31/01/2009

...traços de luz


(...) Sabina já não beijava nem homens nem mulheres. Dentro da febre da sua ansiedade, o mundo ia perdendo a sua forma humana. Estava a perder o poder humano de articular o corpo noutro corpo em plenitude humana. Ela delimitava horizontes, afogando-se em planetas sem eixo, perdendo a sua polaridade e o seu saber divino de integração, fusão: porpagava-se como a noite se propaga no universo e não encontrou nenhum deus com quem repousasse. A outra metade pertencia ao sol, e ela estava em guerra com o sol e com a luz. Não podia suportar traços de luz em livros abertos, nem orquestração de ideias tricotadas num único tema; não seria coberta pelo sol e no entanto metade do universo pertencia ao sol; ela voltaria a serpente apenas aquele que pudesse cobrir-lhe o corpo com a sua sombra dando-lhe a alegria da fecundação.”

Anais Nin, in”A casa do incesto"
(foto: Alexander Kharlamov)

1 comentário:

ALFF disse...

Adoro a musicalidade que algumas frases transmitem. Ler estes excertos por si só já transmitem muitas sensações boas. Eu mudaria o teu nome.

Decididamente Anjo Feiticeiro soa mil vezes melhor, pela magia que transmitem certos textos teus, ou escolhidos por ti.

És angelical e ao mesmo tempo mordaz!
Gosto, apesar da decepção de hoje ao saber que não tens essas raízes por cá. Acho misterioso mesmo! Devias fazer uma terapia regressiva, pois aposto que da forma como falas, já foste muito feliz cá e não deve ser de agora ou das ditas férias! Nenhum Lisboeta fala disto assim como tu, por muito que goste do Norte, ou melhor do Alto Minho.