preços do gasóleo. Mas hoje não, apenas um hipotético imposto sobre a “fast-food”. Folclore.

Eu gostava de criticar as últimas alterações nos escalões de IRS, mas a impeditivos de ordem moral impedem-me de o fazer. Eu tal como o Américo Amorim sou um mero trabalhador.
E para terminar, se a troika “versão banca” começar a ver as gavetas fechadas à chave ou os processos “debaixo do tapete”, será que mesmo assim os nossos bancos vão sair incólumes? Esta e outras questões dicam para o próximo episódio 24.

03/09/2011





Num impudor de estátua ou de vencida,

coxas abertas, sem defesa… nua

ante a minha vigília, a noite, e a lua,

ela, agora, descansa, adormecida.


Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,

meu olhar desce aonde o sexo estua.

Choro… e porquê? Meu sonho, irreal, flutua

sobre funduras e confins da vida.


Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos…

enquanto o luar a numba, inerte, gasta

da ternura feroz do meu amplexo.



Cantam-me as veias poemas nunca feitos…

e eu pouso a boca, religiosa e casta,

sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Régio


photo by: Luis Mendonça

08/08/2011

...notas em C maior

Cheguei. mal sai do carro corri para ver a avó. lá estava ela sentada junto á lareira, a cozinhar as conversas do dia. depois de desarrumar as malas pela casa, fui dar uma volta e respirar o monte, lá me baixo o resto do mundo. quando era pequeno pensava que o mundo acabava para além dos montes lá o longe. era um mundo ao alcance do olhar. o meu mundo começa no campo de milho, e terminava lá em baixo na quinta que os da casa viviam na jorna.

Cedo, bem cedo desci o monte e quando entrei já o abade estava atrasado. as moças de cá cantam mais alto, com adoração. permaneci no fundo da igreja encostado ao portão de madeira velha, ao meu lado os grãos de arroz do último enlace. não pude deixar de sorrir quando o senhor abade dedicou parte da homília ao jovens, esses jovens que esquecem o próximo, que esbanjam o tempo em concertos a ouvir essas músicas demoníacas, esses ritmos infernais. senti o libelo acusatório a passar ao lado dos pobres de espírito e atingir aquele pecatori que ali jazia. ainda pensei esculpir na parede de granito o mea culpa, mas depois lembrei-me que ainda tinha o john coltrane para exorcizar os tais ritmos do demo.

Chove, mas mesmo assim segui estrada fora por entre rios de suor que desciam serra abaixo. em redor da albufeira o silêncio. apenas quebrado pelo ondular das folhas e o bailado que o vento ondulava no plano de água. na vila, um punhado de rostos á porta da tasca. olham vagos para o céu que não dá tréguas. agosto, dizem. duas moças apressam os passos com os sacos de pão e hortaliças. entrei no café, ao som do pequeno rádio a pilhas e pedi o costume e um jornal. ao meu lado escreviam-se as notícias do jogo d’ontem, na pequena grafonola, o tipo que mamava nos peitos da cabritinha.
- quanto lhe devo?
a senhora sorriu enquanto ainda pingava uma gota de bagaço no copo vazio ao meu lado. senti o aquele cheiro misto de madeira velha e álcool embriagado.
- são 3,65!se tiver trocado agradeço.
paguei com as poucas moedas que sobraram ontem da festa, depois de uns tiros certeiros. no jornal, o sporting perdeu. novamente.
sai e ainda chovia, e no regresso o mesmo silêncio inundava o pára-brisas com aquele som de outras estações do ano. devo ter recuado no tempo, certamente.

Calma. em casa ainda se roubam sonhos. lá fora o vento leva o tempo.

Cantam os sinos lá fora. 7 da manhã. ouvem-se passos leves aqui pela casa. o tecto de madeira range com o sabor da manhã solarenga.

09/07/2011

...renascer

…escrevo estas linhas com ”Fuga (para 2 pianos)” da dupla Laginha & Sasseti, não que me sinta verdadeiramente inspirado mas porque senti uma inapelável tentação de exprimir algumas linhas depois da leitura sentada, aqui debaixo do telhado de cidade, num vendaval do final de tarde. Este vento que tudo leva e que pouco apaga, tem um sabor especial, mas nada se compara com o sabor do vento que me espera, nesse rio saudoso do esquecimento.
Ainda faltam alguns dias mas sinto aquele formigueiro de alma, aquele suspiro que me acompanha quando passo da VCI. Free at last.
Fuga, ora aí está uma boa ideia para nos livrarmo-nos dessas ditas agências de rating. Para quê dar-lhes importância [que não merecem!] se apenas se trata de puras operações de especulação, ganância e imoralidade. Provavelmente se eu fosse um rico reformado tailandês ou um abastado pensionista a viver na Flórida, provavelmente tão cedo não iria investir o meu dinheiro em títulos de dívida pública portuguesa ou provavelmente dava imediatamente ordem de vendas da minha carteira de acções na bolsa de Lisboa. Todavia, se eu fosse um verdadeiro abutre, talvez esta descida [dita incompreensível, mas com uma aleatoriedade cirúrgica – na véspera do último leilão de dívida!!] fosse sentida com um renovado agrado já que me permitiria adquirir acções a um preço mais em conta. Ora vejamos, a S&P tem participações directas na PT e provavelmente noutras empresas em Portugal. Esta gente actua com pantufas quando o negócio é o controlo e a influência das empresas. Dado que uma das medidas impostas no famoso “memorandum of economic and financial policies portugal” é a privatização da participação do Estado, é normal que no período pré-privatização ocorram mexidas no mercado e se as mexidas forem no sentido de beneficiar quem pretende adquirir, melhor!
No extremo da praia onde desagua toda a nossa impotência face à escalada dos juros, da Euribor e do custo de vida (excluindo a época de promoções que agora se vive!), o português light estende a toalha e lê a bola, como se o problema fosse o vizinho do lado que a esta hora já apresenta um escaldão nas costas, ou aquela senhora que transporta a mala térmica comum rebanho de filhos praia fora. A crise nota-se, é sub-reptícia como o nevoeiro que nos acorda nestas manhãs frescas de um falso verão, mas varre tudo e todos como o vento que empurra as primeiras folhas soltas de um longo outono que se advinha.
Mas nem tudo são tristezas. No meio da adversidade pela primeira vez desde que existe uma Europa ouviram-se vozes [tímidas, é certo!] em sintonia a favor da nossa causa, por essa Europa fora. Estranho e paradigmático dessa tal de União Europeia. Um conjunto de cromos bem-falantes, melhor colocados [que não o nosso Durão] exprimiram espanto, estranheza pelo facto de termos sido nós, a próxima noiva enganada nesta eterna guerra entre o dólar e o euro. No meio desta batalha, enquanto o fulano tira a areia dos dedos dos pés e sacode a que lhe invade as virilhas, gregos, islandeses, irlandeses jazem afogados num mar de dívidas e políticas idealizadas, por outros tantos incompetentes.
Por cá, alguém um dia disse que havia vida para além do défice. Esta semana, outro iluminado referiu que há outra vida para lá do memorando. Deviam-lhes erguer estátuas, colocar os nomes precedido dos respectivos títulos honoríficos numa placa de um qualquer bairro camarário ou simplesmente numa rua deserta [e sem rostos!]. Enchê-los de predicados e substantivos e por fim apresentar-lhe o triste espectáculo de um país à beira-mar, oco por dentro. Façamos uma viagem como eu fiz há poucas semanas, por tristes motivos. Olhemos para uma freguesia nesse interior obliterado: a única escola primária arrisca-se a fechar porque alguém um dia achou piada concentrar as crianças numa enorme feira de gado longe de tudo (menos da terra do presidente da câmara), imaginemos essa aldeia que numa penada fecham cafés, pequenas fabriquetas, que alimentavam o pouco comércio local. Dei um passo atrás no meu livro de memórias e via as crianças a brincar no campo, senti o pulsar do trabalho áspero da terra, mas ouvi sons, ouvi gente. Continuei a pincelar a tela, e imagino agora a mesma aldeia de ruas desertas, com topónimos de gente que um dia não pensou nas consequências e apenas teve uma visão limitada no tempo.
Acabo esta crónica de bons costumes com “Renascer” da mesma dupla. Talvez seja esta a nossa hipótese de fuga[u isso ou embarcarmos na “jangada de pedra”]. Há por aí muito boa gente [e conheço muita!!] que acredita que no nosso valor. Uma dessas pessoas renasce hoje, e com a força de vontade e a determinação que sempre a reconheci, só lhe posso desejar “the best of times” e uma felicidade tão grande como a que sente neste momento. Estou absolutamente feliz por ti.

05/06/2011

...clear conscience



…não deixa de ser curioso o poder que um simples quadrado preto com fundo branco pode ter no destino desta nossa empresa falida.

…este foi o resultado daquela outra vida que existia para além do défice. Pegando nas palavras de um dos manos Costa, começa já amanhã a outra vida para além da troika.

…então que seja possível então um país onde a justiça seja célere e acessível para todos, um país em que o Estado que saiba utilizar o dinheiro dos contribuintes de forma sustentável e sem dará alarido a desvarios e projectos faraónicos. Um país que aposte nas novas tecnologias e no ensino de qualidade. Não num país de falsas oportunidades. Num país em que os professores, médicos, juristas, poetas, escritores, o cidadão comum, sejam respeitados e que de um a vez por todas lhes seja dada oportunidade para fazerem aquilo que melhor sabem. Apenas!

Um Estado que olhe para cultura e para a investigação, não como um mero instrumento de propaganda e de estatística, mas como uma aposta para o próprio país. Se somos conceituados quando estamos lá fora, porque é que somos sempre empurrados para sair?

Um Estado que cobiça novos investimentos com base na mão-de-obra desqualificada e dos baixos salários, é um estado que autocondena o seu futuro.

Um país em que a promoção e a evolução na carreira seja por consequência da competência e da entrega de cada um, e não por compadrios, cunhas ou direitos adquiridos sabe-se lá por que razão. Um país em que sejam dadas oportunidades e estímulos àqueles que não tem meios de defesa ou alternativa.

Um Estado social que sirva para ajudar os que mais dele necessitam e não aqueles que o parasitam. Uma Escola em que o ensino seja uma actividade e não um meio convulsão social. Uma educação que sirva e não se deixe servir pelos interesses obscuros dos sindicatos. Na saúde, uma rede de cuidados paliativos tendo em conta a própria demografia do país, o mesmo se aplicando à rede de creches escolares. Uma rede de instituições de saúde e ensino onde seja possível a integração e complementaridade de instituições públicas e privadas. Integrar o privado não é necessariamente destruir o público.

Um Estado em que o ser público implica haver desperdícios ou má gestão sem qualquer tipo de sanção é um Estado que não honra os seus cidadãos.

Um Estado em que as parcerias público privadas não signifiquem lucro para uns e prejuízo para os contribuintes. Um Estado em que as corporações (uma invenção do Estado Novo) são ouvidas, mas não se impõem pela força.

Um Estado que soçobra sobre a força dos lobbies, dos interesses de alguns grupos não serve os cidadãos. O Estado somos todos nós. Por isso, em cada cadeira na Assembleia da República em cada palavra que se faça voz, faça-se sentir o apelo de cada um de nós.

Um Estado em que a luta contra corrupção é um objectivo claro, e não um conjunto de ideias vagas e objectivos guardados numa qualquer gaveta de uma qualquer Comissão.

..não interessa se são 9, 10 ou 12, interessa que sejam competentes e rectos na decisão. Que saibam honrar a confiança depositada, e que saibam gerir com rigor e consciência o dinheiro dos nossos impostos. O erário público não é deles, é de todos nós.

Será pedir muito?

Agora escolham!...

29/05/2011

...Festa do Cavalo de Porto Salvo

Enquanto meio Portugal discute as alarvidades que este e aquele candidato, mais ou menos molhado vai debitando, outro Portugal (um pouco farto do circo eleitoral) procura refúgio em algo mais salutar e sem dúvida mais enriquecedor. Seja no caldeirão de aromas de Serralves, seja no paladar da Feira do Bacalhau na Casa do Campino, ou mesmo na emoção da Festa do Cavalo de Porto Salvo, não faltam motivos para ignorarmos o triste espectáculo das falsas ilusões.









Mas não desesperemos, são só mais quatro dias, e depois logo se vê quem vai ser o chefe da banda!...

08/05/2011

…remédio dos ratos! “ouvistes”?





Depois de ler o memorandum [eu colocar-lhe-ia o rótulo “epitáfio da classe média”, mas “prontes”!] imposto pela troika que nos veio “salvar” fiquei com aquele amargo de boca que os benfiquistas tiveram quando o Custódio sentenciou o destino mais que provável da nação benfiquista: ficarem em casa, sentados no sofá a comerem pipocas!

Não demorei muito tempo a ler já que o inglês rabiscado, apesar de não tão técnico como o exigido ao nosso futuro ex-PM na sua falecida Universidade Independente, foi de rápida e fácil apreensão. Aliás, de uma forma breve diria que enquanto o PEC 4 era um somatório de boas intenções mas nada em concreto, pelo menos estes três estarolas depois de uma semana a pastéis de nata e bicas ao balcão, conseguiram esmiuçar um conjunto de medidas mais “entalativas” do que o discurso pírrico que o nosso ex-PM nos tentou mais uma vez ludibriar, desta vez com o boneco de cera do nosso ex-Ministro da Fazenda. Oh Catroga! rebobina ai a tape: por acaso alguém se lembra dos festejos e balões no ar com que o (Des)governo manifestou a primeira emissão da dívida pública um anos-luz atrás? Se bem me lembro, nessa altura já um o reputado Paul Krugman avisava que os festejos eram efémeros, pois a economia estava implicitamente condenada à partida.

Todavia apesar de mais de metade dos portugueses ainda não se ter apercebido que afinal vão mesmo “pagar o almoço”, não posso deixar em claro a luta fraterna entre as duas principais forças políticas pela paternidade das medidas apresentadas pelos três cavaleiros do Apocalipse: Devemos mesmo ser o único país do mundo em que isso sucede!?Mas isso tem uma explicação lógica…só é pena eu ainda não a ter descortinado, mas “prontes”! Bem talvez os apoiantes da marcha para a liberalização da marijuana possam acrescentar algumas palavras sobre a temática?

Mas voltemos ao discurso publicitário do nosso futuro ex-PM no intervalo do Barça, tenham em atenção que apesar do boneco de cera não ter dito nada, é necessário consultar o folheto explicativo para mais pormenores:

Para uma consulta mais atenta do prospecto informativo deixo aqui a versão traduzida o inglês do Mr. Blue Eyes, para o português suave: press hereDescansem e alegrem-se Portugueses, Eu consegui um bom acordo. Melhor do que o dos filhos da mãe gregos e os babateiros dos irlandeses! O nosso Governo não vai retirar o subsídio de férias e Natal a ninguém! Andavam por ai uns amigos malandros do Carrapatoso num concurso de ideias terríveis “Mais Sociedade”, uma espécie de Estado Gerais do PSD mascarado de lobo mau, mas Eu não deixei!




E vós pensionistas com 600 euros/mês, relaxem porque Eu não vou tocar com um dedo nas vossas comensais reformas. Atentai oh, funcionários públicos, mesmo aqueles 2,6% que fizeram greve no dia da Prova de Aferição. Não vereis mais cortes nos vossos sólidos salários, para além daqueles que que a força das circunstâncias, fui obrigado a assinar com o Passos!

Quanto ao resto mais não disse, mas subentende-se que mais haveria por dizer a troika depois da bica no Centro Jean Monet! O que veio a suceder em boa verdade

Chega de economia & política e das conjecturas do Catroga sobre os maquinistas da CP e Carris!

O Braga vai a Dublin para grande contentamento de muitos benfiquistas, o José Castelo Branco vai reforçar as audiências da TVI com mais um concurso estúpido, e na América festajam pela morte de Bin Laden. Diria que apesar de dos sinais de inquietação, o mundo prossegue a sua marcha imperturbável rumo a não se sabe bem onde! Já no nosso cantinho odiado pelo finlandeses, com ou sem margem de erro estatístico enfrentamos um verdadeiro paradoxo político: o actual PM que conduziu o país às portas do default (em português suave bancarrota) está na triste eminência de ser reeleito ainda com menos votos, em minoria, e nem o candidato kizomba parece conseguir dar a volta ao texto. Talvez esteja mesmo na hora de legalizar a marijuana e desligar o microfone ao Catroga.



06/05/2011

..meus amigos finlandeses!!



Minun suomalainen ystäväni, joka tiesi ...

05/05/2011

...parabéns amor!



PARABÉNS AMOR!...quantos são?eheheheheh.....tchiii!!!

... má cher Marta!



...Marta chérie  (ne pas confondre avec la outre avec o mesmo nome do OK TeleSeguro ). Ciente de lá extremenécessité d'approfondir a tuas compétences dans la langue française, je propose umas aulas prolongé pour une durée ilimitada, d'un grand maître de la língua du fromage e avec.

Dans os l'intervalles, enquanto tu en apprenant les virtudes de l'ajout de chocolat au repas por tudo e por nada, o mesmo acontecendo com o fromage (moins la tasse de l'eau!), Quelques conseils:

primeiro- Tout d'abord: les Français sont la nica race dans le monde é arredores qui utilisent le pare-choques dans sa fonction, si vous estacionares votre voiture avec lá matricule dessa terra, é normal que eles batam de façon répétée dasn les pare-chouqes , même si elles ont deux metros de chaque côté, ne soyez pas surpris, são mesmo totós!

-dernière: les Français, même s'ils ne sont pas bonnes gens como a gente já sabe, ne laissent plus de deux pieds à la voiture devant et derrière (é uma questão que medires!), parce qu'ils aiment vraiment à utiliser le pare-chocs!Há maluques para tudo!


Ai gaja, ainda a esta horas deves estar a preparez la válise de charton!

Bisous et un botaille de Bordeaux em tua honra! 

18/04/2011

...trim, trim

...depois de ouvir as primeiras palavras do Otelo [geralmente só se pronúncia sobre o quer que seja quando as craveiras estão em flor!] ainda pensei que andasse a beber do mesmo copo que um famoso pedófilo da nossa praça andou a provar desdee os tempos de cárcere nas bonitas e arrumadas instalações prisionais da judiciária autoridade. Mas esta semana após uma expiação das suas palavras  lá emendou o soneto e começou a reivindicar um sonho que teve algures entre a Primavera de Abril e o Verão quente do PREC- uma espécie de democracia directa em que, supostamente os partidos se submetiam à vontade popular. Fazendo um paralelo com com novel M12M, seria o equivalente  a uma Islândia ibérica em que qualquer utilizador de Facebook ou outra rede de arrasto, poderia convocar uma referendo à la carte, por exemplo para abolir por exemplo os parquímetros no centro de Lisboa, ou as portagens na Ponte 25 de Abril, ou possivelmente acabar com as extensas férias parlamentares. Seria engraçado mas demasiado tentador...

Mas depois, de ouvir as palavras teatralizadas do Nobre candidato à puta tiva e exclusiva função de presidente da Assembleia da República, cheguei à firme conclusão que afinal não é o único que anda a beber do Santo Graal da irracionalidade, e que em boa verdade, o consumo de substâncias alucinogénicas está de facto massificado na sociedade. Ao ler a entrevista do apartidário Nobre candidato a de putado, lembrei das sábias palavras de Lincon: "government of the people, by the people, for the people". Aquilo que proferiu é a antítese ao tal "desapego do poder" que ontem tentou disfarçar na entrevista. Posso até profetizar que a sua rentrée dará azo a um desapegado flop eleitoral se continuar a abusar da ingenuidade política que revela. Mas enfim! É com este tipo de ingredientes que o comum português, menos se revê e mais se aflige na hora de decidir entre um prato de carne ou um prato de peixe.

Entretanto, enquanto aquele refinado humorista vai colando cartazes na sinalética urbana de Lisboa em direcção ao FMI, é com agrado matinal [para não dizer enjoo!] que ouço os comentários económicos diários sobre as puta tivas recomendações[ordens] que a troika [não confundir com perestroika!] financeira nos vai agraciar nos próximos 3/4/5/e adiante anos da nossa existência económica!Sublime tentação para a depressão nacional.

Estou certo que as medidas que estão a ser confeitadas nos corredores da Praça do Comércio vão ser tão agradáveis como ortigas na palma da mão. Mas não desesperemos. Com a agilidade de um colete de forças associado ao silêncio soturno do nosso nosso PR e a exímia arrogância do nosso PM, certo certo é que nem o coelho da Páscoa nos salve de uma desgraça à muito anunciada pelo expatriado Medina Carreira.

Depois de tudo somado e fazendo a prova dos nove, chegamos à conclusão que afinal de contas ninguém tocou à campainha para saber se lá dentro havia ou não esqueletos no armário, e um dia são eles que nos batem á porta!...

Acabem-se com as campainhas!...

Agora sim que venha o toque...o rectal!

photo by: Margarida Araújo

04/04/2011

...primavera?

...agora sim posso afirmar que da manta morta do inverno, surgiu clara e doce primavera que nos deslumbra com o sol gélido da manhã. Doce e aveludada pele que faz surgir gomos florais, onde a dormência agora terminada enche de alegria as mil e uma cores que a retina capta. Não fosse tudo isto uma ilusão, diria que estávamos na Primavera, mas não. Estamos em plena crise. Duraram 3 minutos até me aperceber que o capitão Ahab mantém a firme convicção de nos forçar rumo ao descalabro. Podia ter começado a entrevista com a memorável frase: "Call me Ishmael." Ainda me interrogo como tantos continuam a apontar o a lógica como se um arpão se tratasse, um arpão que nos fere a cada passo. Olhando de lado, de frente ou por detrás, para esse Parténon que construiu em seu redor (não aquele que o Eduardo Souto Moura tanto mitifica!), esse monumento mitológico à divindade da sua personalidade, diria que aquilo que a vista alcança a paciência esgotou há muito! Já não são as suas lamentações, os seus "ais", que me movem [se é que alguma vez a maça do Newton caiu alguma vez a meus pés!?quanto mais a cabeça!]. Nem mesmo as suas dores de parto quando fala da sua firme defesa de Portugal desperta qualquer tipo de comiseração. Vivemos numa espécie de primavera Marcelista, lá fora as papoilas dão cor aos prados e no semblante de muitos os cravos já cantam Abril, mas no fundo, estamos ainda embriagados no longo inverno do nosso descontentamento. Sem rumo, atrás de um destino desconhecido, de um abismo branco. Um vazio de ideias, um nada.

Photo by: DDiArte

22/03/2011

...nos tempos do rei Artur



...foram 70 anos a fazer história na rádio e na televisão!Apagou-se hoje a voz do nosso Artur Agostinho, um grande homem da rádio e sobretudo um grande sportinguista!

20/03/2011

..cruzes canhoto

…cruzes canhoto! Se dúvida alguma existisse, os comentários das últimas horas dos mais diversos quadrantes políticos dissiparam as nuvens de incerteza sobre a época que celebramos. Se não é nas palavras do Dr. Portas no soporífero Congresso do CDS, onde a alusão à cruzinha numas hipotéticas eleições em que o CDS vai ser Governo foram o prato forte, ressalta evidente nas palavras duras da Paula Teixeira da Cruz acerca da data da tal carta que o nosso Primeiro rascunhou e enviou para o amigo “porreiro pá!” Barroso [abra-se já uma comissão parlamentar e chama-se o Presidente dos CTT!]. Até o camarada Jerónimo doutor nas artes pagãs da doutrina marxista veio esta semana a púlpito declarar que o Governo oferece aos portugueses uma da duas cruzes, qual delas a mais dolorosa. Não há notícia de que alguns dos fiéis se tenha benzido após a apologia da morte do senhor Sócrates, morte política está claro. Mas voltando aos teixeirismos, o nosso ministro da Fazenda inaugurou também a semana que agora passou uma nova forma de abordagem aos assuntos do estado das finanças: conferências a conta-gotas seguidas de declarações bombásticas e terríveis. Como se não bastassem três PEC [nunca entendi bem onde encaixava a palavra crescimento nisto tudo?] agora o novo alvo a abater são os pensionistas e os futuros desempregados, quer por via da diminuição do tempo de subsídio, quer [ainda mais avassalador!] pela diminuição abrupta da própria indemnização! Se há medidas que dificilmente compreendo, esta é uma delas. Em que medida este ataque ao proletariado se insere numa política dita socialista, democrática e dinamizadora do emprego. Em que medida vai contribuir substancialmente para diminuir o défice português? Procurei a resposta a esta pergunta por debaixo do tapete da minha secretária mas nem o pó vislumbrei. Aliás encontrei a resposta no protesto da semana passada materializada nas famosas notas de 500 euros com a estampa do nosso Primeiro. Mas descansemos irmãos, provavelmente ainda nos próximos meses somos capazes de ser novamente chamados a colocar a cruzinha na folha das falsas ilusões, ou não, dependo da capacidade do sistema informático em reconhecer os portadores da cartão do cidadão.

Ainda assim continuo com uma dúvida: será que o nosso Primeiro também escreveu uma carta com o manifesto eleitoral da sua recandidatura ao PS à Angela Merkel? ou enviou em correio expresso para chegar antes da conferência de imprensa de ontem?

Outra dúvida que me apoquenta é a falta de protagonismo nos media da grande manifestação da CGTP, que ontem levou pela segunda semana consecutiva, milhares de descontes [provavelmente os pais dos da semana passada!?] à nossa primaveril capital. Será que a falta dos 20 skinheads e dos clientes do BPN fizeram a diferença? Os Homens da Luta também estiveram lá ontem,pá camaradas! Ai cruzes canhoto…

Por último, não ouvi os comentários do nosso Presidente acerca da memória dos soldados que caíram no teatro da guerra do ultramar, mas pelos vistos ainda bem que não ouvi. Também me parece que não vou ouvir tão cedo os comentários que ele não vai fazer acerca da crise política em que o nosso País se encontra mergulhado. Afinal o que está em causa é do foro dos correios. Não é matéria séria como escutas telefónicas ou assuntos relacionados com a Região Autónoma dos Açores.

(photo by: do grande fotógrafo Eduardo Gageiro)

12/03/2011

...acordar

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável
da amada, e meu sangue não se encantará.
Então, rosa a rosa murcharão meus ombros.
Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos
de distância, como se tudo fosse o cheiro
que as ervas pungentemente perdem
através do silêncio.


Plácido chegarei à mesa, e de súbito
meu coração se atravessará de gelo puro.
O vinho? Perguntarei. Flores de sal cobrirão
a luz poderosa do meu olhar.
Tempo, tempo. Eu próprio perguntarei no recente
pasmo da minha carne: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.
Então lembrarei a vermelha resina, o espesso
murmúrio do sangue,
o ocre e sobrenatural aroma das acácias.
Tentarei encontrar uma forma.
Com beijos antigos um momento ainda queimarei
o corpo solitário da amada, direi palavras
de uma ternura azebre.
E uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.



Herberto Helder

(Photo by: Michael Papendieck)

06/03/2011

...o ano da morte de Alberto Granado

...aos poucos caiem como peças de dominó, uma após outra, as ditaduras islâmicas suportadas e acarinhadas pela real politik europeia e norte-americana. A esse propósito, retive com alguma ironia e pude deixar de apreciar a postura blasé do nosso bem Amado ministro dos assuntos externos (gosto mais do sotaque do inglês foreign affaiars), ao descaracterizar toda da a polémica em redor do reiterado apoio do ainda actual Governo à ditadura do coronel Kadhafi.
É caso para perguntar, e se Portugal não tivesse interesses nesse e noutros países nas barbas do deserto do Sahara? E se da Argélia, Líbia ou Nigéria não caísse pinga de ouro negro ou sopro de gás natural? Estaria a fortaleza europa tão receosa das movimentações desses povos? E se um dia jangadas milhares desses Povos do Mar sulcarem as águas do mar do meio e entrarem na fortaleza que dizemos nossa, em busca de melhores condições de vida? Quem terá capacidade para suster esta massa humana, quem terá a coragem política de submergir essa vontade sonhada por cada vez mais povos que resistem às migalhas lançadas pela cobiça dos povos da velha europa?

Mas não deixa de ser inquietante ver o quão frágil é a estrutura do poder nestes países tão perto de nossa casa, e a velocidade com que o vírus ou a vacina (alea jacta est) se propagou na maré desse mar que nos divide e nos une. Contrariamente a outras revoltas, não vi bandeiras dos inimigos clássicos a serem queimadas, não vi o livro sagrado bem alto no céu com uma mão firme a apelar ao Altíssimo morte aos infiéis! Vi novos e velhos. Vi gente do campo e da cidade, gente como nós com uma vontade enorme de mudar. O tempo decidirá o pendor da mudança.


De volta ao nosso canto, cumpri a velha tradição de não assistir ao festival da canção. Na minha lembrança saudosista, recordo apenas o playback do Carlos Paião, o mítico José Cid e o fabuloso Quarteto 1111, o grande Fernando Tordo e a voz do Carlos do Carmo, a nossa Simone ou a singular Tonicha. Alguém se lembra dos Gemini? Ninguém. O Festival da canção morreu com o apogeu da cor.



Confesso que fiquei espantado para não dizer intrigado quando hoje de manhã vi que os Homens da Luta tinham vencido a edição deste ano. Como diria o nosso caro Primeiro “este é um momento histórico”. Da mesma forma que a revolução de jasmim nasceu do Facebook e das redes sociais, por cá o povo tomou a palavra e por momentos pudemos saborear um doce aroma a PREC como há muito não se via neste país. É caso para gritar bem alto: tragam-me um cabaz de madeira para eu subir e gritar!. É disto que o povinho é gosta!
Realmente vivemos momentos históricos, épicos eu sei lá mais o quê. Falta-me adjectivos e prosa homérica para classificar tudo o que me vai no rodapé. Por exemplo quem poderia imaginar um primeiro-ministro português deslocar-se com o séquito das finanças ao gabinete da Sr. Merkel, para  pedir a bênção e aprovação das medidas do PREC e as que se seguem (já se falam na versão 3.1a!). Já estou a imaginar o nosso Primeiro com o nervosismo que o identifica e o ministro do fazenda pública com os dedos suados a tentar limpar os números da execução orçamental de Fevereiro no seu Ipad, ambos sentados na antecâmara de espera, com a sinfonia inacabada de Schubert no ouvido e a incerteza dos mercados na cosnciência. Que revistas terão lido? a Hola! espanhola, a Caras portuguesa ou corrosivo Der Spiegel?
Nestes quase 37 anos que nos separam da madrugada dos cravos, nessa manhã em que as gaivotas voaram, com asas de vento, e coração de mar, nunca imaginei sentar-me na sala de espera com a dúvida oscilante entre a sandes de coirato e a salsicha Bockwurst. Provavelmente daqui a uns tempos para além ámen ao Orçamento da República, seremos convidados a introduzir o alemão nas escolas e a substituir o renegado Camões por um mais consentâneo Goethe.

Espero sinceramente que a Cimeira de Primavera decorra com o vento de feição e que em Outubro possamos celebrar de forma entusiástica a Oktoberfest sem o catarro dos mercados, nem a micose do FMI a assar as pertuberâcias nacionais.
No entretantos, sempre podemos exportar os Homens da Luta para aquecer as hostes da chanceler. De uma coisa podemos estar garantidos: da mesma forma que o campeonato já não sorri ao Sporting, já ninguém nos tira o último lugar no Festival da Eurovisão.
Mudando agora o catavento para sul, fiquei amedrontado com a revelação surpreendente do ex-presidente Dr. Jorge Sampaio. Portugal está “em apuros”. Não fui eu que disse, não foi o também ex-venerado Dr. Mário Soares (mais preocupado com do day-after da manifestação da “geração Deolinda”) e muito menos o benjamim António José Seguro que esta semana se colocou (também ele) em cima do caixote da fruta e disse que depois de Sócrates logo se vê.
E assim vamos nós alegremente, avenida da liberdade abaixo no cortejo carnavalesco da fábula de duas páginas do Bloco de Esquerda, e uma manifestação des parvos e parvas que os Deolinda cantam. “É disto que Portugal precisa” usando soundbyte preferido do nosso caro Primeiro.


Notas do chefe de mesa: recomendo vivamente o filme Black Swan uma petit chef-d’oeuvre com uma interpretação notável da bela Natalie Portman (profunda admiradora do irrecuperável Galliano) e por último uma lufada de ar fresco em termos de banda desenhada: Rango, um extraordinário western spaghetti camuflado com humor por um camaleão com problemas de identidade, uma banda sonora sob a batuta e mestria da ILM. Sabe bem o cinema pipoca sem os incomodativos óculos 3D!
Entretanto divirtam se e aproveitem para se desmascararem. Afinal de contas há que aproveitar estes dias para deixarmos de ser palhaços tristes.
No ano da morte de Alberto Granado a pobreza e à injustiça social persistem de mãos dadas com a desigualdade, o desemprego e a fome envergonhada. A luta por um mundo mais justo e melhor não é uma ideologia nem uma utopia. Infelizmente, é uma necessidade.

Bom Carnaval!

photo by: Michael Papendieck


14/02/2011

...endless



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia








Al Berto




Photo by: SaMY

11/02/2011

...jus primae noctis


Desde o tempo de feudal que existe sempre alguém com pretensão para nos lixar com F. Recuemos então uma mão cheia de séculos voltemos ao cretácio da nossa construção europeia. Menina e moça acabada de se comprometer com filho de ferreiro da aldeia, é informada por seu pai, capador de profissão banhado em lágrimas e em grande comoção, que o senhor feudal pretende fazer a rodagem da pura e sacrossanta intimidade antes que a mesma contraia núpcias assim manche o seu imaculado jardim de jasmins como doce ardor do desejo…

…uns séculos mais tarde num esquina de Alfama, enquanto se deliciava no no bafo de ervas aromáticas, Francisco duque do Bairro Alto intenta a sua pernada no parlamento, predispondo-se a vergar a minoria parlamentar no fino gume da dissolução e numa penada, antecipa-se à pretensão insaciável do seu vizinho de terras não muito distantes, Jerónimo conde de Soeiro. A jovem donzela renega desde logo a infâmia do gesto e recusa-se saborear o doce manjar, que do Rato já se advinha.

Uns quilómetros mais a norte a Chanceler Merkel assume também a sua pernada, ao propor uma joint-venture conjunta com o príncipe da sola alta Sarkozy e juntos decidem assombrar-se sobre as virgens economias periféricas e transformá-las em escravas germânias, para deboche e prazer dos restantes parceiros.

De volta ao intendente, mesmo por debaixo da nossa saias, o ministro Rui Pereira da Admiração Interna tenta explicar o inexplicável, e refugia-se na ética da responsabilidade, ao responsabilizar o Director-geral que antes que fosse perneado decide demitir-se, mas é impedido de contrair o acto sem experimentar o longo malho do relatório ministerial.

Como o pecado mora ao lado, uma idosa é encontrada em casa anos, no chão da cozinha mumificada, depois de durante anos ter sido impossível ao tribunal detectar indícios de cheiro nauseabundo, e à autoridade policial factos e argumentos para arrombar a porta da dita senhora. Felizmente que existe uma entidade em Portugal que se orgulha de desflorar e depenar as jovens economias domésticas com mesma voracidade com que a Galp aplica as suas pernadas no momento de ir à bomba abastecer - as Finanças. Se não fosse o frenesim ninfomaníaco com que possuíram o apartamento na aldeia da Rinchoa, como justa recompensa de uma miserável dívida, a esta hora o tribunal estaria ainda com problemas de olfacto, a autoridade policial com a lima e o pé de cabra em boas condições e o Mistério Público sem mais um daqueles casos que se arrastam por décadas e só lixam com F grande quem neles se viu envolvido.

Entretanto, e ainda não refeito do susto por ter sido apanhado com as exportações na mão o nosso Primeiro lá vai electrificando o discurso com o seu leaf azul bebé, enquanto os pobres aldeões da aldeia do Barreiro sofrem uma pernada dos barqueiros do Tejo. E enquanto a nossa ministra da Educação dá o preço por cabeça de aluno, e sua colega da Saúde dá graças ao facto de no primeiro mês do ano já ter poupado dinheiro à conta dos pobres “pernados” contribuintes (que agora para além de sodomizados com a menores comparticipações ainda são simpaticamente empurrados para o privado, onde são duplamente “pernados”) só nos faltava mesmo os usurários virem lamentar-se pelas pequenas descidas nos lucros e desta forma arranjar mais argumentos para soprarem o “spread” mesmo antes do clímax do orgasmo pré débito da mensalidade da casa.

Ora no país real, enclausurado entre esses dois voluptuosos marmelos, com um espartilho dois números abaixo do ideal, afogam-se as nossas certezas e advinha-se um enorme fosso de dívidas. Mal e porcamente, não há traseiro que aguente 7,6% de taxa de juros, por maior ou menor pernada. Isto já nem com lubrificante vai lá, nem mesmo os da Galp!