07/01/2009

Mas que anjo és tu?

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.



Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

2 comentários:

ALFF disse...

Tenho que reler este livro, não me recordo disto.

Ai ao ler estas coisas bonitas, penso como gostaria eu de saber fazer estes textos.

Expressar os meus devaneios desta forma simples, mágica e trabalhadas magnificamente todas as palavras, todos os pontos e vírgulas....

O ano passado recebi eu e a minha irmã um daqueles presentes em que dizem que é igual logo não tinham posto o nome. O meu e o dela eram um anjo, só que tinham uma diferença, o meu estava com os olhos tapados como se nao quisesse ver o que estava a acontecer.

Coincidência ou não este ano recebi um Anjo Lindo, sorridente, com uma vela a iluminar o meu caminho. É engraçado sentir isso, eu sinto o meu anjinho, se bem que o diabinho também me espeta o tridente. Pois também sou da paz, mas como tu hoje me disseste que não me chegue a mostarda ao nariz, é que sou alérgica. Aí o meu diabinho normalmente vence. Se bem que tenho uma luz sempre por perto é a sorte. Mas tem andado a dormir, ou de olhos vendados, pode ser que este novo traga a luz que me anda a faltar.

Parabéns adorei ver este texto, só tenho pena não me lembrar pois tenho quase a certeza que já li este livro.

O ovo estrelado disse...

...eu do Almeida Garret tenhio um fascinio pelo "A Queda de um Anjo", acho que é assim que se chama...faz-me lembrar o Portugal actual e os políticos que o infectam...curioso também recebi um anjo, tenho vários cá em casa espalhados em tudo o que é canto!...