05/08/2009

..amanhecer sob um céu estrelado

Amanhece frio aqui no alto da serra. A neblina vagueia por entre a milharada e o rebordo da montanha, e ao fundo já se ouvem os primeiros acordes de um dia de trabalho no campo. Acordei cedo com a cortesia de um galo das redondezas. Talvez ele tenha sido célere a ir cedo para a doce palha do seu pouso, mas nós por cá madrugamos bem tarde pois não há nada como apreciar uma boa conversa ao final do dia, nem que seja ao luar disfarçado pelas nuvens que tapavam as constelações.

- Porque é que em Lisboa não há estrelas? – Questionou-me uma pequena.
- Poluição luminosa. Esboçou uma dúvida enorme no rosto, mas expliquei-lhe sem mais demoras e de maneira simples. Entendeu logo. É a poluição que quase ninguém fala, apenas agora no Verão em que há mais tempo para contemplar o céu que tanto medo temos que nos caia em cima é que se abrem as vozes acerca da tal poluição luminosa, que não cheira, não se sente mas que nos impede de ver algo tão belo como o que nos rodeia lá fora.
Quando era novo, sussurravam-me os anciões que cada uma delas era um anjinho, e eu todo contente pois também um dia iria brilhar no céu…
No meu baú de memórias ficaram gravados as noites estreladas em Montechoro dealbar dos anos 80, lá aprendi o que era a Via Láctea, as constelações, a Ursa Maior, a Estrela Polar. Foi lá que vi o primeiro satélite (são uns pontinhos minúsculos que circulam a grande velocidade; talvez com pressa de chegar ao outro lado), ou de uma noite em particular sentado no parapeito da minha varanda em Souto, em que vi uma “chuva de estrelas” como nunca, um bom par de anos após, ainda na companhia do meu avô.

***
Finalizadas todas as démarches burocráticas e após um dia de reuniões, consegui a hercúlea empreitada de colmatar todas as situações pendentes que careciam de legalização. Dado que a segunda-feira é sempre dia de feira na vila, dediquei a terça-feira na esperança de encontrar corredores vazios e disponibilidade total para atenderem aos meus pedidos. Tarefa suplantada. Se houvesse tamanha simpatia no atendimento ao público como a que encontrei por estas terras, talvez os serviços públicos funcionassem de forma mais consentânea como seu propósito maior.

***
Última nota de relevo: o facto de abrir uma média superfície num vila pequena, não significa que as gentes fiquem melhor servidas. O pequeno comércio é inevitavelmente afectado, perdem-se mais postos de emprego do que os que se criam, abrem mais lojas de chineses, onde nunca teriam existido mas sobretudo, deixa-mos de ter produtos de qualidade para ter produtos talvez mais baratos e demasiado normalizados. Felizmente aqui na aldeia ainda há a tradição do padeiro que amanhece com o frio mas que nos traz o pão quente e saboroso, e ainda soa a buzina da peixeira que trás o peixe fresco emaranhado por entre blocos de gelo frio e sal marinho, directamente da lota da Póvoa de Varzim. Pode não ser tão barato como o da média superfície, mas é brilhante como um céu estrelado numa fria noite de verão.

1 comentário:

Sofia Carvalho disse...

Boa Ovo estrelado, aproveita q estás tão perto então para veres a feira de artesanato de vila do conde, e em Barcelos(na minha terra) está a decorrer agora também a feira de artesanato. Mas o que se não pode perder mesmo é amanhã a feira em Barcelos todas as semanas à quinta-feira! imperdível! mais uma vez, boas férias;)